Fernando e Cristiane Campanholo, da Viva Positivamente: preocupação com uma rotina sustentável no longo prazo (Divulgação/Divulgação)
Freelancer
Publicado em 9 de janeiro de 2026 às 17h09.
Última atualização em 9 de janeiro de 2026 às 19h21.
Empreender no Brasil quase sempre cobra um preço alto. Longas jornadas, pressão constante e pouco espaço para a vida fora da empresa viraram regra, não exceção.
Foi dentro desse cenário que Fernando e Cristiane Campanholo viveram, por 15 anos, a rotina clássica do empreendedor sobrecarregado.
Donos de uma empresa de tecnologia com mais de 20 funcionários, trabalhavam até tarde, inclusive em casa, acreditando que esse era o custo inevitável do crescimento.
A história da Viva Positivamente começa quando esse modelo deixa de ser sustentável — não financeiramente, mas emocionalmente.
O casal transformou a virada em um negócio que faturou cerca de R$ 8 milhões em 2025 e projeta chegar a R$ 14 milhões em 2026.
“Ali caiu a ficha. Percebemos que o trabalho estava roubando o tempo que nunca mais voltaria”, afirma Fernando Campanholo, ao lembrar do episódio em que o filho pediu para a mãe largar o computador e olhar para ele.
O futuro da empresa passa por escalar esse método para empresários menores, com produtos mais acessíveis, sem perder o foco central: reduzir a dependência do dono na operação.
Fernando e Cristiane abriram a primeira empresa em 1995, aos 21 anos. Programadores, investiram a rescisão do emprego formal na criação da Afirmação Sistemas, focada em softwares de gestão.
O crescimento veio. Quinze anos depois, a empresa tinha 22 funcionários, gerentes experientes e clientes em todo o Brasil. Mas a carga de trabalho só aumentava.
“Quanto mais a empresa crescia, mais a gente trabalhava. Achávamos que isso era normal”, diz Cristiane.
A rotina começava cedo, terminava à noite e invadia fins de semana. A empresa funcionava, mas dependia totalmente dos donos. Até que a conta chegou em casa.
“Mãe, tira esse computador do colo só um pouquinho e olha para mim”, disse o filho, então com seis anos.
“Naquele dia eu percebi que a gente estava criando um filho órfão de pais vivos”, afirma Fernando.
O casal colocou um limite claro: ou mudava a forma de gerir, ou venderia a empresa e voltaria a ser funcionário.
O problema não era técnico. Era estrutural. Eles dominavam programação, mas não gestão, liderança ou organização.
“Uma empresa precisa de processos, liderança e clareza. A gente não sabia nada disso”, diz Fernando.
Começaram a estudar obsessivamente. Cursos, eventos e conversas com empresários que performavam melhor — os “3%”, como Fernando define. O aprendizado virou método aplicado dentro da própria operação.
A virada foi rápida. Em menos de quatro meses, os gargalos começaram a cair. Um ano depois, a transformação ficou evidente.
A equipe caiu de 22 para 9 pessoas. Não por demissões em massa, mas porque parte do time não se adaptou ao novo modelo. Mesmo assim, o faturamento dobrou e o lucro cresceu de forma significativa.
“Deixamos de apagar incêndio e passamos a liderar”, afirma Fernando.
O maior impacto veio da organização do atendimento. Antes, o time lidava com até 4.000 atendimentos por dia, de forma caótica. Depois da centralização e criação de regras, o volume caiu para cerca de 250.
“O custo invisível era gigantesco. A gente só não via”, diz.
A empresa passou a funcionar sem depender dos fundadores. Esse foi o ponto-chave para a venda do negócio, anos depois.
“Se a empresa depende do dono, ninguém quer comprar”, afirma Fernando.
Após a virada, outros empresários começaram a perguntar o que havia mudado. O primeiro convite veio de um dono de agropecuária. Depois, comércio, indústria, clínica odontológica, pós-graduação.
“O setor mudava, mas o problema era o mesmo: o dono no centro de tudo”, diz Fernando.
Em 2016, a Afirmação Sistemas recebeu uma proposta de compra considerada irrecusável. A venda garantiu liberdade financeira, mas não trouxe aposentadoria.
“Ficamos seis meses parados. Não deu”, diz Cristiane.
Em 2017, nasceu a Viva Positivamente.
O modelo inicial era presencial, com visitas às empresas. A agenda lotou rápido. A solução foi criar um curso extensivo de 12 semanas, depois levado para o online.
A pandemia acelerou o digital. Mas um problema ficou claro: só o conteúdo não bastava.
“Muitos estudavam, mas não conseguiam executar”, afirma Fernando.
Em 2021, nasceu o programa Strats, hoje carro-chefe da empresa. Um modelo de acompanhamento contínuo, com plano personalizado, mentorias em grupo e ajustes semanais.
“Ele chega ótimo na profissão, mas despreparado para ser empresário”, diz Fernando.
Até hoje, mais de 4.600 empresários passaram pelos programas de acompanhamento. Considerando cursos e produtos pontuais, o número ultrapassa 50.000 empresários impactados.
Em 2025, a empresa fechou o ano com faturamento próximo de R$ 8 milhões. A meta para 2026 é chegar a R$ 14 milhões.
O público principal são empresas com 10 a 300 funcionários, mas a estratégia agora é ampliar o alcance.
A principal aposta para 2026 é diversificar os produtos. Em vez de oferecer apenas um programa completo, a empresa passa a lançar soluções específicas.
Contratação, retenção de talentos e estruturação de equipes estão entre os primeiros temas.
“Muitos empresários não precisam de tudo agora. Precisam resolver a dor que está sangrando”, afirma Cristiane.
A ideia é criar uma porta de entrada mais acessível, que ajude o empresário a perceber o impacto da organização antes de avançar para soluções mais amplas.
Para Fernando, o maior erro do empreendedor brasileiro é não entender que, ao abrir um CNPJ, muda de profissão.
“Ele deixa de ser técnico e vira empresário. Mas continua agindo como técnico”, afirma. Isso cria empresas dependentes do fundador, com baixa autonomia e alto custo emocional.
“O dono vira o centro de tudo. Contrata braços e pernas, mas não deixa as pessoas pensarem”, diz.
A missão da Viva Positivamente é justamente quebrar esse modelo.
“O que um dia foi a nossa maior dor virou nossa missão”, afirma Cristiane. “É possível ter uma empresa próspera sem abrir mão da vida.”