Glauco Freitas, Presidente da Hitachi Energy no Brasil e Head of South LATAM: executivo representou a empresa em uma sessão de debates temáticos para falar sobre políticas públicas relacionadas às energias renováveis (HITACHI/Divulgação)
Presidente da Hitachi Energy no Brasil e Head of South LATAM
Publicado em 18 de setembro de 2026 às 10h42.
O Brasil ocupa uma posição singular na transição energética global. Cerca de 90% de sua matriz elétrica é composta por fontes renováveis, enquanto a média mundial permanece em torno de 30%. Poucos países combinam, como o Brasil, recursos naturais abundantes, capacidade industrial, estabilidade institucional e experiência na operação de um sistema elétrico de escala continental.
Há vento, sol, biomassa, potencial para hidrogênio verde, minerais estratégicos e, sobretudo, energia renovável em abundância. O país encerrou 2025 com uma capacidade instalada de geração quase três vezes superior ao seu consumo médio.
Em um mundo que procura desesperadamente energia limpa, segura e competitiva, essa deveria ser uma vantagem extraordinária. E é.
Mas somente será uma vantagem econômica se o Brasil conseguir fazer essa energia chegar aonde ela precisa ser consumida.
Esse talvez seja um dos pontos mais importantes da discussão sobre o futuro energético e industrial brasileiro. Durante muitos anos, o debate esteve concentrado na capacidade de geração. Hoje, o desafio mudou. Não basta produzir energia limpa. É necessário transportá-la, armazená-la, administrá-la e entregá-la, com segurança, qualidade e preços competitivos, aos locais onde estão e onde poderão estar os grandes centros de consumo.
O Brasil construiu um dos maiores sistemas elétricos interligados do mundo. Cerca de 99% do país está conectado por meio do Sistema Interligado Nacional, o SIN, o sistema nacional de transmissão de energia. É um ativo estratégico extraordinário, que permitiu ao país integrar diferentes fontes de geração e regiões geográficas em escala continental.
Mas o sistema precisa agora responder a uma transformação para a qual não foi originalmente concebido.
A economia mundial vive uma nova era de eletrificação. Indústrias tradicionais precisam reduzir as emissões de carbono acumuladas ao longo de décadas e, para isso, substituir progressivamente processos baseados em combustíveis fósseis por eletricidade de baixo carbono.
Ao mesmo tempo, surgem novos grandes consumidores de energia. Data centers, inteligência artificial, mobilidade elétrica, hidrogênio verde, siderurgia de baixo carbono, automação de edifícios e novas cadeias industriais demandarão volumes crescentes de eletricidade.
Todas essas atividades procuram algo que o Brasil já possui: energia abundante e predominantemente renovável.
É justamente aí que surge uma oportunidade que talvez seja maior do que a própria transformação do setor elétrico.
Ao atrair essas indústrias, o Brasil pode também criar a demanda adicional de energia que tantas vezes aparece como uma incógnita nos planos de expansão do sistema.
Durante anos, convivemos com uma espécie de dilema do ovo e da galinha. A demanda elétrica cresce pouco porque não existe infraestrutura suficiente para conectar novos grandes consumidores? Ou a infraestrutura não é construída porque a demanda projetada ainda é insuficiente para justificá-la?
A geração existe. O interesse internacional existe. Os consumidores potenciais existem. E o Brasil possui exatamente o atributo que uma economia global em processo acelerado de descarbonização procura: energia renovável, disponível em escala e com potencial competitivo.
A construção da infraestrutura necessária para conectar esses elementos pode desencadear um ciclo virtuoso. Mais redes permitem a instalação de novos consumidores. Novos consumidores aumentam a demanda. Maior demanda viabiliza novos investimentos em geração, transmissão, armazenamento e tecnologia. Esses investimentos, por sua vez, aumentam a competitividade do país e atraem novas atividades econômicas.
Energia pode deixar de ser apenas infraestrutura para se transformar em política industrial. Mas essa oportunidade não permanecerá aberta indefinidamente.
Projetos industriais que vieram ao Brasil justamente em busca de energia renovável e abundante já enfrentam dificuldades para obter as conexões e os volumes necessários. Alguns reduzem sua escala, outros adiam decisões e outros simplesmente passam a considerar mercados com redes mais robustas, inteligentes e previsíveis.
O país já está perdendo oportunidades. E algumas delas não voltarão. Por isso, a infraestrutura elétrica precisa deixar de ser tratada como consequência do crescimento econômico e passar a ser considerada uma das condições para produzi-lo.
Isso exige uma visão de Estado, e não de governo. Os ciclos de planejamento, licenciamento, construção e operação da infraestrutura energética são muito superiores aos ciclos eleitorais. As decisões tomadas hoje terão efeitos durante 20, 30 ou mais anos.
A primeira é a expansão, modernização e resiliência das redes. Não se trata apenas de construir mais linhas de transmissão. É preciso transformar o sistema para uma realidade marcada pela expansão das fontes renováveis, maior descentralização da geração, necessidade de armazenamento, digitalização e eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes.
O Brasil possui mais de 180 mil quilômetros de linhas de transmissão. Essa infraestrutura precisa ganhar inteligência, flexibilidade, capacidade de resposta em tempo real e integração com novas tecnologias.
Os cortes recorrentes e crescentes de geração renovável, a insuficiência de transmissão e armazenamento e a ausência de mecanismos econômicos adequados de ressarcimento já afetam a confiança de investidores e financiadores. Desperdiçar energia renovável disponível enquanto potenciais consumidores não conseguem acesso à energia é uma contradição que o país precisa resolver.
A segunda frente envolve regulação, remuneração dos investimentos e tarifas. Os investimentos necessários para modernizar e expandir o sistema elétrico brasileiro serão massivos. No modelo atual, entretanto, os recursos que remuneram grande parte dessa expansão acabam refletidos nas tarifas e, consequentemente, chegam à população e à economia. Esse modelo precisa ser discutido.
O Brasil precisa encontrar mecanismos que permitam proteger o consumidor sem transformar o impacto tarifário em uma trava para os próprios investimentos que podem ampliar a competitividade e o crescimento econômico.
Infraestrutura de transmissão não pode ser analisada apenas como custo. Uma linha de transmissão pode destravar geração que hoje não consegue chegar ao mercado, viabilizar a instalação de uma indústria, permitir um novo data center, estimular uma cadeia de hidrogênio verde, criar empregos e ampliar arrecadação e atividade econômica. O retorno desses investimentos precisa ser analisado também sob essa perspectiva.
Da mesma forma, tarifas, subsídios e distorções regulatórias precisam ser enfrentados com transparência. Decisões que levam à contratação de fontes mais caras, inflexíveis e intensivas em carbono precisam ser avaliadas à luz dos objetivos de competitividade, segurança energética e descarbonização do país.
A terceira frente diz respeito à qualidade e à responsabilidade de longo prazo. Na busca legítima por menores prazos e redução de CAPEX, uma infraestrutura crítica como a rede elétrica não pode adotar exclusivamente preço e prazo como critérios de decisão.
Equipamentos, sistemas e soluções instalados hoje permanecerão em operação durante 20 ou 30 anos. Isso exige fornecedores capazes de acompanhar esses ativos durante todo o seu ciclo de vida.
Confiabilidade, segurança, histórico operacional comprovado, conhecimento dos procedimentos e especificações da rede brasileira, suporte local e capacidade de responder ao longo de décadas precisam fazer parte dos critérios de avaliação.
Permitir a entrada de tecnologias sem histórico operacional comprovado, soluções ainda em estágio de protótipo ou fornecedores sem estrutura local suficiente para sustentar seus equipamentos ao longo da vida útil transfere para o futuro um risco que pode ser muito superior à economia obtida no presente.
Em uma infraestrutura estratégica, CAPEX é importante. Custo total, confiabilidade e segurança ao longo de décadas são ainda mais.
Fortalecer a rede elétrica brasileira significa, portanto, muito mais do que fortalecer o setor elétrico. Significa ampliar a competitividade, a segurança e a autonomia estratégica do país.
Em um mundo marcado por tensões geopolíticas, disputas por cadeias de suprimentos e uma corrida global por energia limpa, o sistema elétrico deixa de ser apenas infraestrutura de suporte. Torna-se uma questão de soberania e desenvolvimento econômico.
A boa notícia é que a tecnologia necessária já existe. Existem soluções para transmissão de grandes blocos de energia, digitalização, automação, armazenamento, modernização de subestações e aumento da eficiência e resiliência das redes.
O principal desafio não é tecnológico. É criar as condições para implementar essas soluções na velocidade e na escala necessárias.
E essa discussão não precisa se limitar às fronteiras brasileiras. Uma integração energética mais robusta na América Latina pode ampliar a segurança do sistema, reduzir custos, otimizar recursos renováveis e aumentar a atratividade da região para novos investimentos. Pela dimensão de seu sistema e de sua economia, o Brasil possui condições naturais para liderar esse diálogo.
A transição energética, portanto, não deve ser compreendida apenas como uma agenda ambiental. Ela é também uma agenda de desenvolvimento.
Cada linha de transmissão construída, cada transformador instalado, cada subestação modernizada e cada nova conexão realizada representam capacidade adicional para receber investimentos, desenvolver cadeias produtivas, gerar empregos e incorporar tecnologia.
No século passado, a prosperidade das nações esteve fortemente associada à capacidade de construir estradas, portos e ferrovias.
Neste século, estará cada vez mais associada à capacidade de construir sistemas elétricos modernos, inteligentes, resilientes, flexíveis e preparados para uma economia altamente eletrificada.
O Brasil já possui aquilo que grande parte do mundo ainda procura: energia renovável em abundância. Possui também recursos naturais, indústria, tecnologia, escala e consumidores interessados em utilizar essa energia.
A oportunidade agora é conectar esses pontos. Se houver rede, haverá espaço para novos consumidores. Se novos consumidores vierem, haverá demanda. Se houver demanda, novos investimentos serão realizados. E esses investimentos poderão alimentar um ciclo de industrialização, inovação e crescimento econômico baseado em uma vantagem competitiva que poucos países possuem.
É uma oportunidade rara de transformar a abundância energética brasileira em uma plataforma de transformação econômica.
Mas potencial não garante liderança. O Brasil tem a energia. Tem a tecnologia. Tem os recursos. E tem uma janela de oportunidade aberta diante de si.
O desafio é transformar essa vantagem energética em desenvolvimento, competitividade, industrialização e geração de valor para o país. Para isso, é preciso garantir que a energia que já somos capazes de produzir chegue aonde o futuro será construído.
As decisões tomadas agora sobre a infraestrutura elétrica determinarão a competitividade brasileira pelas próximas décadas e poderão definir o posicionamento do país por gerações.
Por isso, é importante reconhecer uma verdade simples: sem transmissão, não há transição.
Glauco Freitas é Presidente da Hitachi Energy no Brasil e Head of South LATAM