Economia pode resolver desafios da humanidade, diz professor

Em livro lançado nos EUA, Dani Rodrik, professor da Harvard, faz uma apaixonada defesa do estudo da economia para a solução de grandes questões da atualidade.
Funcionário do banco Lehman Brothers: os economistas não previram a crise sistêmica provocada pela quebra do banco (Chris Hondros/Getty Images/Getty Images)
Funcionário do banco Lehman Brothers: os economistas não previram a crise sistêmica provocada pela quebra do banco (Chris Hondros/Getty Images/Getty Images)
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Eduardo SalgadoPublicado em 18/04/2016 às 05:56.

São Paulo — O economista Dani Rodrik, um dos mais respeitados do mundo, passou anos batendo em seus colegas de profissão. Seriam, segundo ele, obcecados por modelos matemáticos — e pouco interessados em outras áreas do conhe­cimento. Ironicamente, coube a Rodrik escrever uma das mais apaixonadas defesas da teoria econômica.

Para ele, é a economia que poderá resolver os maiores desafios da humanidade, como a pobreza e a desigualdade. Leia trecho do livro Economics Rules (“A economia manda”, numa tradução livre). Um economista, um médico e um arquiteto estão viajando num trem e começam uma discussão sobre qual de suas profissões é a mais nobre.

O médico assinala que Deus criou Eva de uma costela de Adão e argumenta que Ele deve ter sido um cirurgião. O arquiteto intervém dizendo que, antes de Adão e Eva existirem, o universo teve de ser criado a partir do caos, e esse foi, com certeza, o feito de um arquiteto. A essa altura, o economista, até então quieto, diz: ‘E de onde vocês acham que veio o caos?’

A economia sem seus críticos seria como o personagem shakespeariano Hamlet sem o príncipe. As pretensões científicas da disciplina, seu status entre as ciências sociais e a influência de economistas em debates públicos são um ímã para os detratores.

Os críticos acusam os economistas de ter uma aborda­gem reducionista dos fenômenos sociais, fazer alegações universais infundadas, ignorar o contexto social, cultu­ral e político e ter um viés conservador. Na minha opinião, boa parte das críticas mais gerais erra o alvo.

A economia é uma coleção de modelos que admitem uma ampla diversidade de possibilidades, e não um conjunto de conclusões preconcebidas. É verdade que alguns economistas parecem esquecer disso em suas declarações públicas. Eles tendem a ignorar a diversi­da­de do debate que existe dentro da pro­fissão. Ao fazer isso, dão munição aos críticos que dizem que os economistas defendem soluções universais ou são devotos do fundamentalismo de mercado. Mas os críticos também precisam compreender que ‘os economistas das soluções universais’ não estão sendo fiéis à economia. Uma vez reconhecido isso, muitas das críticas mais comuns são anuladas ou perdem a força.

Primeiro, vamos analisar um pouco a queixa de que os modelos econômicos são excessivamente simples. Essa objeção ignora a natureza da análise. A simplicidade é, por definição, um requisito da ciência. Ela deixa muitas coisas de fora para poder focar o essencial. Cada explicação e cada hipótese são, necessariamente, uma idealização. Simples não quer dizer simplista, é claro.

Passemos agora à crítica de que os modelos econômicos fazem pressuposições irrealistas. Muitos pressupostos que entram em modelos — como a competição perfeita — são obviamente falsos. Mas modelos com pressupostos irreais podem ser úteis. São como experimentos de laboratório em condições controladas — longe, portanto, do que ocorre no mundo real.

Tais experimentos, porém, permitem identificar as relações de causa e efeito. Por tomar o indivíduo como sua unidade de análise, os economistas são muitas vezes criticados por negligenciar o papel de questões sociais e culturais.

A obsessão de economistas por escolhas feitas por famílias ou investidores individuais, segundo essa linha de pensamento, obscurece o fato de que as preferências e os padrões comportamentais são ‘socialmente construídos’ ou impostos pela estrutura da sociedade.

É certamente verdadeiro que os modelos referenciais mais básicos dos economistas negligenciam as raízes sociais e culturais das preferências e objeções das pessoas. Mas que fique claro: os modelos podem ser ampliados e incluir essas influências.

Uma turma tendenciosa?

Vamos passar para a crítica seguinte. Teriam os economistas um pendor para soluções baseadas no mercado? De novo, provavelmente, os economistas mereçam ser criticados. Mas aqui o problema tem mais a ver com a maneira como eles se apresentam em público do que com a disciplina.

Os economistas em busca de reconhecimento na área de pesquisa hoje não procuram demonstrar como os mercados funcionam bem, mas encontrar exemplos interessantes que se contraponham à ideia da ‘mão invisível’ de Adam Smith (segundo a qual, o principal motor do mercado é a busca das pessoas pelos interesses próprios).

Para acabar com a impressão de que existe uma tendência às soluções de mercado é preciso divulgar ao público a diversidade de modelos existente na academia. Ainda na lista de críticas, muitos argumentam que as teorias dos economistas não podem ser testadas de maneira apropriada. A análise empírica nunca é conclusiva, e teorias inválidas raramente são rejeitadas.

Ainda segundo a crítica, a disciplina oscila de um conjunto de modelos preferidos a outro, impelida menos por evidências do que por modas passageiras e ideologias. Reconheço que parte dos economistas se apresenta como os físicos do mundo social e, por isso, aceito essa crítica como merecida. No entanto, as comparações da economia com as ciências naturais são enganosas.

A economia é uma ciência social, o que significa que a busca por teorias e resultados universais é sempre inútil. Um modelo econômico (ou teoria) é, quando muito, contextualmente válido. Esperar a validação ou a rejeição empírica faz pouco sentido.

A economia avança expandindo o conjunto de modelos potencialmente aplicáveis, com os mais novos captando aspectos da realidade social que foram omitidos ou negligenciados pelos anteriores. 

A economia também é acusada por sua incapacidade de fazer previsões. ‘Deus criou os economistas que fazem previsões para os astrólogos se sentirem respeitáveis’, brincou certa vez o economista John Kenneth Galbraith, morto em 2006. Antes do estouro da crise financeira global, a vasta maioria dos economistas dizia que a estabilidade macroeconômica e financeira viera para ficar.

Esse engano foi consequência de um erro muito comum: tomar um modelo por o modelo. Se os economistas tivessem levado as próprias pesquisas mais a sério, teriam ficado menos confiantes em relação aos efeitos positivos da inovação financeira e da globalização. Por outro lado, nenhuma ciência social poderia ter a pretensão de fazer previsões e ser julgada por isso.

Quando muito, podemos esperar que os economistas, assim como outros cientistas sociais, façam previsões condicionais: se tais fatores mudarem, enquanto outros se mantiverem constantes, os resultados mais prováveis serão tais e tais.

É o que nos dizem os bons modelos. Podemos ficar razoavelmente seguros de que controles de preços produzirão escassez e que uma injeção enorme de dinheiro por um banco central, em tempos normais, produzirá inflação. Por fim, vamos analisar a crítica de que a economia desestimula o pluralismo e é hostil a novas abordagens e ideias.

A economia deveria se tornar mais inclusiva, dizem, mais pluralista e mais receptiva a abordagens heterodoxas. Essa crítica é muitas vezes expressa por estudantes. Meu exemplo pessoal é emblemático.

Muitas vezes as conclusões das minhas pesquisas contrariaram ideias dadas como acima de qualquer suspeita pela maioria dos economistas, mas minha carreira nunca foi prejudicada por isso (pelo menos, acredito que não!). Não creio que meus trabalhos tenham sido julgados com mais severidade por publicações acadêmicas ou por meus pares.

Pluralismo no que diz respeito às conclusões é uma coisa. Pluralismo relativo a métodos é outra bem diferente. Nenhuma disciplina acadêmica é permissiva quanto às abordagens que divergem demais das práticas prevalecentes — não apenas a economia. Um aspirante a economista tem de formular modelos claros e aplicar técnicas estatísticas apropriadas.

Para ser considerado do ramo, ele precisará operar dentro dessas regras. Não sigo as regras porque é isso que me permite exibir minhas credenciais, mas porque as considero úteis. As regras disciplinaram minha pesquisa sem serem limitadoras a ponto de me impedir que seguisse interesses ou caminhos de análises que produziram conclusões fora da ortodoxia.

A economia oferece pouco espaço para o pluralismo metodológico — mas isso não quer dizer que haja pouco espaço para a diversidade de conclusões. Acredito que a maioria dos economistas diria que ter regras é uma coisa boa porque oferece proteção contra pensamentos fracos ou dados empíricos precários. Alguns métodos são melhores do que outros.

Estruturas formais que identificam explicitamente ligações de causa-efeito, por exemplo, são melhores do que explicações verbais que deixam o caminho aberto para interpretações divergentes. É fácil exagerar a rigidez das regras dentro das quais os economistas operam. Boa parte das críticas à economia se resume à acusação de que os economistas estão usando o modelo errado.

Eles deveriam ser keynesianos, marxistas ou seguir outra escola em vez de neoclássicos. Mas a simples mudança para uma estrutura alternativa, que também não tem universalidade e capta apenas uma fatia particular da realidade, não pode ser a solução. Insights dessas perspectivas alternativas são, na verdade, facilmente acomodados dentro das práticas de modelagem usadas como padrão.

Todas essas divisões podem ser vencidas quando se vê a economia como uma coleção de modelos e um sistema de navegação. A economia oferece muitos alicerces e ferramentas analíticas para enfrentar as grandes questões de nosso tempo.

O que ela não oferece são respostas definitivas, universais. Os resultados obtidos precisam ser combinados com valores, julgamentos e avaliações de natureza ética, política ou prática. Estas últimas têm muito pouco a ver com a disciplina da economia, mas muito a ver com a realidade.”