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'Não adianta nos chamar de guardiões e nos deixar de fora das decisões', diz Sônia Guajajara

Em evento do World Climate Foundation, ex-ministra dos Povos Indígenas e o cientista Carlos Nobre alertam sobre ponto de não retorno e defendem união da ciência e saberes ancestrais

Carlos Nobre e Sônia Guajajara em painel sobre ciência e saberes indígenas no World Climate Summit, parte da SP Climate Week (Divulgação)

Carlos Nobre e Sônia Guajajara em painel sobre ciência e saberes indígenas no World Climate Summit, parte da SP Climate Week (Divulgação)

Sofia Schuck
Sofia Schuck

Repórter de ESG

Publicado em 6 de agosto de 2026 às 19h05.

Última atualização em 7 de agosto de 2026 às 10h40.

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Qual conhecimento vai moldar o futuro da América Latina? Essa foi a pergunta que abriu o debate de um evento da World Climate Foundation, nesta quinta-feira, 6, reunindo no palco a ex-ministra dos Povos Indígenas Sônia Guajajara e o climatologista Carlos Nobre, uma das maiores referências científicas sobre a Amazônia. 

O simbolismo não poderia ser maior: a SP Climate Week abriu sua programação com um feito inédito entre as Semanas do Clima ao redor do mundo: pela primeira vez, a cerimônia aconteceu dentro de um território indígena, na Tekoa Yvy Porã, comunidade do povo Guarani Mbya localizada na Terra Indígena Jaraguá, na zona noroeste da capital paulista.

A escolha do território como ponto de partida aproximou e permeou as discussões nos dias seguintes, reforçando a ideia de que não há transição climática e nem futuro sustentável sem incluir e ouvir quem já vive em equilíbrio com o planeta. 

A resposta dos dois convergiu: não existe um conhecimento único capaz de dar conta da crise climática. De um lado, o que é produzido nas universidades e centros de pesquisa. De outro, o saber construído há séculos pelos povos indígenas e comunidades tradicionais em convivência direta com a floresta. Para Guajajara, o que falta é integração.

"Precisamos unir o conhecimento da ciência com os saberes ancestrais", afirmou Sônia Guajajara.

Essa integração já tem um projeto concreto em andamento. Carlos Nobre contou que em breve vai nascer um instituto que incorpora formalmente o conhecimento dos povos indígenas dentro da ciência institucional.

A ideia, segundo ele, é formar uma nova geração de cientistas capaz de combater o desmatamento, restaurar os biomas e desenvolver a bioeconomia da floresta em pé.

Guajajara reforçou que a proteção da Amazônia não é pauta restrita a quem vive na floresta e lembrou que o bioma é responsável por produzir a umidade que alimenta os chamados rios voadores, essenciais para as chuvas em toda América do Sul.

"Proteger a Amazônia é proteger qualquer desenvolvimento", destacou. 

Foi nesse ponto que a ex-ministra fez a crítica mais dura, direcionada ao modelo de decisão que hoje rege as políticas climáticas e territoriais no país e nas conferências internacionais como as COPs do clima. 

"Não adianta nos chamar de guardiões e nos deixar de fora das decisões", complementou.

Segundo ela, ainda existe um distanciamento entre o que é anunciado compromissos e o que de fato chega às comunidades, sobretudo no que diz respeito a financiamento.

Uma das apostas brasileiras neste sentido foi o Fundo de Florestas Tropicais (TFFF), que recebeu o apoio de 53 nações e aportou R$ 5,5 bilhões durante a COP30 em Belém. O mecanismo financeiro considerado inovador prevê 20% dos recursos destinados a povos indígenas e projetos em seus territórios, como um "teste real dessa promessa". 

"Não podemos permitir que essa transição climática repita as mesmas falhas e injustiças do modelo que nos trouxe até essa crise", afirmou, defendendo que é preciso transformar reconhecimento em direitos, promessas em financiamento e conhecimento em ação. Em sua mensagem principal no palco, estava a ideia de "reflorestar mentes". 

O alerta científico do ponto de não retorno

Carlos Nobre trouxe o retrato mais recente e urgente da situação dos biomas brasileiros: Cerrado e Caatinga, junto com o Pantanal e a Amazônia, estão "na beira do ponto de não retorno".

A causa raiz, afirmou, segue não resolvida, apesar dos inúmeros alertas da ciência: o mundo não está reduzindo o uso de combustíveis fósseis na velocidade necessária. Pelo contrário, as emissões globais voltaram a subir no primeiro semestre deste ano.

Diante desse cenário, Nobre defendeu quatro frentes de soluções baseadas na natureza. A primeira é zerar o desmatamento e o fogo, e aqui ele trouxe uma notícia positiva: 2026 deve fechar com o menor índice de degradação em todos os biomas desde que o monitoramento começou, em 1970.

Os incêndios também recuaram em 2025, mas o cientista fez questão de desmontar a ideia de que se trata de fenômeno natural: mais de 95% têm origem humana, e a esmagadora maioria está ligada a crime ambiental.

A segunda frente é a restauração florestal em larga escala, necessária para evitar que os quatro biomas cruzem o ponto de não retorno. O Arco da Restauração já começou a ser implementado, com a meta de recuperar 24 milhões de hectares na Amazônia: 6 milhões até 2030 e mais 18 milhões até 2050.

A terceira é a valorização do conhecimento indígena, que já desenvolveu sistemas agroflorestais responsáveis por mais de 2 mil produtos bioeconômicos. E a quarta é a sociobioeconomia, ainda incipiente: um estudo recente mostrou que apenas 0,6% do PIB brasileiro vem de produtos da biodiversidade.

Em setembro, o cientista anunciou que será inaugurada uma biofábrica pioneira de produção de cacau na Amazônia, dentro de uma comunidade, como parte dessa agenda.

Carlos Nobre também lembrou que o Brasil é hoje o quarto maior produtor de alimentos do mundo e deve assumir a liderança já no próximo ano. Mas fez um alerta: "não podemos deixar os quatro biomas passarem do ponto de não retorno".

Para isso, sustentou, o caminho passa também pelas urnas: "precisamos eleger políticos que vão combater essa emergência climática", concluiu.

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