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Endividada e com 2 filhos pequenos, ela criou um negócio milionário

Sem capital inicial, Priscilla Fernandes fundou a Atto Service em 2018. Sete anos depois, a empresa de serviços técnicos atende grandes grupos e mira R$ 9 milhões em receita com a entrada no franchising

Priscilla Fernandes, da Atto Service: “Caminhei com coragem, mesmo com medo, e mantive aprendizado contínuo.” (Divulgação/Divulgação)

Priscilla Fernandes, da Atto Service: “Caminhei com coragem, mesmo com medo, e mantive aprendizado contínuo.” (Divulgação/Divulgação)

Karla Dunder
Karla Dunder

Freelancer

Publicado em 8 de janeiro de 2026 às 15h22.

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O mercado de serviços técnicos ligados à automação cresce puxado por urbanização, segurança e padronização. É um setor ainda fragmentado no Brasil, com pouca profissionalização e alta dependência de mão de obra especializada.

Foi nesse espaço que a engenheira Priscilla Fernandes decidiu empreender. Em 2018, endividada no cheque especial, com dois filhos pequenos e sem capital inicial, ela fundou a Atto Service, empresa especializada em instalação, manutenção e automação de portas.

A empresa chegou a R$ 7,5 milhões em receita em 2024 e fechou 2025 com faturamento de R$ 9 milhões, ampliando presença nacional e acelerando sua base de contratos recorrentes que cresceram 70% no período. Para 2026, com a abertura da fábrica própria e o início do franchising, a projeção é um aumento de 30% no mínimo em faturamento em um mercado que deve crescer 17,2% até 2033, segundo a Business Research Insights.

“Quando comecei a Atto Service, eu não tinha nada, apenas muita força de vontade de mudar minha realidade. Estava completamente endividada, mas sabia que o conhecimento que adquiri trabalhando na área tinha um grande potencial”, afirma Priscilla Fernandes, fundadora da empresa.

O próximo passo é crescimento com controle. A empresa aposta em franquias e microfranquias para escalar sem perder padrão técnico e reputação — hoje, seu principal ativo.

Do cheque especial ao primeiro milhão

Priscilla entrou no setor cedo. Começou aos 17 anos em um negócio familiar ligado a portas automáticas. Anos depois, em janeiro de 2017, um curso de inteligência emocional mudou sua forma de encarar a própria trajetória.

“Ali eu entendi, de forma muito clara, o conceito de autorresponsabilidade: ninguém viria mudar a minha história por mim”, diz.

A decisão de empreender veio menos de uma oportunidade de mercado e mais da necessidade de sair do vermelho. Em 2018, ela e o marido e sócio, Victor Fernandes, pediram demissão do negócio da família e abriram a Atto Service, no bairro da Taquara, zona oeste do Rio de Janeiro.

O ponto de partida era frágil: dívida de R$ 1.300 no cheque especial, nenhum investimento e dois filhos pequenos. O casal vendeu o carro financiado para pagar despesas básicas e alugou uma sala comercial de cerca de R$ 600 por mês. A operação começou com uma mesa, uma cadeira e um computador.

Erros, retrabalho e a virada de chave

O início foi marcado por falhas técnicas, retrabalho e perda de clientes. Em pouco tempo, o caixa apertou.

“No início, nós erramos muito. Erramos medidas, tivemos retrabalho, falhas técnicas. Perdemos clientes importantes e nosso melhor profissional”, afirma. “Ali eu pensei que talvez não fôssemos conseguir continuar.”

A crise forçou uma mudança estrutural. A empresa saiu do improviso e passou a investir em processo, técnica e gestão de pessoas. Em paralelo, Priscilla assumiu o marketing e o posicionamento da marca.

Mesmo pequena, a Atto Service se apresentava como uma empresa estruturada. O efeito foi direto nas vendas. No primeiro ano, a empresa saiu do zero para um faturamento de R$ 1,2 milhão. Em 2019, com cerca de 10 funcionários, a receita subiu para R$ 1,9 milhão.

“Crescemos porque agimos como uma empresa grande antes de, de fato, sermos”, diz.

Pandemia sem demissões

Durante a pandemia, a empresa optou por não demitir nenhum funcionário. A decisão teve custo financeiro e pessoal. Houve redução de despesas, corte de retiradas e mudança para uma casa mais barata.

“Não foi confortável, nem simples. Mas escolhemos proteger as pessoas”, afirma.

Contratos com grandes clientes, como Grupo Globo e Allos, garantiram previsibilidade mínima para atravessar o período. A decisão virou parte da cultura interna. “A pandemia passou, o time ficou”, diz.

Atendimento como estratégia de crescimento

Hoje, cerca de 60% das vendas da Atto Service vêm por indicação. A empresa soma mais de 5 mil clientes atendidos nos estados do Rio de Janeiro, Paraná e Espírito Santo e mantém quase 600 equipamentos com contratos de manutenção recorrente.

“Nós não tratamos serviço como um evento isolado, tratamos como relacionamento”, afirma Priscilla. “Assumir erro quando acontece e resolver rápido faz o cliente sentir que tem alguém do outro lado.”

A empresa não tem reclamações no Reclame Aqui e figura entre as mais bem avaliadas do setor no Google. No portfólio estão nomes como Grupo Globo, Petrobras, Multiplan, ALLOS, Gerdau e Boticário.

Profissionalização em um setor técnico

A Atto Service atua com portas de enrolar, portas automáticas de vidro, portas seccionadas, cancelas e também com segurança eletrônica. É a única do segmento com certificação ISO 9001, norma internacional de gestão da qualidade, além de documentação completa de segurança do trabalho e seguro de responsabilidade civil.

Em um setor técnico e majoritariamente masculino, Priscilla enfrentou resistência desde o início.

“Precisei me provar o tempo inteiro. Muitas vezes fui tratada apenas como ‘a esposa do dono’, quando era eu quem conduzia a empresa”, afirma. “Hoje, meus clientes e minha equipe reconhecem minha capacidade.”

Franquias: crescimento com risco controlado

O franchising marca a nova fase da empresa. O modelo inclui franquias com investimento de R$ 250 mil e microfranquias de R$ 20 mil, em formato 100% home based. Nesse modelo, o franqueado atua na prospecção de clientes, enquanto a operação técnica fica centralizada.

Para 2026, o plano prevê 15 unidades e 100 colaboradores.

“O principal risco é perder padrão”, afirma Priscilla. “Franquia só funciona se você protege a cultura, o atendimento e a qualidade técnica.”

Segundo ela, a decisão veio após anos de pedidos de clientes e interessados em representar a marca. “O mercado já pedia esse movimento. Esperamos ter processos claros e um método bem definido.”

Ao olhar para trás, Priscilla resume a trajetória em uma palavra: obstinação.

“Sou mulher, vim do subúrbio do Rio, comecei no cheque especial e entrei em um setor masculino. Tinha muitas variáveis para dar errado”, diz. “Caminhei com coragem, mesmo com medo, e mantive aprendizado contínuo.”

Hoje, a Atto Service se prepara para escalar. A fundadora sabe que o desafio deixa de ser crescer e passa a ser manter padrão, reputação e cultura. Em um setor ainda pouco profissionalizado, esse pode ser o diferencial mais difícil de copiar.

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