Ivan Martinho, CEO da WSL na América Latina: sob sua gestão, o Brasil virou o maior mercado da liga (Leandro Fonseca/Exame)
Repórter
Publicado em 25 de junho de 2026 às 06h00.
País do futebol? A julgar pela quantidade de títulos mundiais, o Brasil, na verdade, é o país do surfe. Enquanto a Seleção sonha com o hexa desde 2002, os surfistas brasileiros venceram o principal torneio da modalidade, o Championship Tour, oito vezes. Isso tudo de 2014 para cá.
Gabriel Medina sagrou-se campeão mundial no ano da Copa do Brasil — e do 7 a 1 —, e também em 2018 e 2021. Adriano de Souza, o Mineirinho, levou a melhor em 2015. Ítalo Ferreira foi o campeão em 2019. Em 2022 e 2023, o título ficou com Filipe Toledo; em 2025, com o curitibano Yago Dora. Neste ano, o Brasil periga saltar de octa para eneacampeão no surfe.
A era de glórias para os brasileiros no esporte das ondas coincide, e não coincide, com o período de atuação da World Surf League (WSL) na região. Controladora global do surfe profissional, ela mantém um escritório no Brasil desde 2017. Foi criado, inicialmente, para facilitar a organização da etapa em Saquarema, no Rio de Janeiro, do Championship Tour, que pertence à WSL. Falamos do Vivo Rio Pro, como a prova é chamada desde 2022, quando o acordo de naming rights com a empresa de telefonia começou a vigorar. “Em matéria de público, faturamento, impacto econômico e audiência, virou o maior evento de surfe do mundo”, resume Ivan Martinho, CEO da WSL na América Latina. Em 2025, o Vivo Rio Pro movimentou 179 milhões de reais, gerou 2.665 empregos e reuniu 410.000 espectadores.
Martinho foi contratado em 2019 com a missão de estruturar o escritório no Brasil, que passou a ser visto como um mercado estratégico. Naquela altura, o país já tinha abocanhado três títulos no Championship Tour. E o surfe estava em vias de estrear na Olimpíada, em 2020, em Tóquio — a pandemia adiou o evento para 2021. “O esporte passou a fazer parte de outra prateleira”, diz Martinho a respeito da inclusão entre as modalidades olímpicas. Sem falar que Ítalo Ferreira voltou de Tóquio com a medalha de ouro. Nos Jogos Olímpicos de Paris, in 2024, a gaúcha Tati Weston-Webb conquistou a de prata e Medina a de bronze.

Gabriel Medina em ação: precursor da chamada “Brazilian Storm”, o domínio dos surfistas brasileiros na WSL durante a última década
Neste ano, a WSL está completando 50 anos. A liga foi fundada no Havaí, nos Estados Unidos, por dois surfistas, Fred Hemmings e Randy Rarick. Chamada de International Professional Surfers (IPS) de 1976 a 1982, começou promovendo competições patrocinadas por marcas de surfwear. O segundo nome, Association of Surfing Professionals (ASP), vigorou até 2014. A troca para World Surf League é fruto da aquisição, um ano antes, pela ZoSea Media, com o apoio do bilionário Dirk Ziff. É ele o dono da entidade hoje em dia. “Antes, os eventos da ASP pertenciam aos patrocinadores”, lembra Martinho. “Ziff adquiriu os direitos e transformou a WSL em organizadora. Com isso, pôde aumentar o leque de patrocinadores.”
Desde 2024, a liga é presidida globalmente por Ryan Crosby, para quem os quatro CEOs regionais respondem. O campo de atuação de um deles é a América do Norte. Outro foca Europa e África, enquanto um terceiro responde por Austrália, Ásia e Oceania. Toda a América Latina está sob a alçada de Martinho. “A WSL Brasil se comunica com um viés mais nacionalista, mas a liga, na verdade, tem o papel de estimular o desenvolvimento do surfe no mundo todo”, explica. “Eu, como responsável pela América Latina, torço pelos atletas da região, sejam eles brasileiros, chilenos ou peruanos; contra os adversários deles, jamais.”
O esporte tem 80 milhões de fãs globais. O Brasil virou o maior mercado da WSL, com 43% da audiência global das transmissões ao vivo, somando exibições de canais de TV e redes sociais. No país, a liga repassou os direitos de transmissão de seus eventos para a Globo; no restante da América Latina, para a ESPN. Além do Vivo Rio Pro, a equipe de Martinho organiza etapas de outras duas categorias, Challenger Series e Qualifying Series, além de eventos de relacionamento. “Os atletas que estarão no Championship Tour daqui a alguns anos competem, atualmente, no Qualifying Series”, afirma. “É onde está o futuro do surfe brasileiro.”
Boa parte dessas etapas compõe o chamado Circuito Banco do Brasil de Surfe. “Passamos a atrair grandes marcas, e não mais só as de surfwear”, comemora o CEO da América Latina. “Sinal de que o surfe passou a falar com todo mundo. Se continuasse a ser visto como um esporte de nicho, como no passado, jamais teríamos conquistado o patrocínio do Banco do Brasil, por exemplo.” Hoje, a WSL é patrocinada no país por 17 marcas, como Corona Cero, Red Bull, Natura Kaiak e Riachuelo.
Um dos principais desafios do braço local da WSL é manter a chama do esporte sempre acesa — e não só quando Medina, Ferreira e companhia sobem no pódio. Um fenômeno inesperado, o das piscinas com ondas artificiais construídas em condomínios ou clubes de luxo, tem ajudado a manter o surfe em alta e ampliado o número de praticantes. Martinho comemora. “Essa praticidade está atraindo muitas crianças e mulheres, e isso é ótimo para o futuro do esporte.”
