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Niilismo financeiro

Durante décadas, carreira e patrimônio fizeram parte de uma mesma promessa. Mas essa combinação agora está colocada em xeque

A pesquisa Carreira dos Sonhos 2025 mostrou que apenas 27% dos jovens estão muito ou totalmente felizes com o momento atual de suas carreiras (Lea Toews/Getty Images)

A pesquisa Carreira dos Sonhos 2025 mostrou que apenas 27% dos jovens estão muito ou totalmente felizes com o momento atual de suas carreiras (Lea Toews/Getty Images)

Sofia Esteves
Sofia Esteves

Fundadora e Presidente do Conselho Cia de Talentos/Bettha.com

Publicado em 27 de agosto de 2026 às 06h00.

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Não existe roteiro único para a vida, muito menos para o sucesso. Aliás, sabemos que a própria ideia de sucesso muda de pessoa para pessoa e pode assumir significados bastante diferentes ao longo da vida.

Ainda assim, durante muito tempo, existiram alguns marcos que pareciam fazer parte de uma trajetória bem-sucedida: concluir a faculdade, conquistar o primeiro emprego, fazer uma especialização, receber uma promoção. Não é que essas etapas garantiam felicidade ou plena realização, mas havia uma percepção de que elas aumentavam as chances de uma ascensão consistente ao longo do tempo.

O problema é que essa crença parece ter se enfraquecido. Cada vez mais, especialmente entre jovens, cresce a ideia de que seguir o chamado “caminho tradicional” já não garante os resultados que durante décadas pareciam naturais. Esse sentimento, inclusive, inspirou a riação de um termo: “niilismo financeiro”. O conceito descreve a percepção de que as regras tradicionais de ascensão econômica deixaram de funcionar.

Quando li sobre esse movimento, fiquei me perguntando quanto essa descrença nos caminhos tradicionais de ascensão também não interfere na forma como conduzimos outros aspectos da vida, entre eles a carreira.

No caso das finanças, essa espécie de desesperança tem levado parte da juventude a buscar alternativas que prometem um retorno mais rápido, ainda que envolvam riscos maiores. Segundo um estudo da Northwestern Mutual Planning & Progress, quase um terço das pessoas da geração Z entrevistadas afirmaram investir ou considerar investir em apostas esportivas e mercados de previsão.

Sem entrar no mérito das estratégias, o que me chama a atenção é a consequência da perda de confiança nos caminhos tradicionais. Quando eles deixam de parecer capazes de produzir os resultados esperados, outras possibilidades passam a ganhar espaço. E me parece que essa mesma lógica pode ser observada no mundo do trabalho.

Durante décadas, carreira e patrimônio fizeram parte de uma mesma promessa. A ideia era relativamente simples: estudar, entrar em uma boa empresa, trabalhar duro, crescer profissionalmente e, como consequência, conquistar uma vida financeiramente mais confortável do que a geração anterior. Hoje, essa promessa vem sendo colocada em xeque.

Não à toa, a pesquisa Carreira dos Sonhos 2025 mostrou que apenas 27% dos jovens afirmam estar muito ou totalmente felizes com o momento atual de suas carreiras. Longe de ser um dado que aponta para uma geração menos comprometida ou pouco disposta a trabalhar, essa descoberta parece revelar uma ruptura entre as expectativas construídas durante anos e a realidade encontrada no mercado de trabalho.

As empresas mudaram; as relações de trabalho, também. Carreiras deixaram de ser lineares, a tecnologia acelerou transformações, novas profissões surgem em ritmo constante, e habilidades ficam obsoletas muito mais rapidamente do que antes. Como consequência, o futuro se tornou mais difícil de prever.

Talvez seja justamente essa imprevisibilidade o que ajuda a explicar por que a juventude passou a questionar modelos tradicionais de construção de carreira. Não necessariamente porque rejeita o desenvolvimento de longo prazo, mas porque deixou de acreditar que o tempo, por si só, será recompensado. É justamente aí que enxergo uma missão importante para as empresas.

Se antes bastava apresentar um plano de carreira ou dizer que existiam oportunidades de crescimento, agora será cada vez mais importante mostrar, no presente, como esse desenvolvimento acontece. As pessoas querem vivenciar hoje aprendizado contínuo, novos desafios e experiências significativas.

Uma prática adotada por algumas organizações é reservar parte da jornada para que os profissionais atuem temporariamente em projetos de outras áreas ou em iniciativas estratégicas da empresa. Além de ampliar repertório, desenvolver novas competências e estimular uma visão mais ampla do negócio, essas experiências costumam gerar valor concreto para a própria organização. O resultado é uma relação em que todos ganham: as empresas se beneficiam de novas perspectivas e soluções, enquanto as pessoas conseguem perceber seu crescimento acontecendo na prática.

Também existem empresas que criam programas de intraempreendedorismo, nos quais qualquer colaborador pode apresentar ideias para solucionar desafios do negócio. As propostas passam por etapas de desenvolvimento, recebem mentoria, são avaliadas por lideranças e, quando demonstram potencial, podem até receber investimento para se transformar em projetos reais. Mais do que estimular a inovação, iniciativas como essa mostram, na prática, que as pessoas podem contribuir para a construção do futuro da organização desde já, e não apenas quando ocuparem cargos mais altos.

No fim, estamos falando de iniciativas para mostrar que o investimento que cada indivíduo faz na própria carreira produz resultados concretos agora, e não apenas em um futuro distante. Porque, quando as pessoas deixam de acreditar que o tempo, por si só, será recompensado, não basta dizer que elas vão crescer. É preciso criar experiências que façam esse crescimento ser percebido desde já.

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