Esporte

Fifa mira US$ 11 bi com Copa do Mundo. Mas 'preços abusivos' aos torcedores podem ser obstáculos

Torneio com 48 seleções e 104 jogos deve gerar receita recorde, mas enfrenta críticas por custos de ingressos, hotéis e transporte

Copa do Mundo 2026: torneios serão sediados nos EUA, Canadá e México (Ilustração feita por IA/Exame)

Copa do Mundo 2026: torneios serão sediados nos EUA, Canadá e México (Ilustração feita por IA/Exame)

Mateus Omena
Mateus Omena

Repórter

Publicado em 8 de junho de 2026 às 06h00.

Tudo sobreCopa do Mundo
Saiba mais

A Copa do Mundo de 2026 começa nesta quinta-feira, 11, e promete quebrar recordes dentro e fora de campo. Com 48 seleções espalhadas por 16 cidades da América do Norte e um total de 104 partidas, o torneio ampliou sua escala a um nível inédito. Mas, enquanto a FIFA vende a edição como a maior da história, muitos torcedores descobriram rapidamente que o espetáculo também pode entrar para os livros como o Mundial mais caro já realizado.

A expansão do torneio criou um mercado gigantesco para a venda de mais de 6 milhões de ingressos. Antes mesmo de conhecerem detalhes sobre disponibilidade e valores, os fãs já enfrentavam uma dúvida central: quanto custaria acompanhar seus times presencialmente? A resposta veio aos poucos — e desagradou parte do público.

Em muitos casos, os ingressos para partidas da Copa começaram na casa das centenas de dólares e chegaram a custar milhares. No centro das críticas está o sistema de preços dinâmicos adotado pela FIFA, que ajusta os valores conforme a demanda. Para os consumidores, o resultado tem sido uma experiência marcada por oscilações constantes de preços e dificuldade para planejar gastos.

A insatisfação ganhou força a ponto de levar os procuradores-gerais de Nova York e Nova Jersey a intimarem a FIFA na última semana para explicar seus métodos de comercialização de ingressos, segundo o site Wall Street Journal.

“Ninguém deve ser manipulado a pagar preços exorbitantes por ingressos, e os torcedores devem poder confiar que os ingressos que comprarem serão os que receberão”, disse a procuradora-geral de Nova York, Letitia James.

Copa do Mundo: por que torcedores pagarão US$ 150 em passagem de trem que custa só US$ 12,90?

Uma grande oportunidade comercial

Desde 2018, quando Estados Unidos, Canadá e México receberam o direito de sediar o torneio, a organização enxergou o mercado norte-americano como uma oportunidade de ampliar receitas. Cerca de 75% dos jogos serão disputados em território americano.

O potencial financeiro dos Estados Unidos cresceu significativamente desde a Copa de 1994. Após a pandemia, a procura por grandes eventos esportivos aumentou, e a FIFA decidiu adaptar sua estratégia para aproveitar esse movimento. A entidade passou a adotar uma política de arrecadação diferente daquela utilizada em edições anteriores.

Durante décadas, os ingressos da Copa do Mundo foram vendidos com foco em manter parte dos preços acessíveis aos torcedores mais engajados. Agora, a estratégia busca capturar o máximo possível da disposição de pagamento do mercado. O objetivo é fortalecer os cofres da entidade e, posteriormente, redistribuir recursos entre suas 211 associações nacionais filiadas. A FIFA projeta arrecadar um recorde de US$ 11 bilhões com o torneio.

"A FIFA tirou isso do torcedor comum e está vendendo para o maior lance", disse Davie Hood, torcedor escocês que desembolsou US$ 1.800 por três ingressos para acompanhar os jogos da fase de grupos de sua seleção, em entrevista ao WSJ.

No entanto, os gastos de Hood não terminaram na compra dos bilhetes. Assim como milhares de outros escoceses, ele encontrou preços elevados de hospedagem em Boston e decidiu ficar em Providence, no estado de Rhode Island. Para reduzir custos de deslocamento, um grupo de torcedores  organizou uma frota de ônibus escolares até o estádio em Foxborough, Massachusetts, evitando pagar US$ 95 por pessoa no transporte especial saindo de Boston.

O presidente da FIFA, Gianni Infantino, argumenta que os preços refletem o que os consumidores estão dispostos a pagar. Segundo ele, é mais eficiente para a entidade capturar essa receita do que permitir que o dinheiro fique com cambistas. A FIFA afirma já ter vendido 90% dos cerca de 6 milhões de ingressos disponíveis.

A expectativa é que parte dessa arrecadação financie uma distribuição recorde de US$ 2,7 bilhões para o desenvolvimento do futebol ao longo dos próximos quatro anos. O montante representa um crescimento de oito vezes em relação ao início da gestão de Infantino.

"A FIFA está simplesmente cumprindo seus objetivos estatutários, que são investir no desenvolvimento do futebol", disse um porta-voz da FIFA. "Quaisquer alegações em contrário são infundadas."

Diante das críticas, a entidade anunciou no fim do ano passado uma cota limitada de ingressos a US$ 60 para todas as partidas do torneio. Os bilhetes foram destinados às federações participantes para distribuição entre torcedores considerados mais assíduos.

A oferta, entretanto, é pequena diante da demanda: apenas 1.000 ingressos por partida, totalizando 104 mil entradas de um universo de 6 milhões.

Brasil está entre os países que mais compram ingressos para a Copa do Mundo

Empreendedores sob tensão nos EUA

Enquanto os torcedores calculam os custos da viagem, alguns setores da economia local começam a demonstrar preocupação. Apesar das projeções otimistas feitas inicialmente, dezenas de partidas ainda possuem assentos disponíveis, e a demanda por hospedagem ficou abaixo do esperado em várias cidades-sede.

Segundo uma pesquisa recente da American Hotel and Lodging Association, cerca de 80% dos hotéis nas cidades que receberão jogos registraram reservas inferiores às estimativas iniciais.

O tamanho do torneio também pesa na equação. Nunca uma Copa do Mundo foi disputada em uma área geográfica tão extensa, conectando cidades como Vancouver, Boston e Cidade do México.

Os hoteleiros “começaram a ficar um pouco apreensivos” quando perceberam as distâncias que muitos torcedores precisariam percorrer para acompanhar suas seleções, afirmou Steve Nicholas, diretor-gerente do Noble Investment Group, empresa que possui hotéis em sete cidades-sede nos Estados Unidos.

Barreiras relacionadas a vistos e preocupações geopolíticas também estariam afetando a procura internacional, segundo a associação do setor hoteleiro.

Nos bastidores da organização, outro ponto de atrito envolve os custos assumidos pelas cidades-sede. Os contratos transferiram boa parte das responsabilidades financeiras para os organizadores locais, obrigando municípios e operadores a buscar formas de compensar despesas operacionais.

Um dos casos que mais gerou reclamações envolveu o transporte até o MetLife Stadium, em East Rutherford, Nova Jersey. A passagem de trem que normalmente custa US$ 12,90 chegou a ser reajustada para US$ 150 em dias de jogos antes de um acordo reduzir o valor para US$ 98.

"A FIFA tem trabalhado em colaboração com as cidades-sede para reduzir custos e oferecer flexibilidade, incluindo a isenção de certas obrigações de hospedagem", disse um porta-voz da FIFA.

O contraste com a Copa de 1994 chama atenção. Naquela ocasião, a própria FIFA atuou para impedir aumentos expressivos de preços. Alan Rothenberg, então presidente da Federação de Futebol dos Estados Unidos e responsável pela organização local do torneio, relembrou que havia sugerido vender todos os ingressos da final por US$ 1.000.

“Disseram que não queriam desagradar seus torcedores”, afirmou Rothenberg.

Três décadas depois, muitos torcedores enxergam uma realidade diferente.

“Esta é uma oportunidade única para eles ganharem o máximo de dinheiro possível”, disse ao WSJ Ray Loyola, torcedor da região de Seattle que gastou US$ 3.000 em quatro ingressos para a partida entre Estados Unidos e Austrália, marcada para 19 de junho.

“Mas isso não torna a situação mais aceitável.”

Acompanhe tudo sobre:Copa do MundoEstados Unidos (EUA)Futebol

Mais de Esporte

'Vocês fizeram um povo feliz': argentinos homenageiam Messi após derrota na Copa

Com a Copa de 2030, América do Sul fica de fora do rodízio para as próximas Copas? Entenda

Fifa distribui premiação milionária na Copa do Mundo de 2026; confira o ranking

Dívida milionária trava renovação de Memphis Depay com o Corinthians