Yuri Milner, o polêmico russo sócio do Nubank

Fundo de investimentos DST Global, que liderou rodada que transformou Nubank em unicórnio, é acusado de ligações financeiras com o Kremlin
 (Steve Jennings/Getty Images)
(Steve Jennings/Getty Images)
Por Thiago LavadoPublicado em 01/03/2018 17:55 | Última atualização em 01/03/2018 19:43Tempo de Leitura: 7 min de leitura

Ele já investiu em gigantes da tecnologia como Twitter e Facebook. Também já liderou cientistas e milionários do Vale do Silício em um projeto de 10 bilhões de dólares que planeja enviar uma frota de pequenas naves-robô, menores do que um iPhone, para o sistema solar Alpha-Centauri, a 4,37 anos-luz da Terra. Poderia ser um bilionário empreendedor da Califórnia, ao estilo Elon Musk, mas trata-se do russo Yuri Milner, fundador do fundo de investimentos DST Global. O fundo de Milner desta vez mirou o Brasil: ele voltou a investir na fintech brasileira Nubank, elevando o valor da empresa para mais de 1 bilhão de dólares e a colocando numa categoria seleta, chamada de “unicórnios”, junto com o app de transporte 99 e a empresa de pagamentos PagSeguro.

Conforme noticiou o jornal O Estado de S. Paulo nesta quinta-feira, o DST Global liderou a sexta rodada de investimentos na startup, um aporte de 150 milhões de dólares que já tem destino: aumentar a presença do Nubank no mercado nacional de cartões de crédito. Atualmente, são 3 milhões de cartões roxos emitidos no país pela empresa, que está no caminho para se tornar um banco digital. É a segunda vez que o DST Global lidera uma rodada de investimentos no Nubank — a última foi em 2016, quando a fintech captou 80 milhões de dólares no mercado.

A diferença entre 2016 e 2018? De lá pra cá, o DST Global foi arrolado em denúncias de ligação com fundos de investimento e bancos estatais ligados ao governo da Rússia.

Quando o DST Global investiu no Twitter e no Facebook, por trás estavam centenas de milhares de dólares vindos do  VTB, um banco estatal russo frequentemente usado para decisões de estratégia política, e do fundo Gazprom Investholding, de propriedade da estatal de gás Gazprom, um componente vital do governo de Vladimir Putin, que foi usada como meio para recomprar empresas do Estado que foram privatizadas durante a década de 1990.

A relação acontecia por um labirinto de empresas offshore e foi revelada por uma série de documentos adquiridos pelo jornal alemão Süddeutsche Zeitung, como parte do vazamento conhecido como Panama Papers, e analisados por um consórcio internacional de jornalistas especializados em investigação. Os documentos mostram que o banco VTB injetou 191 milhões de dólares na DST Global — dinheiro que foi usado em grande parte para adquirir uma parcela de 5% no Twitter em 2011.

Antes disso, em 2009 a DST Global investiu cerca de 200 milhões de dólares no Facebook, podendo comprar 100 milhões adicionais em ações. A aquisição de papéis era feita por meio da companhia offshore Kanton Services. É incerto quando começou a relação entre a Kanton e a DST, mas três meses antes de o Facebook anunciar negócios com Yuri Milner, que chegou a deter 8% da companhia, a Kanton recebeu um aporte de 197 milhões de dólares do Gazprom Investholding. Depois que a Rússia anexou a Crimeia em 2014, tanto o VTB quanto a Gazprom foram incluídas na lista de empresas sancionadas economicamente pelo governo dos Estados Unidos.

Não há qualquer indício que aponte que a DST Global ajudou as empresas ligadas ao Kremlin a ganhar influência nas duas redes sociais. Mas Facebook e Twitter estão sob investigação do governo americano a respeito da influência da Rússia no processo de formação de opinião e divergência política durante as eleições presidenciais de 2016.

O fundo de Milner já saiu de ambas as empresas, mas ele ainda mantém participação própria em companhias de tecnologia e internet. O VTB e a Gazprom afirmaram à época das denúncias que as transações eram bons investimentos, sem motivações políticas. “Estamos pegando dinheiro e colocando no Facebook e no Twitter, fazendo dinheiro para nossos parceiros. Pra mim, é um arranjo comercial”, disse Milner ao jornal The New York Times, quando as acusações foram trazidas à tona. Não é ilegal que companhias estatais estrangeiras invistam em empresas norte-americanas.

Quem é Yuri Milner?

Nascido em Moscou, Yuri Milner, 56, é o mais influente investidor de tecnologia da Rússia. Por meio da DST Global ele já teve participações em uma série de grandes nomes do mercado: além de Facebook e Twitter, a lista passa pela empresa de e-commerce indiana Flipkart, o streaming de música Spotify, a fabricante de tecnologia Xiaomi, a companhia de aluguel de residências Airbnb e até a gigante do varejo digital chinês Alibaba.

Como parte de seu portfólio pessoal, Milner é um pouco mais arrojado: o russo já investiu na empresa de análise de genes 23andMe; na Habito, uma companhia especializada em inteligências artificiais voltadas para análise de hipotecas imobiliárias; e na fabricante de satélites Planet Labs, especializada em satélites muito pequenos, que tiram fotos detalhadas da superfície da Terra. Em entrevistas concedidas entre 2010 e 2011, Milner afirmou que ele acredita que a internet irá se desenvolver até se tornar um “cérebro global” e que as empresas de mídias sociais serão responsáveis para a base do crescimento da inteligência artificial.

Formado em física teórica pela Universidade de Moscou, quando a União Soviética chegou ao fim, Milner se mudou para os Estados Unidos, onde foi cursar um MBA na escola de negócios Wharton, da Universidade da Pensilvânia. Quando terminou sua especialização, ele permaneceu nos Estados Unidos, trabalhando no setor financeiro do Banco Mundial em Washington. Em entrevista para um perfil da revista Forbes, ele descreve sua época no BM como “os anos perdidos” de sua vida. Na época, via de longe o governo de Boris Yeltsin vender minas, refinarias de petróleo e outros ativos estatais para empresários que se tornavam “oligarcas” no país.

Em 1995, ele retornou à Rússia para ser o presidente da corretora de investimentos Alliance-Menatep, do ex-barão do petróleo Mikhail Khodorkovsky, que foi retirado de suas empresas e preso pelo governo por divergências políticas com o presidente Vladimir Putin. Khodorkovsky atualmente vive exilado na Suíça.

Na Rússia, Milner aproveitou para estreitar suas relações com banqueiros e oligarcas influentes no país. Em 2009 foi convidado para compor a Comissão de Inovação do então presidente russo Dmitry Medvedev, um entusiasta de tecnologia. Naquela época, como parte da política de restaurar a diplomacia com a Rússia, o então presidente americano Barack Obama encorajava os russos a investir na indústria tecnológica dos Estados Unidos — algo que, acreditava-se, levaria a Rússia a diminuir sua dependência em gás e petróleo. Foi quando começaram as conversas de Milner com Zuckerberg e outros empresários do Vale do Silício, numa investida internacional que anos depois o levaria a investir também no Brasil, no Nubank.

Em nota a EXAME, o Nubank diz:

“Como o DST Global já declarou, todos os investidores deles têm um papel passivo. Isso significa que os investidores estão simplesmente confiando ativos que serão investidos pelo DST Global em empresas que o próprio DST Global escolher, e os investidores não têm nenhuma influência em quais empresas o DST escolhe investir ou em qualquer outra tomada de decisão. Então, da parte do Nubank, não houve qualquer preocupação com relação a esse tema, já que nenhum investidor do DST Global jamais teve qualquer interferência na nossa parceria de negócios.

O controle do Nubank continua com os sócios da empresa, e os fundos investidores têm apenas papel consultivo no nosso negócio. No entanto, nós acreditamos que todos eles estão bastante alinhados com as nossas metas de longo prazo e com a nossa missão de revolucionar o mercado financeiro no Brasil.”