Redação Exame
Publicado em 10 de janeiro de 2026 às 12h58.
Última atualização em 10 de janeiro de 2026 às 13h56.
Executivos das maiores petroleiras americanas demonstraram cautela diante da pressão do presidente Donald Trump para que o setor invista ao menos US$ 100 bilhões na reconstrução da indústria de petróleo da Venezuela.
O CEO da Exxon Mobil, Darren Woods, afirmou que, nas condições atuais, o país é “não investível”.
A avaliação foi apresentada em uma reunião na Casa Branca com cerca de 20 representantes da indústria, convocada por Trump após a captura de Nicolás Maduro. As informações são da agência de notícias Bloomberg.
O presidente afirmou que as empresas poderiam chegar rapidamente a um acordo para retomar operações no país, classificando o movimento como positivo tanto para a economia venezuelana quanto para os Estados Unidos.
Apesar do discurso confiante do governo, executivos indicaram que os riscos jurídicos, comerciais e políticos ainda inviabilizam compromissos financeiros de longo prazo.
Durante o encontro, Trump afirmou que o governo americano ofereceria garantias de segurança às empresas que decidissem operar na Venezuela, sem detalhar como essas proteções seriam implementadas. Também disse que os investimentos em novos equipamentos e infraestrutura seriam rapidamente recuperados.
O presidente deixou claro que os aportes viriam exclusivamente do setor privado, afirmando que as empresas “gastarão pelo menos US$ 100 bilhões do próprio dinheiro, não do governo”.Na reunião, Darren Woods, da Exxon, falou considerar inviável investir sem mudanças profundas nos marcos legais e comerciais do país.
O executivo lembrou que a companhia teve ativos confiscados pelo governo venezuelano em duas ocasiões.
Woods questionou a durabilidade das garantias financeiras, o desenho dos contratos e a previsibilidade do retorno ao longo de décadas — elementos que, segundo ele, ainda não estão estabelecidos.
Mesmo assim, afirmou que a Exxon estaria disposta a enviar uma equipe ao país caso haja convite formal e garantias adequadas de segurança.
Após a reunião, Trump afirmou a jornalistas que “meio que formamos um acordo”. Questionado sobre compromissos específicos, o secretário de Energia, Chris Wright, apontou apenas a Chevron como exemplo concreto.
Segundo Mark Nelson, vice-presidente do conselho da companhia, a Chevron produz atualmente cerca de 240 mil barris por dia na Venezuela e pode elevar esse volume em aproximadamente 50% nos próximos 18 a 24 meses.
A empresa é hoje a única grande petroleira americana ainda em operação no país.
Outros participantes evitaram assumir planos claros. Harold Hamm, fundador da Continental Resources e aliado político de Trump, disse que a perspectiva o entusiasma do ponto de vista exploratório, mas ressaltou que o volume de investimentos exigido é elevado e demanda tempo para maturação.
Trump também minimizou perdas passadas sofridas por empresas que deixaram a Venezuela.
Ao ouvir do CEO da ConocoPhillips que a companhia havia registrado prejuízo de US$ 12 bilhões no país, reagiu com ironia, dizendo tratar-se de uma “boa baixa contábil”.
Entre os executivos estrangeiros, o tom foi mais favorável.
O CEO da Repsol, Josu Jon Imaz San Miguel, afirmou estar pronto para investir mais na Venezuela “hoje”, desde que exista um arcabouço comercial e jurídico que permita a operação. Já Bill Armstrong, da Armstrong Oil & Gas, comparou o país a um ativo imobiliário subvalorizado, com alto potencial no longo prazo.
A Venezuela detém as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, mas sua produção caiu para menos de 1 milhão de barris por dia após décadas de abandono, saída de empresas estrangeiras e deterioração da infraestrutura.
A limpeza de danos ambientais, a reconstrução de plataformas abandonadas, oleodutos com vazamentos e equipamentos destruídos deve levar anos e consumir dezenas de bilhões de dólares apenas para ganhos modestos de produção — um cenário que ajuda a explicar por que, para parte da indústria, o país segue classificado como “não investível”.