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Partido Comunista russo alerta parlamento de risco de revolução

Veterano do partido, Gennady Zyuganov, alertou parlamentares durante sessão do plenário que economia fragilizada pode ser estopim de revolução popular como a de 1917

Publicado em 24 de abril de 2026 às 06h01.

Às vésperas de uma eleição parlamentar em setembro na Rússia, o veterano do Partido Comunista da Rússia, Gennady Zyuganov, de 81 anos, alertou políticos sobre o risco de uma revolução como a de 1917, que aboliu a monarquia do país e instaurou o socialismo.

Segundo Zyuganov, preocupações com a economia seriam o estopim da revolta, e o governo deveria tomar medidas urgentes para corrigir o rumo econômico da Rússia. "Estamos fazendo tudo o que podemos para apoiar [o presidente Vladimir] Putin, sua estratégia e suas políticas, mas vocês [o governo] não estão ouvindo", disse ele, em comentários feitos nessa semana.

"Se vocês [o governo] não adotarem urgentemente medidas financeiras, econômicas e de outras naturezas, até o outono, nos veremos diante de uma repetição do que aconteceu em 1917. Não temos o direito de repetir isso. Vamos tomar algumas decisões”, disse Zyuganov no plenário. O comunista também notou à mídia que as reuniões governamentais com Putin estão cada vez mais melancólicas.

Apesar disso, ainda não há alertas sérios de inquietação na Rússia, em meio à intensa censura durante a guerra, à proibição de protestos, a penas longas de prisão para dissidentes e à influência crescente do Serviço de Segurança Federal, sucessor da agência de inteligência russa da era soviética, o KGB.

Cautela política

O Partido Comunista russo é o segundo maior no parlamento, seguido pelo incumbente Rússia Unida. Mesmo assim, o partido de Zyuganov historicamente apoia Putin, no poder ou como presidente ou como primeiro-ministro desde 1999, oferecendo apenas críticas calculadas, sem direcioná-las diretamente ao presidente.

Putin repreendeu seus próprios funcionários de alto escalão na semana passada após uma contração econômica de 1,8% nos primeiros dois meses do ano, demandando novas medidas para estimular o crescimento econômico.

Apesar dos medos e choques, a economia da Rússia, que atualmente soma 3,1 trilhões de dólares, demonstrou resiliência nos últimos anos. Contraiu em 2022, mas cresceu por três anos consecutivos até 2025, superando expectativas de analistas e evitando um colapso, mesmo com sanções ocidentais e com a guerra na Ucrânia. Todavia, a erosão da guerra na economia e as taxas de juros nos dois dígitos desaceleraram o crescimento para 1% no ano passado.

Guerra no Irã: dádiva ou problema?

A guerra no Irã e o aumento decorrente nos preços do petróleo podem ser uma boa notícia a curto prazo para a economia russa, que exporta a commodity e já viu o levantamento de sanções conforme países buscam fontes alternativas de petróleo. Com isso, o Fundo Monetário Internacional (FMI) aumentou suas previsões para o crescimento econômico russo de 0,8% para 1,1%.

Todavia, o think tank European Council on Foreign Affairs aponta em um artigo que a dádiva inesperada não é o suficiente, por si só, para mudar o rumo da economia russa. Apenas o dinheiro do petróleo não será o suficiente para superar os problemas orçamentários do Kremlin, ou problemas estruturais com a economia do país, que estão piorando cada vez mais com a continuação da guerra na Ucrânia possibilitada pelo conflito no Irã.

O artigo também sugere que ataques ucranianos à infraestrutura portuária, fundamentais para a exportação de petróleo, anularam até dois terços dos lucros gerados pela guerra no Irã. E, mesmo que Moscou lide com os danos, a Ucrânia continuará alvejando esse tipo de infraestrutura, justamente pelo impacto econômico.

Além disso, um conflito prolongado pode significar menos influência russa na região: dois projetos russos de energia nuclear no Irã (um sob construção e um ainda sendo planejados) foram interditados devido à guerra, e exploração por companhias russas buscando petróleo e gás natural no país também parou. O investimento diplomático do Kremlin para atar laços com países do Golfo Pérsico também pode ser prejudicado, conforme esses estados se aproximam cada vez mais dos EUA buscando proteção contra o Irã, visto como um aliado russo.

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