Lenta, rápida ou inexistente, a internet divide os brasileiros

A infraestrutura de banda larga no Brasil é o retrato de um país dividido. Parte da população acessa a internet com facilidade. Outra parte não tem conexão
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Thiago Lavado

Publicado em 02/08/2018 às 05:29.

Última atualização em 02/08/2018 às 05:29.

No dia 18 de julho, o ministro de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, Gilberto Kassab, estava em Pacaraima, município do estado de Roraima, na fronteira com a Venezuela, onde o acesso à internet é limitado e a infraestrutura de telecomunicações é deficiente. A cidade foi a primeira a receber o programa Internet para Todos, do governo federal, que pretende conectar hospitais e escolas de municípios em regiões remotas do Brasil. A visita de Kassab aconteceu dois dias depois de a ministra Cármen Lúcia, presidente do Supremo Tribunal Federal, derrubar uma liminar da Justiça Federal do Amazonas que suspendia a parceria da Telebras com a empresa americana Viasat para a exploração do Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações Estratégicas — lançado em maio do ano passado ao custo de 2,8 bilhões de reais e usado pelo programa Internet para Todos para distribuir o sinal. A liminar impedia desde abril o pleno funcionamento do satélite.

O imbróglio do Internet para Todos é um retrato do funcionamento da infraestrutura de telecomunicações no interior do Brasil, que avança lentamente com investimentos pontuais do governo e com recursos das operadoras. Estas não têm incentivos para levar o sinal a regiões de baixa viabilidade econômica, em meio a uma legislação ainda atrasada para lidar com a celeridade típica do mundo online. Em Pacaraima, a primeira escola a receber uma antena do programa foi a Escola Estadual Indígena Tuxaua Silvestre Messias, que tem 196 alunos. A unidade atende 12 comunidades indígenas das etnias macuxi e wapixana e, apesar de agora contar com o sinal de internet via satélite para os alunos, a maioria dos dez computadores não funciona, revelando uma realidade ainda mais difícil do país em termos de acesso à tecnologia.

Estudantes em escola de São Paulo: o acesso à internet é mais presente nos grandes centros | Germano Lüders

De acordo com os últimos dados de uma pesquisa realizada pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação, a proporção de usuários de internet no Brasil cresceu para 67% da população em 2017. Desse grupo de quase 121 milhões de brasileiros, 87% usam a internet todos os dias ou quase todos os dias — 96% conectam-se utilizando o celular, que rivaliza em presença com a tradicional televisão na casa dos brasileiros. Para Eduardo Tude, presidente da Teleco, uma das maiores consultorias especializadas em telecomunicações no país, é preciso olhar para o Brasil em partes, não de uma forma geral. “Existem dois ‘Brasis’ quando falamos de infraestrutura de telecomunicações. Nas 250 maiores cidades, onde reside metade da população, existe banda larga de alta velocidade e redes de fibra óptica. Nas outras 5.000 cidades, a velocidade é reduzida e o acesso também”, diz Tude.

Dados do Índice de Disponibilidade de Redes do Fórum Econômico Mundial, estudo que mede como cada país está preparado para se adaptar aos avanços da tecnologia, colocam o Brasil atrás de outros países emergentes, como África do Sul, Rússia e China. Entre os países do Brics, apenas a Índia tem uma estrutura mais precária do que o Brasil. E isso se reflete na qualidade do serviço de internet no país. Embora a velocidade média da internet no Brasil tenha melhorado nos últimos anos, ela ainda é de apenas 6,8 megabits por segundo, de acordo com dados da Akamai, empresa americana de otimização de tráfego online. O número está abaixo da média mundial e continua bem distante do país mais bem colocado no ranking, a Coreia do Sul, onde a velocidade média é de 28,6 megabits por segundo. Os serviços de telecomunicações são campeões de reclamação entre os consumidores; e, por mais que o número de pessoas com acesso à rede aumente a cada ano, ainda é difícil chegar às classes menos favorecidas e localidades distantes dos grandes centros.

Na opinião de Artur Coimbra, diretor do Departamento de Banda Larga do Ministério, apesar da distribuição desigual e da baixa qualidade da internet rápida, o Brasil está evoluindo de maneira semelhante aos melhores países em desenvolvimento. “Nos últimos dois anos, passamos a nos comparar com algumas nações do Leste Europeu em termos de estrutura e alcance do serviço”, diz Coimbra. No entanto, ele ressalta que é necessário, sim, expandir as redes de fibra óptica e de cabo para os cerca de 40% de municípios que ainda não têm uma interligação com as linhas de distribuição de alta capacidade, uma medida que ajudaria a melhorar a velocidade da internet para o consumidor final.

A importância de aumentar o acesso à conexão fica evidente quando se olha o impacto econômico nas cida-des. Pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) cruzou dados do alcance da banda larga com o crescimento econômico dos municípios e descobriu que, cada vez que dobra a proporção de pessoas com acesso à banda larga, há um incremento de 1 ponto percentual na taxa de expansão do produto interno bruto do município. “Esse crescimento é heterogêneo, com maior impacto no setor de serviços, como varejo e tecnologia da informação, e no fornecimento de serviços públicos, como saúde e educação. Mesmo setores menos atingidos, como a agricultura, podem ganhar com a banda larga”, diz Alexandre Ywata, diretor de políticas e estudos regionais, urbanos e ambientais do Ipea.

Consultores, operadoras e profissionais do setor de telecomunicações consideram inviável levar esse tipo de conexão até a porta de todas as pessoas, por mais que haja algum tipo de investimento pesado em infraestrutura de banda larga com cabos de fibra óptica. A própria pesquisa sobre o uso da internet apontou que o Brasil caminha para ser uma mistura de banda larga fixa com internet móvel. Em 2017, pela primeira vez na série histórica, a população que acessa a internet apenas pelo celular (49%) ultrapassou a que se conecta por computador e também por celular (47%).
Smartphone em uso: o celular é o meio mais popular de acesso à internet | Eliane Neves /Fotoarena

A diferença é marcante quando se olha a divisão entre classes sociais. Nas classes D e E que acessam a internet, 80% utilizam apenas o celular. Na classe A, 88% usam celular e computador. “Há 20 anos, achava-se que toda residência precisava ter telefone fixo. O que aconteceu é que hoje as pessoas nem o usam mais. É uma lição que temos de aprender quando olhamos a banda larga fixa. A tecnologia móvel será mais inclusiva, porque ela é mais barata e tem um alcance maior”, diz Tude, da Teleco.

O consultor lembra que a regulação do setor de telecomunicações — que completa 21 anos em 2018 — foi construída com a ideia de levar o telefone fixo para toda a população. A lei segue desatualizada e é insuficiente para lidar com a evolução tecnológica (um novo projeto de lei está em tramitação no Congresso). “A diminuição da carga tributária, a simplificação do licenciamento de estações rádio bases e a necessidade de compartilhar redes entre as operadoras são desafios que precisam ser encarados para que o Brasil tenha êxito em expandir a banda larga para o patamar de países desenvolvidos”, afirma Homero Salum, gerente de engenharia da operadora de telefonia TIM.

Os investimentos das operadoras na expansão das redes continuam altos, mas já foram maiores. No ano passado, somaram 28 bilhões de reais, o menor valor desde 2015. A questão é que há uma necessidade de fazer aportes mais volumosos até que ocorra uma distribuição ampla das redes 4G e 5G, para levar uma transmissão de alta capacidade até o consumidor. Segundo dados de especialistas, seria necessário investir mais 50 bilhões de reais por ano durante cinco anos para univer-salizar o serviço de banda larga no país. “Com a banda larga fixa, é preciso entregar a internet cabeada na casa das pessoas. O 4G e o 5G oferecem o mesmo serviço com menos recursos e, ainda assim, com velocidade rápida”, afirma Rubens Mendonça, executivo de desenvolvimento de negócios móveis da Huawei, empresa chinesa de equipamentos de telecomunicações.

É possível que, num país com as dimensões do Brasil, expandir a banda larga móvel seja a solução mais barata e viável para levar internet rápida aos municípios do interior. O problema é que nem mesmo essa solução é capaz de atender os brasileiros que vivem em regiões isoladas na Amazônia, como o caso da escola de Pacaraima, em Roraima. Enquanto não houver uma alternativa, o desejo de levar conexão a todos ficará apenas no papel.