Livrarias: A estratégia de transformar cada loja em um espaço único recolocou as livrarias no centro da vida cultural de diversas cidades americanas (Drew Angerer/Getty Images)
Freelancer
Publicado em 9 de julho de 2026 às 07h54.
O futuro das livrarias parecia definido há poucos anos. Com o avanço do comércio eletrônico e das plataformas digitais, muitos acreditavam que as grandes redes físicas perderiam espaço de forma permanente. O cenário atual, porém, conta outra história: as livrarias vivem uma fase de expansão nos Estados Unidos, impulsionadas por uma combinação de estratégia comercial, experiência presencial e busca por conexões humanas.
Grande parte dessa recuperação é atribuída ao trabalho de James Daunt, que assumiu o comando da Barnes & Noble em 2019. Sob sua gestão, a rede deixou de tratar todas as unidades como lojas padronizadas e passou a dar maior autonomia para que cada filial selecionasse seus livros de acordo com o perfil dos leitores locais. A mudança aproximou a experiência daquilo que tradicionalmente diferencia as livrarias independentes.
Os resultados aparecem na expansão da empresa. A Barnes & Noble voltou a abrir dezenas de unidades e hoje opera mais de 700 lojas físicas, com previsão de inaugurar cerca de 60 novas unidades ao longo de 2026.
O crescimento também alcança as livrarias independentes. De acordo com um artigo da Axios, especialistas afirmam que esses estabelecimentos passaram a ocupar um papel que vai além da venda de livros, funcionando como ambientes de descoberta, encontros e convivência em uma sociedade cada vez mais conectada digitalmente, mas carente de espaços presenciais.
A professora de marketing Peggy Stover, da Universidade de Iowa, afirmou que esse movimento conversa diretamente com o interesse da Geração Z por experiências analógicas, tendência que também impulsiona mercados como o dos discos de vinil. A busca por locais que estimulem interação e pertencimento fortalece o papel cultural das livrarias.
O avanço da inteligência artificial já provoca mudanças na forma como muitas pessoas procuram informações. O escritor Tim Ferriss, por exemplo, afirmou à Axios que a procura por seus livros de orientação prática caiu porque parte desse conteúdo passou a ser obtida diretamente por meio de chatbots.
James Daunt, porém, vê um cenário diferente para a literatura. Segundo ele, previsões sobre o suposto declínio da leitura acompanham o mercado editorial há décadas, enquanto os livros continuam ocupando um espaço próprio na vida dos leitores. Para o executivo, a experiência de ler permanece distinta das respostas rápidas oferecidas por ferramentas de inteligência artificial.
Segundo o artigo, o momento positivo desperta interesse também no mercado financeiro. A Elliott Management, controladora da Barnes & Noble e da rede britânica Waterstones, avalia realizar uma oferta pública inicial (IPO) reunindo seus negócios no setor livreiro. A operação refletiria a confiança na recuperação do segmento e no potencial de crescimento das redes físicas.
As livrarias passaram anos de previsões pessimistas, enfrentaram a concorrência do comércio eletrônico e agora convivem com o avanço da inteligência artificial. Mesmo assim, seguem encontrando espaço ao oferecer algo que algoritmos dificilmente reproduzem: o prazer de descobrir um livro entre estantes, conversar com outros leitores e transformar a leitura em uma experiência compartilhada.