O bilionário Ronald Lauder concede entrevista à Fox News, em 2019 (John Lamparski/Getty Images)
Repórter
Publicado em 16 de janeiro de 2026 às 06h01.
No primeiro mandato de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos (EUA), em 2018, o seu então conselheiro de segurança nacional John Bolton conta que foi convidado ao Salão Oval para ouvir uma nova proposta. Bolton, outrora aliado de Trump e hoje em dia um de seus maiores rivais, afirmou a veículos jornalísticos como The Guardian, Forbes e New York Times que um rico executivo acabava de sugerir que Trump comprasse a Groenlândia, território que faz parte da Dinamarca.
O homem em questão era Ronald Lauder, um herdeiro bilionário e antigo colega de classe de Trump. A amizade tem mais de 60 anos, desde que se conheceram em meados dos anos 1960 ao frequentarem a mesma escola prestigiosa em Nova York. Foi depois da intervenção do bilionário que a Casa Branca começou a cogitar possíveis maneiras de aumentar a presença e influência americana no território ártico. E, no segundo mandato, as ambições de Trump só aumentaram.
Oito anos mais tarde, o republicano flerta não só com a ideia de comprar a ilha, mas de possivelmente tomá-la pela força, causando grande inquietação entre seus aliados na Europa, e dentro da própria Otan.
Apuração do The Guardian sobre o caso aponta que as sugestões de Lauder, assim como as das pessoas mais próximas ao republicano, soaram tão bem com Trump por ir de encontro com seus interesses comerciais. E Lauder tem interesses comerciais adjacentes – pouco depois de Trump aumentar suas ameaças contra a Groenlândia, Lauder adquiriu extensas participações comerciais na ilha.
A Groenlândia é uma região rica em diversos recursos. Sob o solo, existem ricos depósitos de terras raras, minerais específicos fundamentais para a mais avançada tecnologia. Além disso, a ilha também é rica em petróleo bruto, zonas de pesca, e, conforme o gelo derrete devido ao aquecimento global, novas rotas marítimas mais práticas lentamente se revelam.
Em uma coluna no New York Post de fevereiro do ano passado, logo após o retorno de Trump à Casa Branca, Lauder defendeu a expansão proposta pelo republicano:
“O conceito de Trump para a Groenlândia nunca foi absurdo – era estratégico”, escreveu Lauder. “Sob o gelo e as rochas, encontra-se um tesouro de elementos de terras raras essenciais para inteligência artificial, armamento avançado e tecnologia moderna. Com o recuo do gelo, novas rotas marítimas estão surgindo, remodelando o comércio e a segurança globais.”
Posição da Groenlândia (em vermelho), entre a América do Norte e a Rússia (Wikimedia Commons)
Vendo a Groenlândia no “epicentro de uma grande competição por poder”, argumenta Lauder, os EUA deveriam buscar “parcerias estratégicas”. “Trabalhei próximo com líderes comerciais e políticos da Groenlândia por anos para desenvolver investimentos estratégicos por lá”, argumentou.
E de fato, como originalmente revelado no livro “The Divider” pelos jornalistas Peter Baker e Susan Glasser do New York Times, Lauder investiu grandes quantias da sua riqueza no território ártico – arquivos dinamarqueses mostram que uma companhia sediada em Nova York, cujos donos não revelaram seus nomes, investiu alto na Groenlândia.
Um jornal dinamarquês revelou em dezembro que Lauder estava entre os principais investidores dessa firma, segundo um outro investidor da Groenlândia envolvido na empreitada. Um de seus principais empreendimentos é a exportação de “água de luxo” de uma ilha na costa da Groenlândia.
“Lauder e seus colegas do grupo de investidores têm um ótimo conhecimento e acesso ao mercado de luxo”, disse o investidor groenlandês ao veículo da Dinamarca.
Outras empreitadas envolvem a busca por energia hidrelétrica de um dos maiores lagos da ilha para alimentar uma fornalha para derreter alumínio.
Ainda não se sabe como a pressão de Trump sobre a Groenlândia pode afetar os investimentos, mas o republicano continua determinado a adquirir a ilha.
“Vamos fazer alguma coisa com a Groenlândia”, disse Trump na semana passada, “seja da maneira amigável ou da maneira mais difícil”. Após uma reunião na Casa Branca na quarta-feira, o ministro das Relações Exteriores da Dinamarca, Lars Løkke Rasmussen, disse: “Não conseguimos mudar a posição americana. É evidente que o presidente tem esse desejo de conquistar a Groenlândia”.
Estima-se que a fortuna de Lauder, que vem em grande parte da gigante dos cosméticos Esteé Lauder, seja de 4,6 a 4,7 bilhões de dólares, com algumas fontes como a Forbes estimando que já tenha batido os 5 bilhões.