Impacto resiliente

Das 165 empresas B no Brasil, apenas uma fechou desde o início da crise de covid-19, indo na contramão dos dados do IBGE

O Brasil perdeu mais de 520.000 empresas na pandemia. Esse número equivale a quase 40% dos estabelecimentos que estavam fechados, temporariamente ou definitivamente, na primeira quinzena de junho. Os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) são um retrato de uma realidade dura que veio para chacoalhar o modelo social e econômico em que vivemos e nos fazer repensar certas ações ou nos mostrar os caminhos que funcionam. Um deles é a clareza de que devemos cuidar, estimular e investir em negócios de impacto.

Por definição, empresas de impacto nascem ou se transformam para ter o propósito de deixar um legado socioambiental positivo. Ou seja: mensuram e reportam seus impactos sociais e ambientais com o mesmo rigor que o fazem com os resultados financeiros. Por já terem um olhar sistêmico e geração de valor compartilhado com todos os seus stakeholders — colaboradores, fornecedores, clientes e, claro, consumidores —, essas empresas têm, por experiências anteriores comprovadas, mais chance de passar pela crise com menor prejuízo.

Em 2008, por exemplo, as empresas B, que possuem o comprometimento de impulsionar uma economia mais sustentável e igualitária, passaram pela turbulência de uma maneira muito mais resiliente do que a média das demais. E hoje, 12 anos depois, a história se repete. Das 165 empresas B no Brasil, apenas uma fechou desde o início da crise de covid-19, indo na contramão dos dados apresentados pelo IBGE.

Em razão da característica de promover o impacto positivo, as empresas B vêm contribuindo amplamente para amenizar a crise nas comunidades em que estão inseridas. Está no DNA delas. Um exemplo é a Vivejar, que atua em um dos setores mais afetados pela pandemia de covid-19: o turismo. A agência monta roteiros de expe­riência exclusivos em comunidades tradicionais brasileiras, incentivando o turismo responsável e de impacto positivo nas culturas em que atuam. No início da crise, a empresa criou o Ajude a Vivejar a Ajudar, um financiamento coletivo para apoiar a produção de máscaras nas comunidades parceiras. Outras ações criadas por eles neste momento de crise foram um guia de turismo brasileiro para divulgar e fortalecer essas comunidades e um curso ­gratuito sobre turismo responsável.

Outra grande iniciativa é o movimento #EuCuido, que aliou a profissionalização de mulheres em situação de vulnerabilidade com a compra e doação de máscaras para outras pessoas na mesma situação. Mulheres detentas, ex-detentas, imigrantes ou refugiadas ganham um salário para produzir as máscaras do movimento e, a cada exemplar comprado, outro é doado a uma instituição cadastrada. O projeto foi coidealizado pelo movimento #EuVistooBem — que emprega as mesmas mulheres do #EuCuido —, pelas empresas B Grupo Gaia e Dínamo, além da BlendLab e do Hospital Albert Einstein. O #EuCuido e a Vivejar são apenas dois exemplos entre muitos outros que mostram o impacto que uma organização pode causar em determinadas comunidades, construindo uma relação mais profunda e duradoura com essas pessoas e cujos resultados podem se refletir em períodos posteriores à crise.

Da mesma forma que ajudam seu entorno, as empresas B também precisam de apoio para passar por esta fase. Se existe algo que esta crise tenha nos mostrado é que ninguém precisa (ou mesmo pode) se erguer sozinho. E isso vale para as empresas também. O diferencial de ser uma empresa B é se fortalecer dentro de uma comunidade com objetivos em comum. Quando esse objetivo parte de um propósito claro de atender a uma demanda da sociedade e isso se torna a causa da empresa, o compromisso passa a ser de longo prazo e só assim conseguimos mudar uma realidade. A transformação precisa desse comprometimento e se potencializa e acelera quando essas empresas se unem.

Por isso, iniciativas de financiamento voltado para empresas de impacto são tão importantes. No Brasil, nunca tivemos tanta doação filantrópica. Até agora, foram doados mais de 6 bilhões de reais em ações de resposta à covid-19, segundo a Associação Brasileira de Captadores de Recursos. Se compararmos com o último censo do Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (Gife), esse número é quase o dobro do que foi arrecadado no ano de 2018 inteiro. Vemos que há uma disposição muito maior para realizar doações, o que é muito valioso, mas, por outro lado, precisamos também ter um olhar sistêmico para os desafios do país, que apenas a filantropia não vai resolver. Dessa forma, é necessário investir na construção de um modelo econômico mais justo e equilibrado.

O CoVida20 é um exemplo de como podemos caminhar para essa evolução. O programa de investimento nasceu para ofertar crédito a pequenos negócios de impacto positivo, apostando no que chamamos de sementes da nova economia. Por meio do apoio de doa­dores filantrópicos e de grandes investidores, além de pessoas físicas, o programa estimula uma nova cultura de investimento em rede para que empresas alinhadas com um novo capitalismo possam seguir gerando prosperidade econômica, social e ambiental.

É animador ver que a sociedade também está fazendo seu papel cobrando para que as empresas tenham uma atuação mais consciente. Não há mais espaço para agir de maneira imprudente ou para se preocupar apenas com o próprio lucro, principalmente em situações de emergência como a que vivemos. Seja por um viés positivo de consciência própria, seja porque a reputação da marca está envolvida, já estamos quebrando barreiras importantíssimas, em que pautas sociais, ambientais e de governança (ESG) estão entrando com mais força na gestão das empresas. O futuro será para companhias mais engajadas, mais conscientes. Quem sabe, negócios de impacto possam virar o comum e, então, ser apenas negócios.


 (/Divulgação)

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