Um manifestante anti-regime iraniano segura o emblema islâmico da bandeira nacional da República Islâmica do Irã após cortá-la durante um protesto. (Piero Cruciatti/AFP)
Repórter
Publicado em 17 de janeiro de 2026 às 07h30.
Em meio aos protestos que ocorrem no Irã, o país enfrenta um apagão de dados, após impor restrições ao acesso à internet.
Ainda assim, organizações não governamentais de direitos humanos têm se mobilizado para manter um fluxo mínimo de informações para o exterior, atuando de forma independente e verificando os relatos dentro do possível.
A Iran Human Rights (IHRNGO), organização que monitora a crise no país, estima que 3.428 manifestantes foram mortos desde o início dos protestos.
“Relatos indicam que a maioria das vítimas tinha menos de 30 anos e pelo menos 17 eram menores de 18”, aponta um relatório da entidade. “A IHRNGO ainda trabalha para confirmar a idade exata de todas as vítimas. Pelo menos dez eram mulheres.”
Estimativas não oficiais, por outro lado, sugerem que o número de mortes pode variar entre 5.000 e 20.000.
Diante do bloqueio quase total da internet, a verificação independente desses dados segue extremamente limitada. Em nota, a IHRNGO afirmou que “continua trabalhando para verificar os relatos de mortes ocorridas nos primeiros dias dos protestos”.
Bandeira do Irã cobre parcialmente prédio atingido por míssil israelense em Teerã (ATTA KENARE /AFP)
O grupo curdo-iraniano de direitos humanos Hengaw disse à Reuters que a capital segue em silêncio desde domingo,11, com drones de vigilância sobrevoando a cidade no que o grupo descreve como um ambiente de segurança “altamente restritivo”.
"Nossas fontes independentes confirmam uma forte presença militar e de segurança em cidades e vilas onde protestos ocorreram anteriormente, bem como em vários locais que não registraram grandes manifestações", afirmou o grupo sediado na Noruega.
Segundo a Reuters, a presença das forças armadas nas ruas do Irã — e o subsequente silêncio da população — não significam tranquilidade, já que foram impostos pela Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC, na sigla em inglês), que agora patrulha o país.
Órgão central e multifuncional das forças armadas, a IRGC foi criada pelo aiatolá Ruhollah Khomeini após a Revolução Iraniana de 1979.
Por decreto, sua missão é garantir a estabilidade do regime: combater interferências estrangeiras, frustrar tentativas de golpe por parte do exército tradicional e reprimir qualquer movimento popular considerado uma ameaça ao legado ideológico da revolução.
A organização Iran Human Rights descreve, em sua plataforma, o clima de pausa e tensão, já dura vários dias no país, com confrontos e manifestações esporádicas sendo rapidamente reprimidos de forma violenta.
“Embora as autoridades da República Islâmica afirmem que os protestos antigovernamentais tenham diminuído, a televisão estatal chinesa exibiu, na noite de 13 de janeiro, imagens de manifestantes nas proximidades do bazar de Teerã. As cenas mostram as forças de segurança disparando gás lacrimogêneo contra os manifestantes. Os funerais dos mortos nos protestos também se tornaram focos de mobilização em várias cidades", afirmaram.
Os relatos indicam que há um toque de recolher ativo na região, proibindo os iranianos de saírem de casa após as 20h.
O think tank americano Institute for the Study of War, que também acompanha o conflito, afirma que a repressão “abafou provavelmente os protestos por enquanto”, mas acrescenta que “a mobilização em larga escala das forças de segurança pelo regime é insustentável, o que possibilita a retomada das manifestações”.
“A disposição do regime em manter essas medidas de securitização evidencia que ele ainda considera sua própria população uma séria ameaça. Contudo, não está claro por quanto tempo o regime conseguirá sustentar essas medidas”, descreve o instituto em seu relatório mais recente.
Líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, durante audiência em Teerã (AFP)
Segundo a The Economist, no Irã, país marcado por protestos e revoluções, um pico seguido por uma súbita queda na intensidade e frequência das manifestações não significa necessariamente o fim de um esforço por mudança de regime — como mostra a própria história iraniana.
No início da Revolução Islâmica de 1978, os protestos também seguiram um padrão de ascensos, retrações e retomadas com ainda mais força.
Desta vez, os iranianos têm mais um motivo para manter a esperança: a possibilidade de uma intervenção liderada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contrário ao atual governo iraniano.
O presidente americano já condenou publicamente a repressão das autoridades e deixou claro que não descarta o uso da força para intervir no país. Há semanas, Trump promete “salvar os manifestantes” e afirma que o regime dos aiatolás irá “pagar caro” pelas mortes.
Ainda assim, não é certo que uma eventual intervenção dos EUA traga o efeito desejado, diz a imprensa britânica.
A oposição no Irã não tem uma liderança clara para substituir o aiatolá Ali Khamenei em caso de queda do regime.Uma das alternativas ventiladas é o nome de Reza Pahlavi, filho do xá deposto pela Revolução Islâmica.
Exilado nos EUA, o herdeiro da antiga monarquia foi um dos principais catalisadores da mobilização recente, convocando o povo às ruas por meio das redes sociais, onde ainda exerce alguma influência.
“Nosso objetivo não é mais simplesmente ir às ruas”, disse Pahlavi no início dos protestos, em sua conta no X (ex-twitter). “O objetivo é nos prepararmos para tomar os centros das cidades e mantê-los sob nosso controle", afirmou.
Seu gabinete, nas redes, chegou a divulgar dezenas de slides em PowerPoint com propostas reformistas para um eventual governo restaurado.
O líder, no entanto, enfrenta críticas dentro da própria oposição, já fragmentada. Narges Mohammadi, uma das pirnicpauis criticas, diz que a retórica restauracionista e monarquista de Pahlavi, sustentada por uma nostalgia do Irã pré-revolução, divide ainda mais o campo opositor — e seu retorno ao poder não necessariamente implicaria o fim do autoritarismo.
Outra opção considerada por parte da população seria um modelo à la Venezuela: substituir o atual líder, Khamenei, por uma figura menos radical dentro da estrutura existente.
Mas esse caminho parece improvável, segundo análise da The Economist, dada a estrutura rígida e vertical de poder construída em torno da figura do aiatolá, sustentada por sua senioridade religiosa e autoridade clerical.
A revista propõe dois cenários mais sombrios, mas considerados mais plausíveis. No primeiro, a Guarda Revolucionária Islâmica assumiria o controle do regime clerical, consolidando o poder e efetivando um golpe de Estado.
Mesmo com a queda do aiatolá, um regime militar sem legitimidade social enfrentaria enorme dificuldade para resolver a crise econômica que deu origem aos protestos.
Outra saída, diz a The Economist, seria uma revolta bem-sucedida seguida de colapso estatal — caso o IRGC não consiga conter os manifestantes, o país mergulharia em caos e instabilidade. Sem uma alternativa clara ao regime, o vácuo de poder alimentaria disputas internas.