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EUA pode registrar primeira queda populacional da história em 2026

Análise da Bloomberg indica que redução da imigração pode levar o país a um marco demográfico inédito já neste ano

População dos EUA: país pode registrar a primeira queda populacional desde 1790 já em 2026. (EXAME)

População dos EUA: país pode registrar a primeira queda populacional desde 1790 já em 2026. (EXAME)

Publicado em 31 de janeiro de 2026 às 16h12.

Os Estados Unidos podem enfrentar, já em 2026, a primeira queda real de sua população desde o início dos registros oficiais, em 1790.

A avaliação consta em uma análise da Bloomberg, que aponta que o endurecimento das políticas migratórias no segundo mandato do presidente Donald Trump está acelerando um ponto de inflexão demográfico antes previsto apenas para as próximas décadas.

Segundo a reportagem, mesmo que a queda não se concretize já neste ano, há consenso entre especialistas que a redução da imigração líquida está deixando de compensar o envelhecimento da população nativa, a queda nas taxas de natalidade e o aumento das mortes.

Quanto mais rígida a política migratória, mais próximo o país fica de um platô — ou de um encolhimento populacional.

Imigração sempre sustentou o crescimento populacional dos EUA

Desde sua fundação, a capacidade de atrair trabalhadores e ampliar sua população foi uma das principais vantagens competitivas dos Estados Unidos. Esse diferencial ajudou o país a se manter distante de desafios enfrentados por outras grandes economias.

Segundo a Bloomberg, a China, que registrou em 2025 sua menor taxa de natalidade desde 1949, dificilmente superará os EUA como maior economia do mundo; o Japão, cuja população começou a cair em 2010, enfrenta crescimento arrastado há mais de uma década; e a Europa convive há anos com um discurso de estagnação econômica ligado ao envelhecimento populacional.

Até recentemente, os EUA pareciam fora desse grupo. Em 2023, o próprio Census Bureau projetava a primeira queda populacional apenas em 2081. Agora, o ritmo de crescimento já é tão baixo que o país corre o risco de registrar expansão inferior à da Alemanha — frequentemente chamada de “o doente da Europa” justamente por seus problemas demográficos.

Crescimento populacional desacelera com força desde 2024

De acordo com dados divulgados pelo Censo e analisados pelo portal, a população dos EUA cresceu apenas 0,5% no período encerrado em 1º de julho de 2025 — o equivalente a 1,8 milhão de pessoas. Foi o menor avanço desde a pandemia.

O principal fator foi o colapso da imigração líquida, que caiu para 1,3 milhão, ante um pico de 2,7 milhões no ano anterior. No mesmo período, houve apenas 519 mil nascimentos a mais do que mortes, um saldo que vem diminuindo rapidamente.

Segundo o Escritório de Orçamento do Congresso (CBO), esse excedente natural deve desaparecer por completo até 2030, tornando os EUA totalmente dependentes da imigração para sustentar qualquer crescimento populacional.

Migração líquida pode se tornar negativa já em 2026

A matemática populacional é simples: nascimentos menos mortes, somados à diferença entre imigrantes que entram e saem do país. Se esse último número ficar negativo e superar o saldo natural, a população encolhe.

Especialistas do Censo afirmaram que a imigração líquida pode cair para apenas 316 mil pessoas no período até julho de 2026, com os EUA “tendendo à migração líquida negativa”. O problema é que os dados oficiais ainda não capturam totalmente o impacto das medidas mais recentes do governo Trump.

Estudos do American Enterprise Institute (AEI) e da Brookings Institution sugerem que os EUA já podem ter registrado migração líquida negativa em 2025. A estimativa aponta uma redução entre 10 mil e 295 mil imigrantes no ano.

Para 2026, a projeção varia de um ganho modesto de 185 mil pessoas a uma perda de até 925 mil — cenário que, combinado à baixa natalidade, levaria a uma queda populacional superior a 400 mil pessoas.

Segundo os pesquisadores, o principal fator por trás da desaceleração não são as deportações em massa, mas a forte redução no número de novos imigrantes que entram no país, tanto de forma legal quanto irregular.

Mesmo em estimativas intermediárias, os EUA já estariam “flertando” com crescimento populacional zero.

“É algo que eu não esperava ver”, afirmou Tara Watson, diretora do Centro de Segurança Econômica da Brookings, à Bloomberg.

Desde 1790, os EUA nunca registraram uma queda populacional em suas estimativas anuais. A única exceção parcial foi 1918, durante a gripe espanhola, quando parte da população masculina estava mobilizada no exterior.

Governo Trump vê a tendência como positiva

Para a Casa Branca, o cenário não é necessariamente um problema. O governo defende que menos imigração amplia oportunidades e salários para trabalhadores nativos e reduz a pressão sobre custos como moradia e saúde.

“Não há falta de mãos ou mentes americanas para expandir nossa força de trabalho”, afirmou Abigail Jackson, porta-voz da Casa Branca. Trump também comemorou, em discurso em Davos, o que chamou de “migração reversa” em 2025.

O governo sustenta que a era da migração em massa contribuiu para a perda de coesão social no Ocidente e defende um mundo com fluxos migratórios mais restritos entre países soberanos.

Impactos econômicos tendem a ser graduais, mas persistentes

Economistas alertam que os efeitos de uma população estagnada ou em queda não são imediatos, mas corroem o crescimento ao longo do tempo. Estudos do AEI/Brookings estimam que a menor imigração pode retirar até 0,3 ponto percentual do PIB em 2025 e 2026.

O impacto no mercado de trabalho pode ser mais rápido. A necessidade mensal de criação de empregos para manter o pleno emprego pode cair para menos de 50 mil vagas — e, em 2026, se tornar negativa, permitindo perda líquida de empregos sem alta do desemprego.

Apesar disso, defensores de restrições migratórias argumentam que o tamanho da população não é determinante para prosperidade. “Se fosse só isso, Bangladesh seria mais rico que a Nova Zelândia”, disse Steven Camarota, do Center for Immigration Studies, à Bloomberg.

Risco fiscal e envelhecimento entram no radar

A análise destaca ainda o desafio fiscal: sustentar programas como a Previdência Social com uma base de trabalhadores menor e mais envelhecida. Embora o PIB per capita dos EUA tenha crescido ao longo das últimas décadas, especialistas alertam que menos imigração reduz a “lubrificação” da economia.

Para Tara Watson, o efeito de longo prazo dependerá de a tendência ser temporária ou estrutural. Uma eventual flexibilização das regras poderia mitigar impactos. Já um ambiente prolongado de baixa imigração ampliaria os desafios de crescimento, mercado de trabalho e financiamento do Estado.

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