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Guerra da Ucrânia coloca africanos e colombianos em combate

Contratação de mercenários pelos dois lados leva estrangeiros a lutarem e morrerem no conflito, que completa quatro anos

Guerra da Ucrânia: Homem com roupas militares e outro com bandeira da Ucrânia em evento que marca os 4 anos do conflito, em Berlim (Ralf Hirschberger/AFP)

Guerra da Ucrânia: Homem com roupas militares e outro com bandeira da Ucrânia em evento que marca os 4 anos do conflito, em Berlim (Ralf Hirschberger/AFP)

Rafael Balago
Rafael Balago

Repórter de internacional e economia

Publicado em 24 de fevereiro de 2026 às 15h05.

A Guerra da Ucrânia, que completa quatro anos nesta terça-feira, 24, tem dependido cada vez mais da presença de soldados estrangeiros. Entre eles, tem aumentado a presença de africanos no lado russo e de colombianos no front ucraniano.

Nas últimas semanas, ao menos três países africanos — NigériaQuênia e África do Sul — emitiram alertas contra campanhas de recrutamento da Rússia. Um relatório do governo queniano estima que haja pelo menos mil cidadãos do país lutando no conflito em favor dos russos.

Um estudo do Instituto Francês de Relações Internacionais estima que haja entre 3.000 e 4.000 africanos lutando com os russos, de um total de cerca de 20.000 lutadores estrangeiros.

Outra investigação, publicada pela agência francesa RFI, encontrou 1.417 lutadores africanos alistados pela Rússia, de 35 países diferentes, entre 2023 e 2025. De cada cinco deles, um foi morto em conflito.

Entidades também apontam que o recrutamento muitas vezes é feito de modo enganoso. Homens e mulheres são atraídos para a Rússia com propostas de emprego civil ou de estudo e, ao chegar lá, são forçados a se alistar e a ir para o front ou para fábricas de drones e de munição.

Imigrantes irregulares na Rússia, presos, receberam a proposta de se alistar em troca da regularização dos vistos, segundo a RFI.

A Rússia também já havia realizado operações militares na África por meio do grupo Wagner, uma organização paramilitar russa que fornecia soldados mercenários para conflitos africanos e proteção de minas no continente.

O Wagner atuou na Guerra da Ucrânia até 2023, quando houve uma rebelião da liderança do grupo contra o comando militar russo. Dois meses depois, o fundador, Yevgeny Prigozhin, morreu em um acidente aéreo e a organização foi fechada.

Colombianos pela Ucrânia

Do outro lado, estima-se que cerca de 500 colombianos já tenham morrido lutando pela Ucrânia, segundo reportagem do jornal El País. Não há dados oficiais sobre mortes no conflito, dos dois lados.

Destes colombianos, boa parte são ex-militares que lutavam contra as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), que fecharam um acordo de paz em 2016.

"Soldados profissionais com quinze a vinte anos de experiência em contrainsurgência se aposentam no final dos trinta ou início dos quarenta anos, apenas para não conseguirem se reintegrar a uma economia que não os acolhe", diz Erin McFee, pesquisadora do think tank Atlantic Council, baseado em Washington.

"Existem programas formais de transição e requalificação; no entanto, sua desconexão com a realidade do mercado de trabalho deixa os veteranos sem uma entrada viável para a vida civil", afirma.

A principal questão é salarial. Um oficial de nível médio ganha cerca de 4 milhões de pesos (pouco mais de mil dólares) por mês quando está na ativa. Após a aposentadoria, a renda geralmente cai pela metade, para cerca de 500 dólares mensais.

Já os salários dos soldados na Ucrânia que participam de operações de combate variam de US$ 3.000 a US$ 5.000 por mês, que seguem sendo pagos inclusive se eles estiverem presos pelo inimigo ou em recuperação após ferimentos.

Há, ainda, casos de um bônus inicial de US$ 25.000 e de um auxílio-funeral de US$ 350.000 para as famílias, caso o soldado seja morto em combate.

"Com programas de transição precários e o setor de segurança privada doméstico saturado, o contraste com a remuneração na linha de frente ucraniana é gritante", diz McFee.

Porém, diversas famílias de colombianos relatam casos de soldados que morreram no front, mas não tiveram os falecimentos reconhecidos pelo governo ucraniano, o que trouxe uma série de dificuldades, não apenas emocionais, mas financeiras. Sem a morte registrada, não é possível receber os auxílios finais nem resolver questões legais, que dependem de um atestado de óbito.

Assim, familiares de colombianos vem pressionando o governo do país a resolver a questão dos mortos desaparecidos com a Ucrânia e criar formas de evitar novos recrutamentos.

O presidente Gustavo Petro tem criticado a prática, que chama de "tráfico humano que converte homens em mercadores da morte". Em dezembro, o Congresso da Colômbia aprovou uma lei para que o país entre em uma convenção da ONU contra o uso de soldados mercenários.

No começo de fevereiro, o Itamaraty emitiu um alerta para que brasileiros recusem convites para lutar em guerras no exterior.

“Não há obrigatoriedade por parte do poder público para o pagamento de passagens ou o custeio de retorno de cidadãos do exterior. Nesse sentido, recomenda-se fortemente que convites ou ofertas de trabalho ou de participação em exércitos estrangeiros sejam recusadas”, diz o comunicado do governo brasileiro.

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