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Após operação dos EUA na Venezuela, América Latina está no centro da geopolítica

A operação militar dos EUA na Venezuela que capturou Nicolás Maduro põe a região no centro da geopolítica global. Para o Brasil, o desafio é não ser obrigado a escolher entre os americanos e a China

Nicolás Maduro: ditador venezuelano e sua mulher, Cilia Flores, são conduzidos por agentes da força policial dos EUA após captura no início de janeiro (RS/Fotos Públicas)

Nicolás Maduro: ditador venezuelano e sua mulher, Cilia Flores, são conduzidos por agentes da força policial dos EUA após captura no início de janeiro (RS/Fotos Públicas)

Luciano Pádua
Luciano Pádua

Editor de Macroeconomia

Publicado em 27 de janeiro de 2026 às 06h00.

Em uma operação cinematográfica no começo de janeiro, militares dos Estados Unidos capturaram Nicolás Maduro, o autoritário líder que comandava a Venezuela havia 14 anos. Tudo chamou atenção. Da proeza militar ao movimento dos EUA de interferir diretamente em um país latino-americano — algo que não acontecia desde 1989, quando os americanos invadiram a Nicarágua para prender Manuel Noriega.

A ação veio após meses de tensão e ameaças do presidente dos EUA, Donald Trump, contra o regime madurista, e inaugura uma nova fase da relação da maior economia do mundo com a América Latina. Mais do que isso: põe a região no centro da geopolítica global.

“Independentemente de republicanos ou democratas vencerem em 2028, a América Latina e o Hemisfério Ocidental continuarão centrais na política externa dos EUA”, diz Juan Gonzalez, ex-diretor para o Hemisfério Ocidental do Conselho de Segurança Nacional dos EUA na gestão de Joe Biden, hoje pesquisador na Universidade Georgetown.

O presidente da 9G Consultoria e ex-diretor da Organização Mundial do Comércio, Roberto Azevêdo, define da seguinte maneira: “Estamos efetivamente percebendo os movimentos mais concretos de uma nova ordem político-econômica internacional”.

Para ele, já havia uma redução da relevância do multilateralismo e o aumento de ações unilaterais por nações. A nova estratégia de segurança nacional dos EUA, lançada em dezembro, desnuda essa mudança mais ampla e posiciona a América Latina como prioridade, aponta Azevêdo.

“Passamos a ser a prioridade número 1 dos EUA”, diz. Essa nova abordagem americana se popularizou como “doutrina Donroe”, uma releitura da política externa americana do século 19. “Ela define que o engajamento é opcional e a imposição é unilateral”, afirma Gonzalez.

Na esteira da ação americana, a China publicou novas diretrizes para a região. Não citou os EUA, mas criticou ações hegemônicas e buscou oferecer oportunidades de cooperação de longo prazo em áreas como infraestrutura e energia. “Talvez os EUA pensem que podem forçar a China [a sair da região], mas é uma leitura equivocada, porque eles [gestão Trump] veem o engajamento com a região como um jogo de soma zero”, afirma Gonzalez. 

Protestos em Caracas: ação dos EUA pode ampliar sentimento antiamericano e corroer influência do país na região (Jesus Vargas/Getty Images)

É neste contexto que a Venezuela vive, desde o início de janeiro: um “madurismo sem Maduro”. Enquanto o ditador e sua mulher, Cilia Flores, são julgados em Nova York por narcoterrorismo, na prática, o regime chavista e suas principais peças se mantiveram. A maior dúvida é se a presidente empossada, a número 2 de Maduro, Delcy Rodríguez, manterá o fino equilíbrio entre atender aos interesses americanos e garantir sua coalizão interna de pé.

Gonzalez vê três cenários. Um é de transição administrada, no qual o foco é o processo democrático. Outro é de, como define, uma “continuidade criminosa” — o cenário atual. Por fim, uma possibilidade de ruptura interna.

“Há figuras como Vladimir Padrino López, o ministro da Defesa, e Diosdado Cabello, o ministro do Interior, que não necessariamente simpatizam com Delcy Rodríguez”, afirma. “Ela é uma burocrata e gestora eficiente. Mas conseguirá manter o controle político?” Em sua visão, há ingredientes para um conflito interno caso a situação se deteriore.

Mas, caso Rodríguez consiga controlar a coalizão chavista e estabilizar a economia, ela poderia convocar eleições e ser competitiva, em um cenário que afastaria a higidez democrática do país. Tudo isso será acompanhado de perto por diplomatas latinos nos próximos meses.

O desafio de recuperar a economia venezuelana será hercúleo. O PIB do país encolheu incríveis 78% desde 1998, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI). Um dos principais pontos de Trump está nas imensas reservas de petróleo.

Apesar da vasta riqueza, a produção do país caiu mais de 65%, para pouco mais de 1 milhão de barris diários de 1998 a 2025, segundo a EIA, agência de energia dos EUA. Houve um aumento nos últimos anos, é verdade (veja o quadro acima). Mas os custos para revitalizar a pujança seria de 100 bilhões de dólares nos próximos dez anos, nas contas de Francisco Monaldi, da Universidade Rice, nos EUA.

A ExxonMobil, por exemplo, classificou o país como “impossível de investir”. “Muitas coisas precisarão ser gerenciadas internamente antes que as grandes petrolíferas entrem no país”, diz Gonzalez, de Georgetown. “A questão é: quão rápido Delcy Rodríguez conseguirá estabilizar o país e trazer benefícios aos Estados Unidos?”

Fato é que o movimento americano acendeu o alerta por toda a região. Cuba, México e Colômbia foram citados por Trump como potenciais próximos alvos. Analistas apontam serem improváveis operações nesses países, por motivos diversos: seja porque os EUA já demonstraram sua força, seja por não terem interesses econômicos e estratégicos imediatos. “Cada caso é um caso, mas tudo vai depender desses dois fatores: o grau de interesse econômico e a possibilidade de coordenação política”, diz Azevêdo.

O pano de fundo é afastar a influência da China e outros adversários, como Rússia e Irã. “A mão pesada de Trump pode dar aos países mais razões para se protegerem aproximando-se da China e corroer, nas margens, a influência de Washington no longo prazo”, apontou a consultoria de risco Eurasia em relatório. Como lembra Gonzalez, de Georgetown: “Não se deslocam 13% da Marinha dos EUA para o Caribe sem a intenção de usá-la”. “Portanto, pode haver, sim, um cenário nesse sentido”, diz.

O Brasil, que tem 2.100 quilômetros de fronteira com a Venezuela, acompanha atentamente a situação. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi enfático em criticar a incursão militar e defender o multilateralismo — inclusive em editorial no jornal New York Times.

Mesmo assim, as declarações foram calibradas, em claro cálculo diplomático para evitar atritos públicos com Trump — Lula e Trump vivem um frágil equilíbrio em suas relações.

O desafio nacional, avalia Azevêdo, é não se ver espremido a escolher entre os EUA e a China. “O Brasil é um país com uma dimensão internacional que não deve nem pode estar limitada a uma região ou a um alinhamento”, diz. “O que o Brasil tem que tentar fazer é manter as relações abertas. O ideal seria evitarmos a situação em que teríamos que escolher entre EUA e China.”

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