Negócios

Aos 70 anos, paraense mostra que a moda amazônica é um projeto de longo prazo

À frente da Madame Floresta desde 1999, Graça Arruda aposta na bioeconomia da região e na economia circular para avançar; marca foi destaque em desfile durante a COP30

Graça Arruda, criadora da Madame Floresta: “Queremos que cada peça conte uma história da Amazônia.”

Graça Arruda, criadora da Madame Floresta: “Queremos que cada peça conte uma história da Amazônia.”

Caroline Marino
Caroline Marino

Jornalista especializada em carreira, RH e negócios

Publicado em 8 de janeiro de 2026 às 14h30.

A paraense Graça Arruda, de 70 anos, cresceu ao som do pedal da máquina de ferro, vendo roupas ganharem forma entre linhas, tecidos e botões. Filha de costureira, aprendeu cedo a fazer roupas de boneca e a customizar objetos do dia a dia. A costura, porém, não foi seu primeiro caminho profissional. Ela trabalhou como secretária-executiva em uma companhia de exportação de pescado, onde teve contato com rotinas administrativas, negociação e visão de negócios competências que mais tarde seriam fundamentais para estruturar a Madame Floresta, marca de moda autoral criada em Belém (PA). “Sempre estive envolvida com linha, agulha, tecido e criação, e sentia falta de uma proposta que falasse da Amazônia com respeito, história e responsabilidade”, conta. 

Na época, em 1999, o segmento tinha pouca visibilidade comercial e a sustentabilidade quase não fazia parte do vocabulário do consumidor médio. Ainda assim, a empresa avançou. Ao longo da última década, a consistência do trabalho ajudou a posicioná-la como uma das referências da moda autoral amazônica. A trajetória inclui participações em eventos como Amazônia Fashion Week e, em novembro de 2025, no desfile “En-Zone COP30: Biomas em Movimento”, organizado pelo Sebrae-PA durante a conferência climática.

Atualmente, fatura cerca de R$ 60 mil por mês, tem dois pontos de venda próprios e três em consignação e produz aproximadamente 70 peças por semana, entre coleções femininas, masculinas e infantis.

Do preconceito à COP30

A construção dessa posição no mercado foi gradual. No início, a recepção não foi simples. Graça lembra que, por muito tempo, o bordado manual e o excesso de referências artesanais eram vistos como algo “cafona” por parte das pessoas. “No começo, muitas consideravam as roupas simples demais porque não seguiam o padrão das vitrines tradicionais. Hoje é o contrário: a moda autoral é reconhecida como a do futuro”, diz.

Essa mudança acompanha uma tendência mais ampla. Segundo a consultoria Research & Markets, a demanda por itens de baixo impacto cresce acima da média do setor e deve movimentar mais de US$ 11 bilhões até 2027, impulsionada por consumidores que buscam peças duráveis, com propósito e identidade cultural. No Brasil, esse movimento se conecta à economia da floresta, que ganha força ao valorizar cadeias produtivas baseadas em recursos naturais renováveis e na geração de renda local. Dados da Simon-Kucher mostram que 63% dos brasileiros estão dispostos a pagar mais por mercadorias com efeito positivo.

Para estruturar a empresa e crescer, a empreendedora contou com o apoio do Sebrae-PA. Foram palestras, oficinas e cursos voltados à profissionalização, capacitação de equipes e aprimoramento da gestão para colocar a grife no radar de compradores de outros estados. “O suporte deu visibilidade e ajudou a organizar a operação”, afirma.

Economia circular na base da estratégia

Hoje, a Madame Floresta desenvolve quatro coleções por ano, alinhadas a marcos culturais do calendário paraense, como o aniversário de Belém, o Dia das Mães e o Círio de Nazaré, além de uma coleção voltada ao Amazônia Fashion Week. Cada lançamento reforça a conexão com símbolos, cores e narrativas da região, sem abrir mão da coerência com a sustentabilidade. “Queremos que cada peça conte uma história da Amazônia”, diz Graça. De acordo com ela, o propósito é claro: criar roupas para um público preocupado com o impacto ambiental, resgatando referências regionais e evitando desperdícios na cadeia produtiva.

Diante disso, segue os princípios do slow fashion. As roupas são desenvolvidas a partir de tecidos de fibras vegetais e de insumos naturais descartados pela própria floresta, como sementes de açaí e de inajá, fibras de miriti, escamas de peixe e outros elementos orgânicos que ganham nova vida em detalhes, bordados e acabamentos. “Esses materiais carregam histórias. E são as histórias que vestem as nossas roupas.”

A lógica de economia circular está presente em toda a operação. As coleções são elaboradas com foco em durabilidade, conforto e baixa geração de resíduos. O que sobra de tecido na confecção é reaproveitado em novos produtos de moda ou decoração, evitando descarte e reforçando o compromisso ambiental da marca. As peças e os bordados são feitos por encomenda, em oficinas de artesãos e nas casas de bordadeiras, o que permite respeitar o tempo de cada etapa e manter o caráter artesanal. Um dos parceiros-chave é o artesão Manuel Cardoso, que acompanha a empresa desde o início e fabrica, manualmente, botões e componentes a partir de coco, ouriço da castanha-do-pará e carapaça de ostra.

Consistência e responsabilidade

Os planos para o futuro passam por expansão com cuidado. A empreendedora quer avançar em um nicho ainda pouco explorado: uniformes sustentáveis para a gastronomia. A ideia é desenvolver dolmãs, calças, camisas e bandanas em fibras vegetais, com bordados inspirados na culinária local, levando a estética amazônica para cozinhas, restaurantes e negócios de alimentação. Também está no radar ampliar a presença em feiras de outras regiões do país, o fortalecimento do e-commerce e a expansão para pontos de venda físicos, mantendo o controle sobre a qualidade e a coerência do discurso.

Ao olhar para trás, Graça destaca a importância de alinhar narrativa e prática em negócios de impacto. “Se você diz que faz sustentabilidade, então faça. É o mínimo e uma questão de respeito ao cliente”, afirma. Aos 70 anos, ela lidera o negócio que combina técnica, propósito e identidade regional, e ajuda a mostrar como a Amazônia pode ser protagonista no design contemporâneo. “Acredito que a moda pode transformar vidas; transformou a minha. E cada peça que criamos transforma um pouco a vida de quem a veste.”

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