Não, obrigado: premiados já recusaram a estatueta mais cobiçada do cinema
Editor de Invest
Publicado em 15 de março de 2026 às 09h20.
Última atualização em 15 de março de 2026 às 15h13.
Neste domingo, o Brasil chega ao Dolby Theatre, em Los Angeles, com expectativas lá no alto. Com quatro indicações ao Oscar 2026 — Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator (Wagner Moura) e Melhor Elenco —, "O Agente Secreto", do pernambucano Kleber Mendonça Filho, transformou-se em fenômeno antes mesmo do anúncio dos vencedores.
Aclamado em Cannes, ovacionado pela crítica americana e eleito o melhor indicado do ano pela publicação especializada IndieWire, o thriller político ambientado no Recife de 1977, fez mais de R$ 50 milhões nas bilheterias brasileiras — e colocou Wagner Moura como o primeiro ator brasileiro a disputar o prêmio principal masculino da Academia.
A corrida ao Oscar é, por definição, uma corrida pelo desejo. Diretores, atores e roteiristas percorrem festivais, jantares e entrevistas durante meses para convencer os mais de 10 mil votantes de que o seu filme merece a estatueta dourada.
Mas a história da premiação também registra o avesso desse desejo: vencedores que não quiseram o prêmio. Alguns por princípio político. Outros por rejeição ao próprio conceito de competição no cinema.
Dudley Nichols (1936): recusa em nome da categoria
A primeira recusa da história do Oscar foi também a mais pragmática. Dudley Nichols, roteirista de "O Delator" (The Informer), venceu na oitava cerimônia, mas devolveu a estatueta em solidariedade ao Screen Writers Guild — o sindicato dos roteiristas —, que estava em greve contra a própria Academia na época. Para Nichols, aceitar o prêmio seria cruzar a linha do piquete. O gesto durou apenas dois anos: em 1938, com o sindicato formalmente reconhecido e a paz restabelecida, ele voltou atrás e aceitou o Oscar.
George C. Scott (1971): 'mercado de carne'
George C. Scott foi mais longe: avisou à Academia antes mesmo da cerimônia que não aceitaria o prêmio caso vencesse — e venceu. Em telegrama enviado com antecedência, o ator rejeitou até a própria indicação ao prêmio de Melhor Ator por "Patton".
Para ele, a cerimônia do Oscar era um "mercado de carne" e a ideia de colocar atores em competição uns contra os outros era, em sua visão, artisticamente desonesta. Não havia protesto social nem causa política: era uma objeção de princípio à lógica do espetáculo. O produtor do filme subiu ao palco da cerimônia para receber a estatueta.
Marlon Brando (1973) — O caso mais famoso da história
Poucos momentos na história do Oscar são tão lembrados quanto aquele. Marlon Brando venceu o prêmio de Melhor Ator por sua interpretação do Dom Corleone em "O Poderoso Chefão", mas não foi ao palco. Em seu lugar, enviou Sacheen Littlefeather — ativista de origem indígena apache — com uma mensagem de recusa. Diante de uma plateia que alternava vaias e aplausos, ela explicou que Brando protestava contra o tratamento dado aos nativos americanos pela indústria cinematográfica e pela televisão americana. A Academia havia pedido a ela que limitasse o discurso a 45 segundos. O gesto de Brando ainda divide opiniões, mas estabeleceu definitivamente que o Oscar poderia ser usado como tribuna política — quisesse a Academia ou não.
Além das recusas voluntárias, há casos em que o Oscar foi devolvido — por obrigação ou por ordem judicial.
Young Americans (1969) — A estatueta inelegível
O documentário "Young Americans" venceu o Oscar de Melhor Documentário, mas o prêmio durou pouco. Semanas após a cerimônia, a Academia descobriu que o filme havia sido exibido comercialmente em 1967 — dois anos antes da edição para a qual concorreu.
Como a regra exigia que os filmes tivessem sido lançados no ano anterior à premiação, a vitória foi anulada e a estatueta, devolvida. É o único caso registrado de invalidação de um Oscar após a cerimônia por inelegibilidade.
Leonardo DiCaprio (2018) — O Oscar que nunca deveria ter saído da Academia
Leonardo DiCaprio não ganhou esse Oscar — ele o recebeu de presente. A estatueta original de Marlon Brando pelo filme "Sindicato de Ladrões" (On the Waterfront, 1954) chegou às mãos de DiCaprio por meio de produtores envolvidos em um escândalo bilionário de corrupção ligado ao fundo soberano da Malásia, o 1MDB.
A justiça americana, ao investigar o caso, determinou a devolução da peça como parte das medidas de reparação. DiCaprio cooperou com as autoridades.
A regra do dólar simbólico
Há mais de sete décadas, a Academia instituiu uma regra que mudou para sempre a relação entre os vencedores e suas estatuetas. Desde 1950, qualquer vencedor — ou seus herdeiros — que queira vender, leiloar ou se desfazer do prêmio é obrigado a primeiro oferecê-lo de volta à Academia pelo valor simbólico de US$ 1,00.
A medida foi criada para impedir que o Oscar virasse mercadoria no mercado aberto. A regra vale apenas para as estatuetas conquistadas a partir daquele ano; peças anteriores a 1950 já foram a leilão e atingiram valores milionários.