Trump pode ser responsabilizado por ato de traição à Constituição dos EUA

Segundo o cientista político John Polga-Hecimovich, incentivar atos que vão contra o processo democrático nos EUA é qualificado como crime de sedição

O cientista político John Polga-Hecimovich assistiu de perto ao tumulto causado nesta quarta-feira, 6, por apoiadores do presidente republicano Donald Trump nas ruas de Washington — e que culminou na invasão do Congresso americano. Polga-Hecimovich é professor no departamento de ciência política na Academia Naval dos Estados Unidos, escola preparatória dos oficiais da Marinha e dos Marines dos Estados Unidos, situada na vizinha Annapolis, no estado de Maryland.

Especialista em democracias e com um foco especial nos regimes políticos da América Latina, Polga-Hecimovich diz que a saída tumultuada de Trump pode trazer instabilidade para regimes democráticos como o Brasil. Além disso, prejudica a imagem dos Estados Unidos como uma democracia estável. Pelo WhatsApp, de sua casa, a 1 milha do Congresso americano, Polga-Hecimovich falou com a EXAME sobre os eventos desta quarta-feira.

Qual é a responsabilidade do presidente Trump sobre a invasão do Congresso americano?

Neste momento é difícil de entender qual é a extensão do impacto do que está acontecendo, uma vez que os fatos estão acontecendo agora. O que dá para dizer é que o presidente Trump pode ser responsabilizado por um ato de traição à Constituição americana por incentivar atos que vão contra o processo democrático, chamado de crime de sedição.

O que explica o ato desta quarta-feira?

O que aconteceu hoje é a continuação de uma campanha de Trump para minar o processo democrático dos Estados Unidos. Ao não reconhecer a derrota, ir para as redes sociais alegar fraude, pressionar autoridades a mudar os resultados. O ato de hoje é uma continuação de uma campanha de Trump para motivar seus fanáticos a atrapalhar o devido andamento do processo democrático.

Qual é o impacto desse fim tumultuado do governo Trump para democracias da América Latina e em particular o Brasil?

Um impacto de curto prazo é que Trump está mostrando um caminho bastante poderoso para seu aliado Jair Bolsonaro contestar o resultado das eleições presidenciais do ano que vem. Isso pode complicar bastante uma eventual transição de governo no Brasil.

Como fica a imagem dos Estados Unidos no mundo depois de um episódio como este?

Esse tumulto todo prejudica demais a imagem da democracia dos Estados Unidos perante o mundo. Por décadas as autoridades americanas ficaram pressionando governos de países ditatoriais na América Latina a ceder espaço a regimes democráticos e a fortalecer suas instituições.

Com essa bagunça dentro de casa, quem vai prestar atenção daqui para a frente? Como os Estados Unidos vão conseguir avançar uma agenda democrática em países como Nicarágua, Cuba e Venezuela, onde as liberdades individuais são limitadas?

O governo Biden vai conseguir apaziguar os ânimos?

Ele e as lideranças democráticas vão tentar o máximo que eles puderem, mas não vai ser fácil. Tudo depende da continuidade do suporte a Trump dentro do próprio partido — o chamado “trumpismo”. Se o trumpismo continuar forte dentro do Partido Republicano, o cenário deve continuar polarizado. O coronavírus e a instabilidade econômica trazida pela pandemia tendem a atrapalhar esses esforços.

O que deve acontecer com o Partido Republicano a partir de agora?

As derrotas dos candidatos republicanos na eleição da Geórgia ontem [segundo turno da corrida ao Senado Federal americano no estado, realizado em 5 de janeiro], podem sinalizar às lideranças republicanas que uma associação delas com Trump traz problemas nas urnas. Mas ainda não está claro se os republicanos vão moderar a mensagem deles. Está tudo muito incerto.

Você está em Washington agora. Como está o clima na cidade?

É surpreendente. Jamais imaginei que veria um protesto desta magnitude e uma cidade com toque de recolher por causa de um motivo político. Em quatro anos, os Estados Unidos foram lentamente se tornando uma República instável como muitas foram ao longo da história da América Latina. É, certamente, o momento mais assustador da democracia americana em pelo menos 50 anos.

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