Mulher segurando 'lente espiral': o desenho não é representativo do produto real, apenas uma ilustração (Edição com IA/EXAME)
Repórter
Publicado em 30 de dezembro de 2025 às 13h19.
Última atualização em 30 de dezembro de 2025 às 13h19.
Todo ano, milhões de pessoas veem o mundo ficar embaçado devido à catarata – e a qualidade da lente colocada dentro do olho na cirurgia define o quanto esse paciente vai voltar a enxergar bem.
É nesse ponto que uma criação feita em Maceió começa a ganhar espaço em hospitais mundo afora: a Galaxy, primeira lente espiral do mundo para tratamento de catarata, já ultrapassou 60 mil unidades vendidas em 2025 e deve alcançar 100 mil até o fim de 2026.
A lente Galaxy foi idealizada pelo médico alagoano João Marcelo Lyra através da Logos Bioscience e o envolvimento de equipes universitárias.
Em média, cada lente é comercializada a US$ 600 (cerca de R$ 3.300 na cotação atual) e a expectativa dos desenvolvedores é ultrapassar 500 mil unidades vendidas até 2030.
O produto também é indicado para correção refrativa, presbiopia (vista cansada) e hipermetropia, podendo substituir óculos para longe, intermediário e perto. Apenas no Brasil, isso eleva o mercado potencial para 10 a 12 milhões de pessoas acima de 55 anos, grupo que concentra a maior incidência dessas condições.
Diferente das lentes tradicionais, feitas em “anéis” que dividem a luz em blocos, a lente espiral organiza a luz em um desenho contínuo, em espiral, o que promete transições mais suaves entre visão de longe, intermediária e de perto – e, na prática, mais conforto visual para quem passa pela cirurgia.
Segundo o cirurgião, pacientes relatam independência dos óculos e melhor visão noturna, com redução expressiva de halos e distorções, algo que historicamente foi uma limitação das lentes trifocais tradicionais.
A tecnologia nasceu em um ecossistema de pesquisa em Alagoas e hoje é usada em países como Reino Unido, Índia, Austrália, Nova Zelândia, Canadá e, mais recentemente, no Brasil. Por aqui, a aprovação pela Anvisa saiu há cerca de três meses e já responde por cerca de 10% das vendas totais.
A catarata – opacificação do cristalino, a lente natural do olho – é hoje a principal causa de cegueira reversível no mundo. A cirurgia, que substitui o cristalino por uma lente artificial, é o procedimento oftalmológico mais realizado globalmente. No Brasil, cerca de 30 milhões são realizadas todo ano.
Dr. João Marcelo Lyra, criador da lente Galaxy: “Sempre tive curiosidade acadêmica, mas com vontade de levar o conhecimento para o lado empresarial”
A trajetória da Galaxy começa muito antes da primeira lente ser implantada em um paciente. O projeto foi iniciado em 2019 e uniu grupos de pesquisa da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da empresa de pesquisa e desenvolvimento Logos Bioscience, criada por Lyra justamente para transformar pesquisa em produto.
O alagoano seguiu em medicina assim como o pai e o avô, mas se interessava mais pelo lado acadêmico do que o dia a dia no consultório. “Sempre tive curiosidade, mas com vontade de levar o conhecimento para o lado empresarial”, diz.
Esse movimento ganhou corpo a partir de 2014, quando ele passou a aproximar alunos de computação e oftalmologia em Maceió para resolver problemas clínicos com algoritmos. O grupo desenvolveu uma ferramenta que mais tarde foi embarcada por uma empresa alemã – o primeiro sinal de que era possível exportar tecnologia criada em Alagoas para o mundo.
Em 2020, essa experiência em IA deu origem ao projeto da lente em espiral. A inspiração do formato veio de um lugar improvável: a capa de um livro de filosofia. “Sabedoria antiga e visão moderna”, da autora Shirley Nicholson, estampa uma espiral colorida em formato de globo.
“Olhei aquela espiral e pensei: por que ninguém fez isso em lentes?”, conta. A partir dali, a equipe de Lyra combinou física óptica e um motor de desenho próprio baseado em inteligência artificial para testar dezenas de geometrias até chegar ao modelo atual.
O primeiro protótipo foi implantado em um paciente de Maceió em 2022, após testes computacionais e validações de laboratório. “Uma coisa é o modelo matemático; outra é ver como o olho e o cérebro vão se adaptar”, diz Lyra.
A virada de escala veio com a britânica Rayner, referência global em lentes intraoculares, que comprou a patente da lente de Lyra e passou a produzir industrialmente mais de 370 variações do modelo, necessárias para atender diferentes perfis clínicos em todo o mundo.
Segundo o médico, essa parceria permitiu concluir em cerca de 12 meses um processo que normalmente levaria anos: sair de um protótipo implantado em 30 olhos para um catálogo completo de lentes disponíveis comercialmente em vários países.
A lente conquistou o selo europeu CE Mark, certificação de conformidade com normas de segurança da União Europeia, em maio de 2024 e foi lançada oficialmente no congresso da sociedade europeia de cirurgiões de catarata, a ESCRS, em Barcelona.
Nos bastidores, a estrutura da Logos funciona como um “ecossistema” de inovação em oftalmologia dentro de Maceió: há clínica, hospital, um braço de pesquisa – a Logos Bioscience – e um centro de ensino.
“Saímos da ideação até o teste clínico inicial dentro do próprio sistema Logos”, afirma Lyra.Além da lente em espiral, o grupo trabalha com projetos em fotônica, área que estuda a luz como partícula, e em biossensores intraoculares para medir pressão intraocular e glicose em pacientes diabéticos. Ambas são tecnologias ainda em diferentes estágios de maturidade.
O passo seguinte da equipe é ainda mais ambicioso: desenvolver uma lente “smart”, termo em inglês para dispositivos inteligentes conectados, equipada com microtecnologias capazes de monitorar em tempo real parâmetros como pressão intraocular, glicose e outros marcadores metabólicos.
Na prática, a ideia é transformar a lente intraocular em um biossensor implantado dentro do olho, capaz de captar sinais enviados do sistema óptico ao sistema nervoso central. Se funcionar, a tecnologia pode ajudar a diagnosticar e acompanhar doenças como glaucoma e diabetes com mais precisão e menos exames invasivos.
O projeto prevê investimentos de mais de R$ 30 milhões ao longo de três anos e tem lançamento estimado para cerca de três anos.