Revista Exame
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Isso não é com o Tombini

O trem demora uma eternidade para chegar ao porto — mais um dentre os inúmeros nós de nossa economia. Enquanto isso, ficamos debatendo horas a fio se o Banco Central é muito ou pouco independente. Não faz sentido

Cuidado com o trem: no caminho do porto, uma multidão mora às margens dos trilhos (Claudio Rossi/EXAME.com)

Cuidado com o trem: no caminho do porto, uma multidão mora às margens dos trilhos (Claudio Rossi/EXAME.com)

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J.R. Guzzo

28 de outubro de 2011, 09h45

São Paulo - Dirigir o banco central do brasil é certamente uma tarefa cheia de dificuldades. Durante os oito anos de governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, para ficarmos na história mais recente, o órgão encarregado de zelar pela saúde da moeda nacional levou paulada dia e noite; sob a direção de Henrique Meirelles, que ali ficou do começo ao fim, ninguém neste país parecia gostar do BC, salvo o próprio Meirelles e, para todos os efeitos práticos, Lula.

Quando os juros subiam, e eles subiram a alturas só alcançáveis por alpinistas, o banco era atacado de fora e de dentro do governo, sobretudo de dentro; o então vice-presidente José Alencar ganhou fama malhando diariamente a política monetária. Quando os juros pararam de subir, a pancadaria continuou igual; eles deveriam estar caindo, e não apenas parados.

Quando começaram a cair, os críticos diziam que estavam caindo muito devagar. Enfim, ninguém jamais se deu por satisfeito — o PT, a “base aliada”, as “lideranças empresariais”, a oposição etc.

O então presidente, como se sabe, deixou tudo como estava; pode ter tido as suas dúvidas, mas manteve Meirelles e a política de juros durante os oito anos do seu governo.

Lula, como também se sabe, sempre desconfiou dos cérebros econômicos do PT e redondezas, por achar que só davam palpite errado. Mais precisamente, não lhe davam opções coerentes para combater a inflação — e, no seu catecismo, não existe presidente forte com inflação alta. Certo ou errado? Até hoje se discutem os méritos e deméritos da política monetária de 2003 a 2010, mas o fato é que a inflação nunca fugiu de controle.

As decisões do Banco Central sobre a taxa de juro voltam, nestes dias, a ocupar a atenção de quem dispõe de tempo para se preocupar com o assunto, ou tem obrigação de lidar com ele.

A questão, agora, é a queda da taxa determinada pelo banco — ou, mais precisamente, a ausência de uma argumentação convincente para justificar as decisões tomadas.


Se não há sinais de inflação em baixa, de redução sensível da atividade econômica ou de desemprego em alta, de onde vem a confiança para reduzir os juros? Por outro lado, como já acontecera no governo anterior, critica-se a timidez na redução. Afinal, o Brasil continua na dianteira mundial em matéria de juro alto — até quando o país terá de conviver com isso?

Os termos básicos da discussão permanecem parados. Disputa-se, com calor, se a taxa de juro é ou não é um instrumento eficaz de combate à inflação; se as empresas brasileiras conseguem ou não conseguem competir com os juros praticados hoje; se o Banco Central tem ou não de ser independente — ou se deve ser menos ou mais independente do que é no momento.

Há muita diferença, com certeza, entre os principais participantes do espetáculo — Lula tendia mais a deixar a bola com o BC, enquanto a presidente Dilma Rousseff dá a impressão de ter paciência limitada com autoridades econômicas e agir mais de acordo com a própria cabeça. No fundo, porém, fica-se mais ou menos na mesma.

O Brasil continua imaginando que não há nada tão importante para a economia quanto o Banco Central, o Copom e a política monetária. E continua esquecendo que há um mundo de medidas absolutamente práticas a tomar, por parte do governo, para destravar a atividade produtiva, a criação de riquezas e o verdadeiro progresso do país.

Nenhuma dessas medidas está sujeita a altas dúvidas de natureza doutrinária, ideológica ou seja lá de que gênero for; ninguém, racionalmente, é contra qualquer delas, e todos concordam que o Brasil poderia estar crescendo duas vezes mais rápido se fizesse metade do que precisa fazer. Não é preciso entender nada de economia para saber que metade é essa.

Temos trens que andam a 2 quilômetros por hora, por exemplo, ou milhões de alunos que saem da escola sem compreender direito o que leem, e mais um mundo de coisas assim. Pode dar certo, de verdade? Não pode — com qualquer Banco Central que se tenha.