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Se PCC e CV forem considerados 'terroristas', o que Trump pode fazer?

Classificação em debate amplia riscos financeiros, jurídicos e levanta dúvidas sobre ações americanas no país

Donald Trump: presidente dos EUA tem autorizado mais operações militares (Saul Loeb/AFP)

Donald Trump: presidente dos EUA tem autorizado mais operações militares (Saul Loeb/AFP)

Da Redação
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Redação Exame

Publicado em 26 de março de 2026 às 06h05.

Última atualização em 26 de março de 2026 às 06h12.

Nos bastidores de Washington, uma discussão que pode ter efeitos diretos para o Brasil avançou nos últimos meses. O governo dos Estados Unidos pode classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas.

A medida, ainda não oficializada, alteraria o enquadramento dessas facções no sistema internacional e ampliaria o alcance das leis americanas sobre empresas, bancos e indivíduos que operam em dólar ou têm relação com os EUA.

O impacto não se limita à segurança pública. A designação abre espaço para sanções financeiras, processos judiciais e, em cenários extremos, até ações operacionais sob justificativa de combate ao terrorismo.

No começo de março, o governo dos Estados Unidos disse que considera que organizações criminosas do Brasil representam ameaças, mas não confirmou que ambas possam ser designadas como terroristas.

"Os Estados Unidos consideram que organizações criminosas brasileiras, como o PCC e o CV, representam sérios desafios à segurança regional devido ao seu envolvimento com o tráfico de drogas, a violência e outras atividades de crime transnacional", disse um porta-voz do Departamento de Estado, órgão que chefia a diplomacia americana, à EXAME.

"O governo americano não comenta antecipadamente eventuais designações de organizações terroristas nem processos deliberativos relacionados a esse tipo de classificação", afirmou. "Estamos plenamente comprometidos em adotar as medidas apropriadas contra grupos estrangeiros envolvidos em atividades terroristas."

O governo brasileiro se posicionou contra a designação, por causa dos riscos que ela traz ao país e pela consideração de que os criminosos não são terroristas. A definição mais aceita do terrorismo é a de pessoas que buscam causar terror na população para defender uma causa, enquanto traficantes buscam apenas o lucro pessoal e não lutam por uma causa específica.

Há a expectativa de que o assunto seria tratado em uma futura reunião entre os presidentes Lula e Trump, que seria realizada em março, mas o encontro foi adiado e não tem nova data.

Risco de invasão

O debate ocorre em um momento de mudança na política externa americana. Em 2026, os Estados Unidos ampliaram ações militares diretas no exterior, incluindo operações na Venezuela e no Irã.

O movimento sinaliza menor restrição ao uso de força e maior foco no hemisfério ocidental, segundo a nova estratégia de segurança do governo Donald Trump.

Nesse contexto, a classificação de facções como terroristas abre a possibilidade — considerada improvável — de ações operacionais no Brasil por militares dos EUA. O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, foi preso por militares americanos após ser considerado terrorista e narcotraficante pelos EUA.

No entanto, o Brasil tem um poder militar superior ao da Venezuela, além de um peso geopolítico maior, o que também atua como fator de dissuasão contra eventuais ataques dos EUA.

Além disso, o direito internacional proíbe que um país ataque outro sem justificativa ou viole a soberania territorial de outro país. Os Estados Unidos já desrespeitaram esta regra em várias ocasiões, mas alegaram que os países atacados representavam sérias ameaças aos americanos.

No caso do Irã, por exemplo, os americanos dizem que o país estaria buscando armas nucleares e que o governo estaria matando sua própria população. O governo iraniano nega as acusações

Pressão sobre bancos e empresas

Outro efeito de uma designação como esta recai sobre o sistema financeiro. Instituições que mantêm relação com clientes ligados a essas organizações podem ser alvo de sanções, mesmo sem identificação formal dos integrantes.

Pelas regras americanas, empresas precisam verificar se seus parceiros estão vinculados a entidades sancionadas ou se possuem participação relevante nesses grupos. A ausência de listas públicas amplia a incerteza.

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O risco inclui as chamadas sanções secundárias. Mesmo sem relação direta, empresas podem ser penalizadas por “apoio material” a indivíduos considerados terroristas, o que afetaria suas operações em dólar e conexões com o sistema financeiro internacional.

Na prática, o efeito tende a encarecer operações, ampliar exigências de compliance e aumentar a rejeição de contratos.

Judicialização fora do Brasil

A classificação também abre caminho para ações judiciais nos Estados Unidos. A legislação permite que cidadãos ou empresas americanas busquem indenização por danos relacionados a organizações consideradas terroristas.

Isso inclui situações em que empresas brasileiras sejam acusadas de facilitar operações financeiras ou falhar em controles de prevenção à lavagem de dinheiro.

O alcance é extraterritorial. Mesmo fora dos Estados Unidos, operações podem ser enquadradas na legislação americana se houver conexão com o sistema financeiro do país.

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