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Portal Kombat: conheça rede russa que 'inunda' os noticiários

Após a captura de Nicolás Maduro, a rede entrou em outro ciclo intensivo de propaganda política pró-Rússia

Kremlin: veículos pró-Rússia se disseminam em países alinhados à Ucrânia (ALEXANDER NEMENOV / Colaborador/Getty Images)

Kremlin: veículos pró-Rússia se disseminam em países alinhados à Ucrânia (ALEXANDER NEMENOV / Colaborador/Getty Images)

Paloma Lazzaro
Paloma Lazzaro

Estagiária de jornalismo

Publicado em 10 de janeiro de 2026 às 06h27.

Na última semana, a captura e prisão do líder venezuelano Nicolás Maduro pelas forças armadas dos Estados Unidos tem dominado o noticiário global.

Oficialmente, um dos grandes aliados da Venezuela, a Rússia, apenas se pronunciou oficialmente na quarta-feira, 7. O chanceler russo, Sergei Lavrov, afirmou: “instamos veementemente a liderança americana a reconsiderar sua posição e libertar o presidente legalmente eleito de um país soberano e sua esposa”.

Para além desse pedido, até o momento, o Kremlin manteve o silêncio. O próprio presidente russo, Vladmir Putin, com quem Maduro conversou no primeiro dia do ano, não disse nada.

Essa inércia, porém, não é espelhada pela mídia russa.

O veículo estatal Sputnik, por exemplo, publicou uma série de matérias criticando a operação. Essa não é a única empresa jornalística contrária à prisão de Maduro, mas as notícias publicadas por ela reverberaram rapidamente por meio de uma complexa rede midiática, chamada Portal Kombat, segundo reportagem do New York Times.

Atuação possivelmente coordenada

Nos dias seguintes à operação militar em território venezuelano, um conjunto de sites associado à propaganda política russa passou a difundir intensamente a narrativa de que países da América Latina, da África e da Ásia deveriam interromper a compra de armamentos norte-americanos.

A mensagem central, de acordo com empresas que monitoram operações de influência, sustenta que a apreensão de Maduro demonstraria que os Estados Unidos são um parceiro “perigoso” e “não confiável”, especialmente no campo militar.

Uma análise conduzida pela empresa Alethea, citada pelo jornal, identificou que conteúdos inicialmente publicados pela Sputnik foram rapidamente amplificados pela infraestrutura do Portal Kombat.

Além dos sites da rede, a ofensiva informacional se estendeu às redes sociais. A empresa de inteligência de dados FilterLabs rastreou um aumento imediato de atividade em contas no Facebook, Instagram e TikTok que já haviam promovido narrativas alinhadas a Moscou no passado, replicando críticas à operação e declarações de diplomatas russos.

Esses conteúdos classificaram a captura de Maduro como “sequestro” e “banditismo militar”, linguagem que, segundo Jonathan Teubner, diretor-executivo da FilterLabs, aponta para disseminação coordenada.

“Os interesses russos estão alinhados com a ideia de os Estados Unidos ficarem atolados na Venezuela”, disse Teubner ao New York Times. Ele afirmou que, embora essa campanha midiática não apresente um objetivo único claramente definido, ela segue o padrão disruptivo tradicional das operações de influência russas.

A atuação do Portal Kombat e da Rede Pravda na Europa

Investigações europeias de 2024, conduzidas durante as eleições para o Parlamento Europeu, descrevem o Portal Kombat e a Rede Pravda como uma infraestrutura coordenada, automatizada e transnacional de desinformação, estruturada para operar em larga escala.

O padrão de atuação foi identificado pela agência governamental francesa de inteligência Viginum, que apontou a existência de uma rede de sites espelhados criada para disseminar conteúdos pró-Rússia em diversos idiomas europeus. Esses domínios são organizados sob a marca Pravda e articulados tecnicamente pelo Portal Kombat.

Eles simulam veículos jornalísticos locais com o objetivo de influenciar o debate público e político em países que apoiam a Ucrânia.

Os dados reunidos pelo Digital Forensic Research Lab (DFRLab) e pela empresa CheckFirst mostram que o funcionamento da Rede Pravda se apoia principalmente em escala industrial e automação.

A investigação identificou mais de 3,7 milhões de artigos publicados entre 2023 e 2024, com produção contínua ao longo de 24 horas por dia. Desses artigos, 539 mil foram distribuídos na França, 583 mil na Espanha, 617 mil na Alemanha e 386 mil nos EUA. Outras áreas de destaque foram República Tcheca, Hungria, Ucrânia e nos países dos Bálcãs.

Esse padrão, segundo pesquisadores, indica o uso de sistemas automatizados de tradução, adaptação e distribuição de conteúdo capazes de lançar milhares de textos diariamente em dezenas de domínios distintos.

Como funciona a rede?

Do ponto de vista editorial, a rede não produz reportagens originais.

Como detalhado pelo DFRLab, a maioria dos artigos reutiliza conteúdos de veículos estatais russos, como TASS, RIA Novosti, RT e Lenta, além de canais pró-Kremlin no Telegram.

Esse material é replicado com pequenas variações de título e linguagem, criando a impressão de múltiplas fontes independentes. Para Joseph Bodnar, pesquisador sênior do Institute for Strategic Dialogue (ISD), trata-se de uma estratégia deliberada: “Mais do que qualquer outra operação alinhada à Rússia, a Rede Pravda está jogando um jogo de números”, afirmou em entrevista ao The Guardian.

O Portal Kombat funciona como o centro técnico da operação, de acordo com as investigações da Viginum,  serviço francês de vigilância e proteção contra a interferência digital estrangeira. Para o órgão, o Portal Kombat é responsável por automatizar publicações, selecionar fontes pró-russas conforme o país-alvo e aplicar técnicas avançadas de otimização para mecanismos de busca.

A eficácia dessa estratégia de saturação informacional é destacada no estudo do ISD.

Segundo o levantamento, em mais de 80% das citações analisadas, sites que reproduziram conteúdos da Rede Pravda trataram o material como fonte confiável.

Nina Jankowicz, especialista em desinformação ouvida pelo jornal The Guardian, alertou que “eles querem ter presença em muitos países e em muitos idiomas ao mesmo tempo”, o que amplia a legitimidade aparente da rede e facilita sua circulação em ambientes digitais.

Outro elemento central do funcionamento da Rede Pravda é a reação rápida a eventos de grande repercussão política.

O DFRLab identificou picos coordenados de publicação associados a eleições, decisões judiciais e prisões de figuras políticas de destaque, padrão que também se manifesta em coberturas envolvendo aliados do Kremlin, como Nicolás Maduro.

Nessas ocasiões, o ritmo industrial de disseminação das matérias se intensifica.

A operação não mira apenas leitores humanos, mas também sistemas algorítmicos. Ao inundar a internet com grandes volumes de conteúdo, a rede aumenta a chance de suas narrativas serem indexadas por buscadores e absorvidas por modelos de inteligência artificial, segundo a investigação francesa.

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