Premiê de Israel, Benjamin Netanyahu, não considera Líbano como parte de cessar-fogo na guerra no Irã (AFP)
Repórter
Publicado em 9 de abril de 2026 às 15h41.
Última atualização em 9 de abril de 2026 às 15h42.
A guerra no Irã, que já dura mais de um mês, viu uma trégua após os EUA e o Irã concordarem em um cessar-fogo imediato, em esforços mediados pelo Paquistão.
Todavia, a trégua é incerta, já que Israel, sob o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, continua sua incursão no Líbano, onde ataca o Hezbollah, um grupo patrocinado e armado pelo Irã, aliado ao regime dos aiatolás.
O embate entre Israel e Hezbollah vem de décadas. Netanyahu considera uma prioridade acabar com o grupo, que já cometeu diversos ataques contra Israel e dispunha de uma grande força militar. Desde 2023, Israel tem feito uma série de ataques ao grupo para matar seus líderes e destruir seu arsenal, o que reduziu o poder do grupo, mas o premiê israelense diz querer acabar com a milícia de vez.
Em 1982, Israel invadiu o Líbano em resposta a ataques da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) contra seu território. Nessa época, o país estava assolado por uma guerra civil multifacetada, e o objetivo de Israel era instaurar um governo favorável no país vizinho.
Para isso, a invasão cobriu vasto território, chegando até a Beirute, resultando na morte de milhares de civis e de soldados opostos a Israel. Como uma organização de resistência, diversos grupos do país se mobilizaram na luta contra o invasor, inclusive um grupo da comunidade islâmica xiita, minoria religiosa.
Desse grupo nasceu o Hezbollah, apoiado e financiado pelo Irã, a maior potência xiita do mundo islâmico, com o objetivo de expulsar Israel, que também era inimigo do Irã. Aproveitando o forte sentimento contra Israel, o grupo conseguiu apoio de jovens do Líbano, tornando-se um ator importante na política e na segurança do país.
Israel ocupou o território do Líbano até 2000. Desde então, o Hezbollah se tornou um partido político cada vez mais influente, com dezenas de assentos no parlamento libanês.
Em 2006, o Hezbollah lançou uma incursão em território israelense, matando três soldados e capturando dois, dando início à uma guerra que durou 34 dias e resultou em 1.200 libaneses mortos e mais de 4.400 feridos, em sua maioria civis. Para Israel, as baixas foram 158 mortes, majoritariamente de soldados.
Os dois lados voltaram a um embate mais forte em 2023, quando o Hezbollah fez bombardeios contra Israel em apoio a Gaza. Em 2024, uma elaborada campanha de Israel enviou pagers explosivos para membros do Hezbollah, causando cerca de 11 mortes no Líbano – o ataque escalou novamente as tensões entre os dois, e os rivais seguem trocando golpes até hoje.
Apenas horas após o anúncio do cessar-fogo entre EUA e Irã, na terça-feira, que foi recebido como um alívio para todos os envolvidos no conflito, Israel conduziu uma onda de ataques aéreos no Líbano, atacando mais de 100 alvos em todo o país – incluindo áreas densamente populadas – e matando centenas de pessoas na quarta, 8, no dia mais sangrento de todo o conflito até então. Israel acredita ter matado, inclusive, um alvo de alto perfil ligado à liderança do Hezbollah na incursão. Enquanto isso, o serviço de defesa civil do Líbano reporta 254 mortes e 1.165 feridos.
A nova onda de violência expôs fortes desacordos e confusão sobre o escopo do cessar-fogo. O Irã e o Paquistão interpretam a trégua como um cessar das hostilidades em todas as frentes, com o anúncio sobre o cessar-fogo do premiê paquistanês, Shehbaz Sharif, no X dizendo explicitamente que a paz incluiria o Líbano.
Por sua vez, tanto os EUA quanto Israel consideram o conflito no país como uma “briga separada”, nas palavras do presidente americano, Donald Trump, que nunca esteve incluído nos termos do acordo.
Essa incerteza suscita o medo de que a ofensiva no Líbano possa comprometer a trégua antes que as negociações para um acordo permanente tenham começado – as delegações americanas e iranianas se encontrarão pela primeira vez em um hotel na capital paquistanesa, Islamabad, nesse sábado, 11, onde as negociações começarão de fato. Mesmo assim, apesar das diferenças, Netanyahu afirma que Israel deverá conduzir negociações de paz com o Líbano "o mais cedo possível", com as demandas de Israel envolvendo o desarme do Hezbollah.