Agente do FBI durante jogo da Copa do Mundo: o torneio chega aos Estados Unidos no momento em que o país endurece suas relações com o mundo (Etienne Laurent/AFP/Getty Images)
Repórter de internacional e economia
Publicado em 25 de junho de 2026 às 06h00.
A Copa do Mundo de futebol de 2026 é marcada por dois movimentos opostos, um de abertura e outro de fechamento. Pelo lado esportivo, este é o maior torneio internacional de futebol já realizado, com 48 seleções, 16 a mais do que antes, e jogos em três países.
Há mais espaço para que nações como as pequenas ilhas de Curaçao e Cabo Verde possam enfrentar gigantes do futebol como Alemanha e Espanha dentro do campo, enquanto seus torcedores acompanham esses duelos nas arquibancadas, lado a lado, com uma rivalidade saudável.
No entanto, esta Copa trouxe outra situação amarga: jogadores, torcedores e até juízes sob o risco de ficar de fora do espetáculo, porque o torneio é sediado em um país que tem restringido o acesso de estrangeiros e feito expulsões em massa.
São os Estados Unidos, que -recebem a Copa em um momento em que endurecem sua relação com o planeta. É, em suma, um país que busca cada vez mais ser temido, em vez de admirado. “Podemos estar testemunhando a erosão voluntária mais significativa do soft power americano na era pós-guerra”, diz Shaoyu Yuan, professor de relações internacionais na New York University.
Saída da seleção iraniana para jogo nos EUA: o time do Irã teve regras rígidas para participar de partidas, sempre acompanhado de forte aparato policial (Bozhan MemiÅ/Anadolu/Getty Images)
Para Yuan, o soft power, a capacidade de um país ser admirado e respeitado pelos outros, independentemente de seu poder militar, é como uma represa: leva tempo para ser acumulado e demora a esvaziar. Assim, os EUA passaram mais de 80 anos cultivando esse poder com medidas como a exportação de filmes e músicas, intercâmbios educacionais e apoio a países pobres.
“Os EUA buscaram criar uma percepção geral de que eram confiáveis e aspiracionais. Essa represa é profunda, e por isso não esvazia da noite para o dia, mas muitas políticas estão drenando ela ao mesmo tempo”, afirma.
Desde que Donald Trump voltou à Casa Branca, em janeiro de 2025, a política externa americana sofreu uma série de mudanças. Houve um endurecimento das políticas anti-imigração, corte no envio de ajuda ao exterior e um aumento das ações militares, tanto que o Departamento de Defesa foi renomeado Departamento de Guerra. Uma dessas guerras, inclusive, estava em andamento no início da Copa.
Horas antes do início do torneio, em 11 de junho, Trump fez ameaças ao Irã e prometia “atacar muito duramente” o país, e as notícias sobre o começo do torneio dividiram o noticiário com a angústia de um ataque iminente. Trump desistiu da ação e depois anunciou um novo cessar-fogo com o Irã. Antes disso, a seleção iraniana viveu um calvário para chegar ao campeonato.
Pelo plano inicial, os atletas ficariam hospedados em Tucson, no Arizona, mas tiveram de se mudar para Tijuana, no México, porque os EUA, após idas e vindas, autorizaram que os atletas permanecessem no país apenas 48 horas por vez, com a necessidade de entrar e sair a cada jogo. Não há registro, na história das copas, de um país-sede que tenha feito algo assim com uma equipe visitante.
Para o árbitro Omar Abdulkadir Artan, a situação foi ainda pior. Ele foi barrado no Aeroporto de Miami e teve de voltar para a Somália. O governo Trump implantou uma série de restrições à entrada de somalis nos EUA, sob o argumento de que o país abriga grupos terroristas, entre outras queixas.
Em 2025, Artan havia sido eleito o árbitro do ano pela Confederação Africana de Futebol. “Megaeventos podem ser momentos em que realidades que vinham sendo construídas por muitos anos se tornam visíveis. Temo que esse venha a ser o caso para os EUA”, diz Nick Cull, historiador da University of South Carolina e estudioso da diplomacia pública.
Polícia prende manifestantes em Newark: protesto contra a instalação do órgão de imigração, o ICE, às vésperas do torneio mostrou a tensão social diante das políticas do governo Trump (Ryan Murphy/AFP/Getty Images)
A China aparece cada vez mais como o adulto na diplomacia, e isso terá consequências no longo prazo. A reputação se baseia na relevância, e o que é mais relevante do que nossa segurança coletiva?
Nick Cull, da University of South Carolina
Dois indicadores ajudam a entender a mudança da visão global sobre os EUA. No estudo anual Anholt Nation Brands Index, que avalia a reputação dos países, os americanos caíram de 7o para 14o lugar na lista de países mais admirados do mundo em 2025. Apesar disso, os Estados Unidos ainda estão bem à frente de sua rival direta pela supremacia global, a China, que está em 29o. Cull acredita que isso em breve poderá mudar.
“A China aparece cada vez mais como o adulto na diplomacia, e isso terá consequências no longo prazo. A reputação se baseia na relevância, e o que é mais relevante do que nossa segurança coletiva? Nem mesmo o torneio de futebol mais bem organizado do mundo se compara a isso”, diz.
O outro indicador é a chegada de turistas aos EUA, que caiu de 72,3 milhões em 2024 para 68,3 milhões em 2025, após anos de alta. A queda foi puxada pelos canadenses, que passaram a boicotar os Estados Unidos depois de Trump impor taxas de importação e ameaçar anexar o país. Os canadenses, assim como o México, também sediam a Copa de 2026. Em outro sinal do distanciamento, cada país fez uma cerimônia de abertura separada. Nenhum chefe de Estado compareceu.
Los Angeles, na Califórnia: cidade sediará os Jogos Olímpicos em 2028, em nova oportunidade de os EUA se mostrarem ao mundo (Eric Thayer/Los Angeles Times/Getty Images)
Analistas afirmam que os efeitos negativos para a imagem dos EUA serão mais fortes caso haja mais cenas ruins — e viralizáveis — durante o torneio. Por outro lado, os governos de cidades e estados americanos estão tentando aumentar as medidas de hospitalidade.
O prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, tem enaltecido o futebol e deixado claro que a cidade está aberta a todos. Nova York receberá a grande final do torneio. Se os EUA quiserem criar cenas positivas marcantes, podem olhar para o próprio passado. Em 1998, por exemplo, houve uma partida na Copa da França entre Estados Unidos e Irã.
Os dois países já tinham graves diferenças e se consideravam inimigos, mas, em campo, houve cordialidade. Os atletas dos dois lados trocaram flores antes de o jogo começar. Em 2028, os EUA voltarão ao palco global dos esportes, com a Olimpíada de Los Angeles, e os americanos terão mais uma chance de abrir suas portas e mostrar ao mundo quanto um país pode mudar em apenas dois anos.
Não só o espetáculo esportivo agradeceria, como o mundo poderia respirar aliviado por alguma semanas.
