Fora das passarelas, grifes investem em filmes na pandemia

A moda sempre apoiou manifestações culturais, mas pelo mecenato. Nos últimos tempos, grifes como Burberry e Gucci passaram a criar seus próprios filmes e instalações

RESUMO

  • Arte e moda sempre se aproximaram pelo mecenato: grifes bancavam museus e patrocinavam exposições

 

  • Com a pandemia, as marcas viraram as próprias produtoras de filmes, musicais e instalações

 

  • A Gucci se associou ao cineasta Gus Van Sant e à cantora; a Burberry fez uma apresentação coreografada pela artista Anne Imhof

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Um dos efeitos mais evidentes desta pandemia de covid-19 é sua carga de dramaticidade, seja a da vida das pessoas no isolamento, seja a detonada pela crise financeira que fechou os trânsitos culturais e físicos pelo mundo. Não seria diferente na moda, esponja do tempo nas ruas, nas vitrines e, nos últimos meses, mais do que nunca, nas artes visuais.

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O drama que acompanhou por décadas as apresentações de desfiles e era pouco sentido pelo grande público, sempre alheio ao que acontecia nos lugares fechados reservados a convidados, virou agora o cerne das parcerias e dos filmes com artistas contemporâneos empreendidos por grifes de luxo.

Essa aproximação da arte com a moda extrapolou a mera ajuda financeira e os patrocínios às instituições culturais, que pautaram neste século o envolvimento dos grandes grupos fashion com a produção artística mundial. A Prada tem um museu nos arredores de Milão, a Louis Vuitton mantém uma fundação no Bois de Boulogne, em Paris.

Em vez do mecenato, as marcas agora criam peças de arte para difundir seus nomes e validar suas histórias. O auge dessa aventura ocorreu no fim do ano passado, com o lançamento do festival GucciFest.

Com uma série de curta-metragens dirigidos pelo cineasta Gus Van Sant (de Garotos de Programa e Gênio Indomável), a grife italiana apresentou roupas que antes desfilariam em passarelas comuns.

Desfilariam, porque a etiqueta anunciou logo após o início da pandemia ter rompido com o formato de temporadas com base nas estações e o sistema de lançamentos. Arte, está posto, será o foco.

Mas arte emoldurada pelo viés fashionista, que fique bem claro. Nos sete episódios da série Overture of Something that Never Ended, celebridades como os cantores Harry Styles e Billie Eilish, fenômenos da juventude pop, cruzam o caminho da modelo Silvia Calderoni, com poses e looks da Gucci desenhados pelo estilista Alessandro Michele.

O diretor criativo da marca codirigiu a série de curtas com Van Sant e esteve por trás da seleção de 15 jovens estilistas que também gravaram filmes, bancados pela marca, para apresentar suas ideias no festival. “Foi um salto necessário. Precisava de um veículo para me injetar na vida, para retratá-la por dentro”, disse Alessandro Michele sobre a incursão cinematográfica.

Essa carga dramática também pegou em cheio a inglesa Burberry na última Semana de Moda de Londres, quando a grife transmitiu uma apresentação coreografada pelo estilista Riccardo Tisci em parceria com a artista alemã Anne Imhof.

Os vocais potentes da cantora Eliza Douglas ecoaram por uma floresta perto de Londres, enquanto modelos se reuniam em meio a estátuas, simulando luta e dança numa apresentação que, no jargão artístico, tem a alcunha de happening.

É fato que na última década os estilistas enveredaram fortemente por outros campos da expressão visual, sem necessariamente vincular nas obras uma propaganda de suas grifes.

O americano Tom Ford talvez seja o principal nome dessa trama dramática. Seus dois filmes, Direito de Amar e Animais Noturnos, receberam indicações ao Oscar, respectivamente, em 2009 e 2016. 

No Brasil, o fundador e diretor criativo da Osklen, Oskar Metsavaht, tem uma prolífica carreira de fotógrafo, com imagens já vistas, por exemplo, no evento Photo Art BA, de Buenos Aires, e na feira Art Basel Miami.

Aliás,­ é na Design Miami, paralela à feira principal que, por sua vez, é extensão da anual que ocorre em Basileia (Suíça), onde a moda melhor assume o gosto pela arte.

Por lá, na edição de dezembro de 2019, a Louis Vuitton apresentou uma prateleira-obra de arte criada pelo designer de objetos californiano Andrew Kudless. A peça, chamada Swell Wave, fez parte da linha limitada ­Objets Nomades, território livre para artistas interpretarem a marca francesa.

Um ano antes, essa interseção foi levada à mesma feira pela Fendi, que chamou um dos nomes ascendentes do design contemporâneo, a holandesa Sabine Marcelis, para criar instalações de… fontes. O conjunto The Shapes of Water simulou o caminho da água nos tubos das fontes de Roma, cidade sede da grife, que só aparecia nas peças em detalhes para formar o par de efes do logo da etiqueta.

A empresária Silvia Venturini Fendi já financiou diversos filmes do cineasta italiano Luca Guadagnino, de Suspiria, de 2018, ao oscarizado Me Chame Pelo Seu Nome, de 2017. Na ocasião, ela resumiu o interesse da moda em furar a bolha das passarelas e assumir outros espaços culturais como necessidade da indústria. “A moda precisa estar conectada ao que ocorre no mundo, expandir seu olhar”, disse Fendi. 

A empresária, no entanto, mostrou reservas quanto à ideia da costura se fundir aos ideais da arte, um velho drama da moda que, vira e mexe, dá o tom de discussões acaloradas no meio fashion. Para ela, “a moda se aproxima mais do papel do design, de ser um misto de criatividade e funcionalidade” e ambos teriam um senso de uso que, no final do dia, é preciso atender. E cravou: “Na arte, isso não existe”.  

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