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'Nosso compromisso com o Brasil vai além de São Paulo', diz presidente da Turkish Airlines

Em 2025, a Turkish registrou receita de 24,1 bilhões de dólares e lucro operacional de 2,2 bilhões de dólares

Ahmet Bolat, presidente do conselho e do comitê executivo da Turkish Airlines: Seguiremos expandindo a malha rumo à meta de 1.000 aeronaves" (Turkish Airlines/Divulgação)

Ahmet Bolat, presidente do conselho e do comitê executivo da Turkish Airlines: Seguiremos expandindo a malha rumo à meta de 1.000 aeronaves" (Turkish Airlines/Divulgação)

Daniel Giussani
Daniel Giussani

Repórter de Negócios

Publicado em 14 de março de 2026 às 08h12.

Os aeroportos fechados e o espaço aéreo restrito no Oriente Médio após a escalada do conflito envolvendo o Irã nas últimas semanas mostram o tamanho do desafio de administrar uma companhia aérea global.

Rotas precisam ser redesenhadas em poucas horas, custos de combustível mudam rapidamente e a geopolítica pode alterar a malha de voos de um dia para o outro.

Para a Turkish Airlines, essa complexidade faz parte da operação diária.

A companhia aérea da Turquia voa hoje para 356 destinos em 132 países, mais do que qualquer outra empresa do setor, e transportou 92,6 milhões de passageiros em 2025. A frota soma 516 aeronaves, conectando seis continentes a partir do hub da empresa em Istambul.

Mesmo nesse ambiente instável, a companhia manteve crescimento.

Em 2025, a Turkish registrou receita de 24,1 bilhões de dólares e lucro operacional de 2,2 bilhões de dólares, resultado apoiado principalmente pela expansão das operações internacionais, que já representam mais de 90% da receita.

A posição geográfica de Istambul é um dos pilares da estratégia. A partir do aeroporto da cidade, a empresa afirma alcançar 1,4 bilhão de pessoas em até quatro horas de voo e 3,8 bilhões dentro do alcance de aeronaves narrow-body, aviões de corredor único usados em rotas de média distância. A escala dessa rede ajuda a companhia a ajustar rotas rapidamente quando crises regionais alteram o mapa da aviação.

“Gerenciar complexidade geopolítica é uma competência desenvolvida ao longo de décadas”, diz Ahmet Bolat, presidente do conselho e do comitê executivo da Turkish Airlines, em entrevista exclusiva à EXAME no início deste mês. “Quando há restrições de espaço aéreo, a amplitude da nossa malha — hoje com 356 destinos — oferece alternativas de rotas superiores às da maioria dos concorrentes.”

Dentro desse plano global, o Brasil ganhou peso na estratégia da companhia na América Latina.

A Turkish opera atualmente 13 voos semanais entre São Paulo e Istambul, rota realizada com o Airbus A350-900. A empresa também ampliou frequências para Santiago e mantém voos para Buenos Aires.

O interesse, no entanto, não se limita a São Paulo. A companhia avalia novas rotas no país — incluindo o Rio de Janeiro — e monitora outras cidades com demanda internacional relevante. “O Brasil é um dos mercados mais relevantes da América Latina em nossa rede global. Nosso compromisso com o país vai além de São Paulo”, diz Bolat.

A seguir, os principais trechos da entrevista concedida à EXAME.

Qual foi o principal vetor dos resultados do último ano?

Em 2025, nossos resultados refletiram algo do qual temos especial orgulho: crescemos simultaneamente em escala e eficiência, mesmo em um ambiente global genuinamente desafiador. Encerramos o ano transportando 92,6 milhões de passageiros, alta de 8,8%,  enquanto elevamos nosso load factor para 83,2%, o que significa que a demanda cresceu acima da capacidade adicionada. O volume de carga também aumentou, reforçando a estrutura de receitas diversificada que se tornou central em nosso modelo de negócios. Esses números também nos levaram a um marco importante: operar para o maior número de países do mundo — 132 países, 356 destinos em seis continentes.

O elemento determinante, no entanto, não é o volume, mas a qualidade do crescimento. Após uma década de expansão acelerada, entramos agora em uma fase em que rentabilidade e resiliência da malha aérea passam a ter prioridade, em paralelo à escala.

Mais de 90% da receita vem de mercados internacionais. Como a companhia administra volatilidade cambial e geopolítica?

O ponto de partida é a estrutura. Com operações em 132 países, geramos naturalmente receitas em múltiplas moedas, o que cria um hedge estrutural contra movimentos adversos em uma única moeda. Além disso, adotamos uma política disciplinada de fuel hedging para administrar nosso principal componente de custo variável, e nosso programa de renovação de frota reduz estruturalmente a exposição ao combustível ao longo do tempo. Em nível de malha aérea, nossa diversificação geográfica significa que não dependemos de uma única região — podemos ajustar capacidade, redirecionar voos e reequilibrar operações quando necessário.

O que sustenta tudo isso é disciplina financeira. Em um período de incerteza prolongada, anunciamos investimentos de aproximadamente US$ 2,3 bilhões em nova infraestrutura. Essa decisão exige confiança no balanço patrimonial e na trajetória de longo prazo. Nosso objetivo permanece uma margem EBITDA entre 22% e 24%, e administramos todas as variáveis de risco com esse intervalo como referência.

Como a Turkish Airlines ajusta sua malha diante do fechamento do espaço aéreo entre Irã e Israel e riscos geopolíticos regionais?

Gerenciar complexidade geopolítica é uma competência desenvolvida ao longo de décadas. Quando há restrições de espaço aéreo, a posição de Istambul favorece a companhia. A amplitude da malha oferece alternativas de rotas superiores às da maioria dos concorrentes. Em custos, gerenciamos exposição ao combustível via hedging estruturado e renovação contínua de frota. Nosso crescimento de capacidade segue meta anual de 6% a 7%, calibrada para preservar rentabilidade mesmo em cenários adversos. Segurança é o fator central em todas as decisões.

Qual você considera que seja hoje a principal vantagem competitiva da Turkish Airlines?

Nossa posição competitiva é sustentada por uma combinação de geografia, escala e infraestrutura difícil de replicar. Operamos a partir do Aeroporto de Istambul, localizado no cruzamento entre Europa, Oriente Médio e Ásia. A partir desse hub, alcançamos 1,4 bilhão de pessoas em até quatro horas de voo, e 3,8 bilhões dentro do alcance de uma aeronave narrow-body. Esse não é um número de marketing, mas a base estrutural de nossa estratégia.

Mas geografia, por si só, não é estratégia. O diferencial está na infraestrutura construída ao redor desse hub. Anunciamos investimentos de aproximadamente US$ 2,3 bilhões, principalmente no Aeroporto de Istambul, incluindo a expansão do que será um dos maiores centros de carga aérea do mundo, um novo centro de manutenção de motores e uma nova unidade de catering para atender 500 mil passageiros por dia.

O Brasil se tornou um mercado estratégico dentro do plano global?

O Brasil é um dos mercados mais relevantes da América Latina em nossa rede global, e os números refletem esse compromisso. Operamos atualmente 13 voos semanais entre São Paulo/Guarulhos e Istambul, além de ampliar frequências para Santiago e manter operações para Buenos Aires. O Brasil recebeu aproximadamente 9,3 milhões de visitantes internacionais em 2025, um recorde. O Aeroporto de Guarulhos movimentou cerca de 47,2 milhões de passageiros no último ano, retomando a posição de aeroporto mais movimentado da América Latina.

Este recorde de passageiros altera o planejamento da empresa para cá?

Os números recordes em Guarulhos são consistentes com nossos próprios dados. Por isso ampliamos as frequências de 11 para 13 voos semanais na rota Istambul–São Paulo.  No contexto mais amplo da América Latina, o desempenho do Brasil reforça nossa confiança no potencial da região. Estamos avaliando oportunidades adicionais em termos de frequência, capacidade e novos destinos.

Existe possibilidade de novas rotas além de São Paulo?

Decisões de rota seguem três critérios: demanda sustentada, disponibilidade de aeronaves e acordos bilaterais. O Rio de Janeiro é um mercado sob avaliação e já manifestamos formalmente nosso interesse às autoridades competentes. Ainda não há cronograma definido. Monitoramos também outras cidades brasileiras com demanda relevante. Nosso compromisso com o Brasil vai além de São Paulo.

Como a companhia utiliza IA? Há planos para dynamic pricing ou personalização?

A inteligência artificial está integrada às operações como infraestrutura ativa. No Aeroporto de Istambul, utilizamos o TurnaroundAI, plataforma de visão computacional que monitora mais de 80 posições de estacionamento e 30 processos críticos em tempo real. Operamos mais de 60 modelos de IA em produção, incluindo precificação dinâmica,  detecção de fraude e modelagem de pontualidade.

Quais são as perspectivas para 2026?

Entramos em 2026 com forte “momentum”. Reservas antecipadas sustentam perspectiva positiva. Novos destinos incluem Yerevan, Timișoara, Monrovia, Bissau, Urumqi e Chengdu, com foco em aprofundar conectividade e maximizar revenue per departure. Reafirmamos investimentos US$ 2,3 bilhões. A meta financeira permanece margem EBITDA entre 22% e 24%.

A Turkish Airlines pode se tornar uma das três maiores companhias aéreas globais em receita em cinco anos?

Nosso foco não é ranking, mas qualidade de rede, eficiência operacional e disciplina financeira. Seguiremos expandindo a malha com foco em yield de qualidade, crescimento disciplinado da frota rumo à meta de 1.000 aeronaves. Nosso objetivo para 2033 é que 90% da frota seja composta por aeronaves de nova geração.

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