Marco Rubio, secretário de Estado dos EUA: tensão com Lula antecede sua chegada ao Departamento de Estado americano (Freddie Everett/Official State Department Photo/Divulgação)
Publicado em 27 de agosto de 2026 às 06h00.
“Latino-americano frustrado” e “bolsonarista” foram alguns dos termos usados pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no começo de agosto, para criticar Marco Rubio, secretário de Estado do governo de Donald Trump, nos Estados Unidos.
A animosidade entre os dois não é nova, mas escala à medida que Rubio ganha espaço na política externa do republicano e se projeta como potencial nome para 2028.
Filho de imigrantes cubanos, ex-senador pela Flórida e adversário de Trump nas primárias de 2016, Rubio construiu a carreira defendendo uma linha dura contra governos de esquerda na região. Agora, ocupa uma posição que lhe permite transformar parte dessas ideias em política de Estado.
A tensão com Lula antecede sua chegada ao Departamento de Estado. Em 2023, ainda senador, Rubio acusou o brasileiro de “passar pano” para Nicolás Maduro, afirmou que Lula se “curvava” à China e questionou seu compromisso com a democracia. O histórico ajuda a explicar por que, no Itamaraty e no Planalto, há a percepção de que Rubio e Trump operam com graus diferentes de interesse e ideologização em relação à América Latina.
Para Ernesto Castañeda, diretor do Center for Latin American and Latino Studies e do Immigration Lab da American University, essa leitura é parcialmente correta. Rubio tende a ser mais agressivo porque a região ocupa menos espaço na agenda pessoal de Trump do que frentes como Irã, Ucrânia e Gaza.
“A América Latina, por si só, não é tão importante para Trump, embora ele deseje sobretudo uma região ‘leal’ a ele, governada preferencialmente por líderes de direita alinhados à sua agenda”, diz.
Esse menor envolvimento abre espaço para Rubio imprimir suas convicções, mas não significa uma política paralela. Para Castañeda, o secretário combina ideologia e cálculo político: fez da oposição à esquerda latino-americana uma marca da carreira e, ao mesmo tempo, adaptou posições para se aproximar de Trump.
A divisão de tarefas amplia essa margem de atuação. Enquanto Trump recorre a emissários de confiança em conflitos prioritários, Rubio ganhou espaço no Ocidente. No Brasil, Castañeda avalia que Washington pode demonstrar apoio a Flávio Bolsonaro, mas considera improvável uma intervenção direta nos moldes da Venezuela.
Ambições de Rubio
A visibilidade regional também começa a se converter em projeção interna. Em pesquisa durante a Cúpula Conservadora Ocidental, no Colorado, Rubio recebeu 57% do apoio de mais de 500 participantes, à frente do vice-presidente J.D. Vance, com 21%. O levantamento não é nacional, mas 85% disseram aprovar Rubio para uma eventual candidatura em 2028, ante 71% registrados por Vance e 55% por Ron DeSantis.
Essa projeção, porém, não significa que Rubio conduza uma política própria. Gunther Rudzit, professor de relações internacionais da ESPM, vê uma convergência estratégica entre o secretário e Trump.
“Não dá para separar Casa Branca de um jeito e Marco Rubio de outro, e a principal evidência disso é o documento divulgado no ano passado com a Estratégia de Segurança Nacional americana, que coloca o Hemisfério Ocidental em posição central e explicita a preocupação de Washington com a presença de outras potências, sobretudo da China, na região”, diz.
Para Rudzit, a autonomia de Rubio está mais na execução do que nos objetivos. Ainda é cedo para saber se essa projeção se converterá em candidatura, mas, ao transformar sua visão sobre a América Latina em política de governo, Rubio faz do continente também uma vitrine para suas ambições dentro do Partido Republicano: 2028 é logo ali.