O Startup Summit reúne empreendedores, investidores e profissionais de tecnologia em Florianópolis (SC) para discutir inovação, inteligência artificial e os desafios para construir novos negócios (Startup Summit/Divulgação)
Freelancer em Negócios
Publicado em 28 de agosto de 2026 às 06h32.
A inteligência artificial está deixando de ser apenas uma ferramenta incorporada às empresas e passando a influenciar a própria forma como novos negócios são criados. Um estudo divulgado nesta quinta-feira (27/8) pela Endeavor aponta que 16% das empresas já nascem com a IA no centro do negócio, enquanto 34% reposicionaram a operação para colocar a tecnologia no centro.
Para Lucas Marques Peloso Figueiredo, ex-sócio da Méliuz e fundador da Shiva, essa mudança dá origem a um novo tipo de empresa: a AI-first. São negócios pensados desde o início para usar inteligência artificial em diferentes áreas da operação, com equipes menores, ciclos de desenvolvimento mais rápidos e ambição global.
Figueiredo deixou a Méliuz para estudar machine learning e, em fevereiro de 2026, fundou a Shiva, comunidade que apoia empreendedores que usam IA para criar produtos globais. Em março, a startup levantou R$ 52 milhões.
“Não adianta criar empresas pensando só no Brasil. Quando se transforma em dólar, a queda é muito grande. É preciso pensar globalmente desde o início”, diz.
Durante o Startup Summit, que acontece em Florianópolis (SC) até sexta-feira (28/8), Figueiredo apresentou sua visão sobre como construir uma empresa AI-first e quais características diferenciam esse modelo de uma startup tradicional. Para ele, a tecnologia permite que empresas cresçam mais rápido, cheguem a mais países e façam isso com equipes menores.
Um dos exemplos citados pelo empresário é o de Josan Pontes, empreendedor do interior do Ceará que usa IA para construir seus produtos praticamente sozinho. Ao desenvolver a FoxApply, Pontes utilizou o chamado vibe coding e, em seis meses, levou a empresa de zero a 6,5 mil clientes pagantes, segundo Figueiredo, com apenas R$ 300 investidos em tráfego pago.
A IA, nesse caso, não ficou restrita ao desenvolvimento do produto. Foi usada também no processo criativo, na criação de landing pages, no marketing e na estratégia de SEO, com conteúdos produzidos em diferentes idiomas para alcançar consumidores de outros países.
A mudança, segundo Figueiredo, só se tornou possível com o avanço recente das ferramentas de IA. “A primeira versão da Méliuz demorou seis meses para ser programada, mas caiu no primeiro dia”, lembra.
A partir desses exemplos, Figueiredo listou nove características que, na visão dele, definem uma empresa AI-first:
O fundador precisa colocar a mão na massa e ser capaz de construir o próprio produto, em vez de depender desde o início de uma grande equipe de tecnologia. Isso também vale para tarefas que vão além do desenvolvimento, como automações financeiras, segurança e processos internos.
A lógica, segundo Figueiredo, é usar a IA como uma extensão da capacidade do empreendedor. O fundador pode participar do processo criativo, desenvolver funcionalidades, criar páginas e testar diferentes soluções sem necessariamente precisar contratar alguém para cada nova tarefa.
Em uma empresa AI-first, a primeira pergunta diante de um novo desafio não seria necessariamente “quem precisamos contratar?”, mas “como podemos resolver isso com IA?”.
A tecnologia pode assumir tarefas que antes exigiriam novas pessoas na equipe, permitindo que o negócio cresça sem aumentar a estrutura na mesma proporção.
Quando a contratação é necessária, a preferência pode ser por profissionais em regime part-time, segundo Figueiredo. A ideia é manter uma estrutura enxuta e evitar a criação de funções permanentes para tarefas que posteriormente podem ser automatizadas.
A tecnologia não deve ficar restrita ao desenvolvimento do produto. Na visão de Figueiredo, empresas AI-first usam IA no maior número possível de áreas, incluindo marketing, criação de conteúdo, atendimento, finanças e operações.
Isso exige uma cultura de experimentação. O próprio empreendedor precisa estudar e testar novas ferramentas constantemente para entender onde elas podem gerar ganhos de produtividade.
Outra característica apontada por Figueiredo é a possibilidade de atingir o breakeven — ponto em que as receitas cobrem os custos — em menos tempo.
Segundo ele, as empresas apoiadas pela Shiva chegam ao breakeven em até seis meses, e algumas alcançam o ponto de equilíbrio em três meses. A explicação está, em parte, na redução dos custos com pessoas, marketing e softwares.
“É uma nova era de startups que vão ser altamente lucrativas”, afirma.
Empresas AI-first também precisam ter velocidade para responder às reclamações, sugestões e bugs identificados pelos usuários.
Figueiredo cita sistemas capazes de analisar uma reclamação, fazer perguntas adicionais ao cliente, transformar o problema em uma especificação para o time técnico e até implementar a solução. Depois, a própria IA pode voltar ao cliente para verificar se o problema foi resolvido.
Pensar em outros mercados desde o início é outra característica central. Para Figueiredo, é mais fácil construir uma arquitetura global desde o primeiro dia do que adaptar posteriormente uma empresa criada exclusivamente para o mercado brasileiro.
Isso envolve não apenas traduzir o produto, mas criar conteúdos, atendimento e estratégias de aquisição em diferentes idiomas e formatos.
“Poucas empresas brasileiras de tecnologia são globais”, afirma. Para ele, a IA reduz parte das barreiras para que novas startups já nasçam mirando consumidores de outros países.
Apesar da maior facilidade de crescimento, ser AI-first exige atualização constante. As ferramentas, modelos e técnicas mudam rapidamente, o que leva os fundadores a testar novas soluções e até abandonar práticas que funcionavam anteriormente.
Figueiredo considera essa uma das partes mais difíceis de construir uma empresa AI-first. A recomendação é dividir esse processo entre os fundadores, testar diferentes modelos e verificar na prática quais ferramentas realmente funcionam para cada problema.
Mais do que adotar uma ferramenta específica, a estratégia AI-first envolve uma mudança na forma de construir e operar uma empresa: com equipes menores, ciclos de experimentação mais rápidos e a inteligência artificial incorporada desde o produto até as áreas administrativas.