Fotos comprovam execuções em prisões sírias, diz ONU

Milhares de novas fotos comprovam a morte de pessoas detidas em penitenciárias na Síria controladas pelas forças governamentais, diz comissão da ONU

Genebra – A comissão da ONU que investiga os crimes cometidos na guerra civil da Síria revelou nesta terça-feira que recebeu milhares de novas fotos que comprovam a morte de pessoas detidas em penitenciárias controladas pelo governo local.

“Recebemos recentemente milhares de fotos de corpos de pessoas supostamente assassinadas enquanto estavam sob custódia do governo. Muitos dos corpos eram esqueléticos, o que indica morte por inanição”, declarou hoje o presidente a comissão, o brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro.

“Quase todos (os corpos) tinham marcas de terríveis abusos, como estrangulamento, mutilação, feridas abertas, queimaduras e contusões”, acrescentou o diplomata após apresentar um relatório sobre o ocorrido nos últimos três meses de guerra civil na Síria.

Os métodos de tortura são semelhantes aos documentados anteriormente pela comissão durante o conflito sírio, que nasceu de uma revolta popular pacífica em março de 2011 violentamente reprimida pelas forças governamentais.

A análise preliminar de uma pequena parte das fotos recebidas pela comissão indicam que as imagens foram feitas dentro de instalações militares.

Pinheiro afirmou que as informações sobre mortes em presídios, particularmente na cidade de Damasco, “aumentaram dramaticamente”, graças a depoimentos de ex-detentos que dividiram celas com pessoas torturadas ou que morreram por não terem recebido atendimento médico.

Transcorridos mais de três anos desde o início do conflito armado, a comissão constatou que “o uso da tortura em recintos militares e de segurança continua sendo generalizado e sistemático”.

Entre as práticas de tortura se encontra o espancamento, choques e prender os prisioneiros nas paredes.

Além disso, existem denúncias de atrocidades cometidas em presídios para mulheres, principalmente estupros, prática que também é comum em postos de controle do governo.

Pinheiro disse que uma das razões para a violência na guerra estar aumentando é o fato de vários países fornecerem armamento e recursos para governo sírio e grupos armados rebeldes.

“Não é um segredo o porquê da situação estar pior. Se deve ao fato das partes seguirem recebendo mais armas”, declarou.

O diplomata argumentou que “todos os Estados que cooperam fornecendo recursos de qualquer tipo aos combatentes de qualquer lado também são responsáveis por crimes de guerra e graves violações dos direitos humanos”.

O apoio econômico não chega unicamente de Estados, mas também de “muitos indivíduos”, afirmou a jurista Karen Abu Zayd, que também é integrante da comissão.

A equipe responsabilizou por vários crimes os grupos rebeldes, acusados de atacar indiscriminadamente populações civis em áreas controladas pelo governo, utilizar carros-bomba, fazer reféns e efetuar execuções públicas.

Pinheiro esclareceu que não se trata de “um concurso para ver quem é mais cruel”, mas reconheceu que o governo e seus aliados contam com “uma força de combate superior”.

“Os rebeldes também cometeram crimes de guerra em áreas que controlam no norte da Síria, assassinatos, execuções, torturas, sequestros e ataques contra objetos protegidos (como veículos ou instalações humanitárias)”, denunciou.

Outro crime apresentado pelo relatório é o “notável aumento de ataques contra escolas em funcionamento”, o que deixa crianças mortas e mutiladas.

A comissão reiterou sua posição de que o conflito só pode acabar por meio de uma negociação política que leve para a justiça os responsáveis pelos crimes mais graves.

Se isto ocorrer em algum momento, a documentação e evidências que a comissão da ONU reúne desde setembro de 2011 constituirão as provas mais importantes no julgamento.

*Atualizada às 10h03 do dia 17/06/2014

Apoie a Exame, por favor desabilite seu Adblock.