E ninguém se lembrou...

Durante a longa agonia de Carlos Lupi em praça pública, discutiu-se de tudo — se sua saída afetaria a base aliada, se o PT ganharia, se a popularidade da presidente seria afetada. Só faltou perguntar o que seria melhor para o interesse público

São Paulo - É pedir muito, claro, porque o governo não está aí para ficar servindo de balcão de informações ao público — mas, se não fosse assim, bem que se poderia perguntar que diabo, afinal, aquele ministro do Trabalho ficou fazendo até agora em seu emprego. Por que não o mandaram embora logo?

O ministro, já há tempos, transformou-se em ex-ministro. Virou suco, com a movimentada sequência de “malfeitos” denunciados dia após dia em seu redor, e que permanecem até hoje sem nenhuma explicação razoável de sua parte; pior ainda, foi pego em flagrante de mentira, ou de maciça ausência de memória, na tentativa de responder às acusações, incluindo as que foram comprovadas por fotografia.

Lideranças de seu próprio partido desistiram de defendê-lo e o aconselhavam a pedir as contas. Sua credibilidade junto à Presidência da República tinha chegado às vizinhanças do zero. Trabalhar como ministro do Trabalho, evidentemente, ele não poderia mais. Não podia, é claro, assinar nada com um mínimo de importância. Não podia decidir coisa nenhuma.

Não podia mais nomear nem demitir. Ninguém conseguiria imaginá-lo organizando novos projetos de ação para sua área — estudos para a revisão das leis trabalhistas, por exemplo, ou para a redução dos encargos sociais para as empresas, ou para o combate ao apagão de mão de obra qualificada e outras questões-chave que o governo se diz interessado em atacar.

Não existia a menor hipótese de que ficasse no ministério depois da reforma que, segundo se anuncia, a presidente Dilma Rousseff pretende fazer nos primeiros meses do ano que vem. O que, então, o homem ainda fazia lá — e por que, principalmente, o público deveria continuar pagando o salário, os benefícios e outros custos de um ministro que não era mais ministro?

Coisas do Brasil. Aqui é assim: o cidadão que ocupa um posto no primeiro time da administração federal (ou no que se supõe ser o primeiro time, pelo que está escrito no organograma oficial) é desossado em praça pública depois de construir um desastre na sua área, mas continua no cargo, rodando em carro chapa-branca e subindo para seu gabinete em elevador privativo, até que convenha ao governo colocá-lo na rua.


Ninguém discutia mais, a essa altura, o que ele fez de errado; foi-se, felizmente, aquela fase teatral em que se pediam “provas” com voz indignada. A única coisa que passou a interessar, na prática, era definir se sua saída seria melhor para o Palácio do Planalto agora, até o fim do ano, ou mais tarde.

Foram feitos todos os cálculos de quem ganha e quem perde. Discutiu-se se o partido do ministro deveria ser tratado assim ou assado, qual o impacto a se esperar na “base aliada” e como o PT ficaria na história.

E as centrais sindicais — como manejar essa turma diante do naufrágio? Como ficaria a popularidade da presidente Dilma — iria melhorar se o ministro fosse embora logo?

Será que melhoraria muito ou será que uma sétima demissão ministerial em seguida já seria recebida apenas com enfado? O que o ex-presidente Lula queria que fosse feito?

A única coisa que não passou pela cabeça do governo foi indagar o que seria melhor para o interesse público. Questões como essa, na sua visão do mundo, não devem ser perturbadas por considerações estranhas às necessidades da “engenharia política”.

Isso é assunto para profissionais, os únicos capacitados a lidar com as complexidades da “formatação” do ministério, do “tecido político”, da “química de alianças” etc. A população que espere; na hora certa será informada do que foi decidido para o seu bem. Talvez não se deva mesmo esperar por mais.

Já é um progresso, sem dúvida, que o governo da presidente Dilma Rousseff demita, a um momento qualquer, os elementos cuja má conduta acabe vindo ao conhecimento público através dos fatos divulgados pela imprensa. Se estivesse ao lado da frente pró-corrupção que hoje se consolida como força política e ideológica, sob a bandeira do combate ao “moralismo”, ninguém seria demitido nunca.

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