Claudio Góes, CEO da Vinícola Góes: “Não somos contra os importados de jeito nenhum. O que somos contra é a falta de incentivo às indústrias vinícolas do Brasil” (Vinícola Góes/Divulgação)
Repórter
Publicado em 24 de dezembro de 2025 às 10h10.
A mesma uva pode custar pouco em uma região e virar artigo de luxo em outra — não porque mudou a fruta, mas porque mudou a origem, o método e a reputação que vêm junto. É essa diferença de valor que a Vinícola Góes quer capturar para o Sudeste brasileiro e levar para o mundo, segundo Claudio Góes, CEO da Vinícola Góes.
“Já podemos dizer que somos competentes. Agora nos resta sermos competitivos”, afirma.
Para isso, o CEO afirma ter investido cerca de R$ 20 milhões exclusivamente em tecnologia na última década — do manejo no campo à vinificação — sem contar os aportes na expansão de plantio.
Com sede em São Roque, interior de São Paulo, o grupo envasou 7 milhões de litros em 2024 e prepara um salto em produtos de maior valor agregado: a meta é crescer 30% em vinhos premium em 2026, além de avançar de 10% a 15% no portfólio tradicional.
“Não é preço que vende, mas sim a qualidade”, diz o CEO, que acredita que o Brasil pode quebrar o paradigma de que vinho bom precisa ser importado.
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A história da vinícola se confunde com a da própria viticultura na região. Góes relembra que o bisavô, Benedito de Góes, era produtor rural e tropeiro e aprendeu a trabalhar com uvas a partir do contato com a imigração italiana no fim do século 19.
“O negócio nasceu de forma pequenininha, muito artesanal, bastante caseiro, até a primeira vinícola formalmente estabelecida em 1946”, diz o atual CEO.
Décadas depois, com o crescimento da família, houve uma divisão, e o avô de Claudio recomeçou nos anos 1960 — um “reset” que, para o CEO, é parte do DNA empreendedor do grupo.
Quando Claudio assumiu a liderança, no fim dos anos 1980, a missão era dupla: profissionalizar a empresa e recuperar a credibilidade do vinho local.
“São Roque passou por um momento bastante difícil nos anos 80 e início dos anos 90”, diz. “A imagem do vinho de São Roque tinha sido bastante arranhada.”
Na visão dele, a virada exigiu um pacote completo: “O todo era produto, posicionamento no mercado, novas embalagens e requalificação da parte técnica da enologia.”
Nesse processo, ele destaca a evolução do capital humano dentro da própria família.
“A gente começou a incutir o senso profissional e especialização profissional”, afirma. “Temos agrônomos da família, enólogos e engenheiro químico.”
A formação técnica, segundo Claudio, virou regra inclusive na sucessão. “Todas as gerações têm formação profissional. É requisito.”
Claudio Góes, CEO da Vinícola Góes: “Estamos virando a chave da vitivinicultura no Sudeste do Brasil” (Vinícola Góes /Divulgação)
A principal aposta técnica para elevar a qualidade dos vinhos no Sudeste é a dupla poda, manejo que permite a colheita no inverno.
“Você entra com uma segunda poda no parreiral… e consegue maturação e colheita no inverno”, diz o CEO. “Com isso, mais qualidade. Conseguimos sanidade nas parreiras, agregando açúcares e complexos importantes para a uva.”
O investimento em tecnologia, segundo Claudio, está concentrado sobretudo no campo.
“A tecnologia na uva e no vinho tem muito a ver com o campo”, diz o CEO, que afirma manter cerca de 40 hectares de uvas de origem europeia — como Cabernet, Chardonnay, Merlot e Riesling — implantadas e adaptadas ao longo de anos de pesquisa e reconversão.
“Desde 2001 a gente vem trabalhando variedades de procedência europeia”, afirma. “Você vai trocando as variedades, adaptando o clima e trazendo experiências.”
Do outro lado, na indústria, a modernização acompanha a matéria-prima. “Se você coloca uma uva melhor no campo e vai vinificar, você precisa de equipamentos eficazes”, diz. “Controles de temperatura e fermentação são balizados por profissionais.”
Na avaliação do CEO, o Sudeste já entrou em uma nova fase do vinho brasileiro.
“Estamos virando a chave da vitivinicultura no Sudeste do Brasil”, afirma.
Ele cita a difusão do manejo a partir de pesquisas como as do pesquisador Murilo Regina, da EPAMIG, em Minas Gerais. “Foi um aprendizado que trouxemos de gente brasileira.”
Apesar do foco em vinhos premium, Claudio afirma que o maior impulsionador do reposicionamento no mercado foi o turismo do vinho.
“A promoção do Brasil no setor vinho é muito ligada ao enoturismo”, diz. “O enoturismo foi o grande alavancador de todo esse retrabalho e revitalização.”
Hoje, a vinícola afirma receber público há décadas, mas o formato “profissional” do enoturismo começou nos anos 1990.
“No formato profissional mesmo, foi criado há 30 anos”, afirma. Segundo ele, a vinícola recebe cerca de 5 mil pessoas por final de semana, e o roteiro do vinho da região soma “mais de 50 estabelecimentos”.
No negócio, o turismo ainda não é o maior gerador de receita, mas tem função estratégica.
“Ele está em torno de 10% a 12% do negócio”, diz. “A gente utiliza muito o enoturismo como marketing para fidelização do consumidor.”
Claudio Góes, CEO da Vinícola Góes: “A promoção do Brasil no setor vinho é muito ligada ao enoturismo” (Vinícola Góes /Divulgação)
Claudio compara o desafio do mercado com o das gôndolas. “No supermercado você vê gôndolas gigantes com várias marcas. Ali você é mais um”, diz. “Você tem que fazer o trabalho do corpo a corpo, da degustação e principalmente das experiências.”
O impacto do enoturismo, no entanto, vai além da empresa, segundo o CEO, que é formado em administração de empresas, mas aprendeu tudo sobre o vinho no dia a dia com a família,
“O enoturismo movimenta uma economia, a economia do bem-estar, do turismo”, diz. “O vinho traz gastronomia, hospedagem e serviços para a região.”
O movimento gera emprego de forma mais intensa, muitas vezes mais que setores industrializados, diz Claudio.
“Nas indústrias, hoje, os equipamentos mecânicos dominam. No enoturismo, a mão de obra humana ainda é a grande bola da vez.”
A operação do grupo, segundo ele, soma cerca de 200 empregos diretos (CLT). Nos fins de semana, o complexo turístico agrega pelo menos mais 200 postos entre freelances e empresas parceiras. “É enoturismo é gerador puro de renda, receita, cultura e socialização”, diz.
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Mesmo com a evolução técnica e o crescimento do turismo, Claudio afirma que o setor ainda esbarra na competitividade — e aponta a carga tributária como principal entrave.
“O vinho é muito sensível ao tributo”, diz. “Cerca de 45% a 47% do custo final para o consumidor é imposto,” diz o CEO.
Na prática, o executivo afirma que isso pressiona margens e limita investimentos em um mercado onde a demanda ainda é pequena.
“Não somos contra os importados de jeito nenhum. O que somos contra é a falta de incentivo às indústrias vinícolas do Brasil," afirma.
Para o CEO, o Brasil ainda é um “mercado jovem” no consumo de vinho.
“O consumo per capita é muito pequeno: dois litros mais ou menos”, diz, comparando com Chile e Argentina. Mesmo com uma tendência de redução de álcool entre os mais jovens, ele acredita que ainda há espaço para crescimento.
“O vinho é um produto milenar, puro da agroindústria”, afirma. “No Brasil, onde é pouco consumido, a consolidação ainda tem muito caminho.”
O plano do grupo é equilibrar sua base nos vinhos tradicionais — segmento em que a empresa se consolidou — com a expansão de produtos de maior valor agregado.
“A vinícola tem a essência nos vinhos populares, nos vinhos comuns”, diz Góes. Mas a estratégia é avançar em inovação. “A gente sempre pensou numa 'sacada' fora da casinha”, afirma.
Ele cita como exemplos o chope de vinho, criado em 2003 após observar um produto semelhante no Rio Grande do Sul.
“Eu imaginava que no Brasil o clima leva ao consumo de bebidas de baixo teor alcoólico e geladas”, diz. “Criamos, então, o que ficou conhecido como chope de vinho.” Hoje, ele afirma que o mercado já está consolidado.
Além disso, a empresa investiu em vinho em lata, com famílias ficando menores, e reforça a aposta em espumantes e frisantes, com consumo gelado e individual.
“Tornar isso um pouco mais cotidiano”, diz. “Sem o charme todo do saca-rolha, taça, para se adaptar mais ao estilo brasileiro.”
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Ao olhar para trás, Claudio diz que o maior desafio interno foi profissionalizar a empresa familiar.
“Profissionalizar uma família de vinhateiros foi o maior desafio como CEO”, afirma. “A gente foi desenvolvendo com muita transpiração. E virou uma coisa organizada.”
No setor, o maior obstáculo foi reposicionar São Roque como destino e produtor de qualidade.
“O grande desafio foi mudar a cara da imagem do vinho de São Roque”, diz. “Ainda está longe de ser comparado a Bordeaux, Mendoza ou Napa Valley, mas é muita coisa diante do que era.”
E, se depender do conselho de seus antepassados, a fórmula para Claudio ir mais longe com o negócio familiar segue a mesma das últimas gerações.
“Muito trabalho, muita seriedade e abnegação”, afirma o CEO. “E principalmente respeitar o consumidor: ele é o nosso verdadeiro chefe.”