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O dinheiro traz felicidade?

Com a taxa de juro nas alturas e o poder de compra reduzido, o dinheiro virou um dos principais fatores para a felicidade dos brasileiros, segundo pesquisa inédita do instituto locomotiva

Murilo Duarte, fundador do canal Favelado Investidor, de 27 anos (Leandro Fonseca/Exame)

Murilo Duarte, fundador do canal Favelado Investidor, de 27 anos (Leandro Fonseca/Exame)

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Karla Mamona

19 de janeiro de 2023, 06h00

Se teve algo que foi importante em 2022 para o brasileiro foi o dinheiro. Ou a falta dele, em muitos casos. A inflação terminou o ano em 5,79%, acima do teto estipulado pelo Banco Central, e foi a responsável por reduzir o poder de compra.

A Selic ­— no maior patamar dos últimos cinco anos — deixou o crédito mais caro. Com a renda menor e com menos condições de financiamento, quase 80% das famílias estavam endividadas no final do ano passado, segundo dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor.

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A perspectiva de que os juros sigam elevados fez o brasileiro recorrer aos seus fundos, seja para manter o padrão de vida, seja para pagar dívidas — justamente em um momento em que deveria estar aplicando.

Os saques dos fundos de renda fixa chegaram a 140 bilhões de reais nos últimos dois meses do ano passado, segundo dados da Anbima. A poupança, o investimento mais tradicional do país, perdeu 103,2 bilhões de reais no ano passado, um recorde.

O cenário econômico desafiador coloca o dinheiro em foco. Para o brasileiro, ele não é só um instrumento necessário para pagar as contas. O dinheiro tem um peso importante quando se trata de felicidade.

Um levantamento realizado pelo Instituto Locomotiva, com 1.682 pessoas entre 18 e 77 anos e divulgado com exclusividade para a EXAME, apontou que para 86% das pessoas o dinheiro é importante para a felicidade. Desse total, 32% disseram que é muito importante.

O resultado da pesquisa vai na contramão da crença popular de que o dinheiro não traz felicidade. Para Claudia Yoshinaga, coordenadora do Centro de Estudos em Finanças da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas, o ditado popular é quase um lembrete sobre em que as pessoas gostariam de acreditar.

“É uma ideia quase meio mágica de que dinheiro e felicidade não estariam relacionados. Entretanto, a maioria tem a percepção clara de que a falta de dinheiro pode trazer muitas complicações no dia a dia”, diz. Uma pesquisa realizada pela Universidade Harvard, nos Estados Unidos, comprovou que ter dinheiro realmente ajuda a evitar o estresse.

Durante um perío­do de 30 dias, um grupo de 500 pessoas relatou diferentes eventos do seu dia a dia e como reagiam emocionalmente. Os participantes que possuíam uma renda maior sentiam que tinham mais controle emocional sobre os eventos negativos que haviam acontecido, como emergência financeira. O dinheiro faz com que o problema que surge seja solucionado de uma maneira mais rápida, gerando menos estresse.

(Arte/Exame)

Segundo a pesquisa do Instituto Locomotiva, o dinheiro é bem importante para quem se considera mais pobre. A resposta foi apontada por 31% dos entrevistados. Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva, explica que, nesse caso, a felicidade está relacionada a necessidades básicas, fundamentais para a sobrevivência.

“A felicidade é impactada por ter três refeições básicas por dia. Por ter aquilo que não tem. A pessoa vive uma vida de restrição”, diz. Murilo Duarte, de 27 anos, influenciador conhecido como Favelado Investidor, sabe disso na prática. Ele passou a infância e a adolescência na periferia de São Paulo.

Lembra que quando era criança a felicidade estava relacionada a brincadeiras como soltar pipa e jogar bola. Mas ficava triste em datas comemorativas, quando não ganhava presente no aniversário ou no Dia das Crianças. “Era raro comer pizza na minha casa. Era um momento de união da família. Trazia um sentimento de felicidade e conforto.

O dinheiro proporciona momentos de felicidade”, diz. No início da vida adulta, Duarte passou um período de apreensão relacionado ao dinheiro. Com uma dívida de cerca de 20.000 reais, ele perdeu o sono e vivia estressado. “Não conseguia me concentrar no trabalho com tamanha preocupação.

Dificilmente quem está nesse estado emocional consegue ficar feliz.” A vida financeira do influenciador mudou após o sucesso nas redes sociais e com a empresa fundada por ele. Ele lembra que logo que passou a ganhar mais realizou um desejo antigo de criança.

“Fui ao mercado e enchi dois carrinhos de compras. O dinheiro proporcionava fartura. Minha família e meus amigos poderiam abrir a geladeira e comer o que quisessem”, diz. Há dois anos, ele alcançou a marca do primeiro milhão de reais.

“Foi a felicidade da conquista e de saber que a minha família poderia contar comigo em relação ao dinheiro e que eu poderia dar uma vida mais confortável para minha mãe e minha avó”, afirma.

Lucas Rufino, de 27 anos, empresário que ficou milionário aos 24 anos (Arquivo Pessoal/Reprodução)

O empresário Lucas Rufino, de 27 anos, também tem uma trajetória de ascensão financeira e conta que, com o passar dos anos, a percepção de felicidade relacionada ao dinheiro se transformou. Aos 20 anos, ainda quando cursava engenharia civil, a família ficou em uma situação difícil após a morte do pai.

Veio a responsabilidade de cuidar da mãe, que na época ganhava um salário mínimo, e dos irmãos menores de idade. “Minha mãe chorava por causa do dinheiro. Meus irmãos estavam preocupados. Isso era uma dor para mim. Eu queria dar uma vida melhor para eles.

Eu precisava ganhar dinheiro, e isso virou uma obsessão”, diz. O jovem trabalhou como motorista de aplicativo de transporte, organizador de excursões e promoter de festas. Até que surgiu uma oportunidade para comprar uma loja de milk shake. O negócio foi comprado parcelado, e a estratégia era pagar a dívida com o dinheiro do faturamento.

Quando a loja começou a dar lucro, a mãe de Rufino saiu do emprego e assumiu o negócio. Nesse momento, a renda da família já tinha aumentado e o jovem passou a dar mais atenção aos investimentos. Ele estipulou o objetivo de alcançar 1 milhão de reais antes dos 30 anos, meta que foi batida aos 24 anos.

“O dinheiro me trouxe liberdade e conforto.” A busca por aumentar o patrimônio e o excesso de trabalho, porém, fizeram com que ele tivesse um pico de estresse e fosse parar no hospital. “Tive de colocar o pé no freio e reduzir o ritmo para poder curtir a vida e o dinheiro”, diz. A partir daí, ele buscou um equilíbrio. Atualmente, ele separa horas do dia para fazer atividade física e ficar com a esposa e a filha. “Sou muito mais feliz agora porque aprendi a usar o dinheiro a meu favor.”

(Arte/Exame)

A pesquisa apontou que quem se considera rico no Brasil é quem dá maior importância ao dinheiro para ser feliz. Para 52% desse grupo, o dinheiro é importante. De acordo com Renato Meirelles, nesse caso, o dinheiro é fundamental para manter o padrão de vida.

Ele afirma que quem dá muita importância ao dinheiro deixa de vê-lo como meio, mas como fim. “A pessoa vira escrava do dinheiro. Vive em busca da exclusividade e faz muita comparação com a vida do outro. É uma felicidade aparente.

Ela sofre muito quando enfrenta alguma crise porque existe o medo de perder o status social”, afirma. Em contrapartida, quem se considera classe média dá menos importância ao dinheiro para ser feliz (27%).

A explicação, segundo o Instituto Locomotiva, é que a pessoa se adapta melhor ao cenário econômico. “A classe média está acostumada a fazer ajustes quando necessário. Ela tem altos e baixos na vida financeira”, diz.

Dirlene Silva, economista, de 48 anos (Amanda Furtado/ Arquivo Pessoal/Reprodução)

A economista Dirlene Silva, de 48 anos, afirma que a sua felicidade nunca esteve relacionada ao dinheiro. Para ela, ficar com a família e ser realizada profissionalmente tem um peso muito maior. “Eu sou muito feliz trabalhando. Ser economista era meu sonho.”

Dirlene demorou dez anos para completar a graduação porque não tinha dinheiro para pagar mais de duas matérias do curso ao mesmo tempo. “Foi muito difícil, mas nunca desisti.” Nascida na cidade de Canoas, Rio Grande do Sul, ela teve uma infância muito pobre com as irmãs e com a mãe, que na época trabalhava como faxineira.

“Minha mãe deixou um legado de felicidade. Separou-se na década de 1970 e deixou um casamento infeliz para trás. Passamos dificuldades, mas éramos felizes. Encontramos maneiras de buscar a felicidade”, afirma.

A pesquisa mostra que as mulheres dão uma importância um pouco maior ao dinheiro: 86% afirmam que o dinheiro é importante, sendo extremamente importante para 34%. No caso dos homens, o percentual é de 85% e 29%, respectivamente.

Um dos motivos é a diferença salarial. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as mulheres ganham cerca de 20% menos do que os homens.

Claudia Yoshinaga explica que, além de elas ganharem menos, no Brasil existe uma parcela grande de mulheres que são chefe de família. “Elas ficam com o ônus de cuidar e arcar com a criação dos filhos. Isso faz com que o dinheiro seja uma preocupação forte.” Na outra ponta, as pessoas acima de 60 anos são as que menos relacionam o dinheiro com a felicidade.

A importância do dinheiro começa a perder relevância, segundo a pesquisa, a partir dos 41 anos, reflexo do momento de vida, filhos crescidos, carreira estabilizada, bens adquiridos. “A régua de comparação muda. A pessoa passa a dar valor à saúde, a ficar com a família. Passa a enxergar a vida de outra maneira”, afirma Yoshinaga. Em meio a tantas indefinições para 2023, uma certeza é que o dinheiro seguirá importante para os brasileiros.

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