Após chegada de 60 mil migrantes, Ceuta tenta voltar à normalidade (JORGE GUERRERO/AFP)
Redação Exame
Publicado em 1 de agosto de 2026 às 13h06.
Depois de quase 60 mil pessoas entrarem em Ceuta em apenas 24 horas, a Espanha anunciou neste sábado, 1º, o retorno a uma "normalidade razoável" no enclave espanhol no norte da África.
A cidade autônoma amanheceu com neblina e grupos de jovens que continuavam atravessando a fronteira em direção ao Marrocos, sob olhares atentos de militares e agentes da Guarda Civil.
"Invasão? Não. Isso é mentira", disse Soufian, marroquino de 42 anos que entrou a nado em Ceuta, à AFP. "Todas as pessoas querem subir, querem um futuro bom, que não existe no Marrocos. Eu, agora mesmo, estava trabalhando como segurança, 12 horas. E quanto recebo de pagamento por dia? Dez euros", relatou.
O ministro do Interior da Espanha, Fernando Grande-Marlaska, esteve em Ceuta neste sábado para transmitir uma mensagem de tranquilidade. Segundo ele, embora a crise não possa ser considerada encerrada, a situação na cidade é de "razoável normalidade", e "quase todos" os migrantes que entraram no enclave na quinta-feira já teriam deixado o país — apesar de reconhecer a dificuldade de estabelecer números exatos.
Já o presidente da cidade, Juan Vivas, discorda: para ele, Ceuta ainda tem "milhares de pessoas que precisam ser repatriadas".
A cidade autônoma, de 84 mil habitantes, viveu uma das piores crises migratórias de sua história com a chegada de dezenas de milhares de pessoas, a maioria homens jovens e adolescentes. Pelo menos 67 pessoas morreram na tentativa de chegar ao enclave, segundo balanço atualizado pelo governo espanhol.
Neste sábado, os cafés estavam cheios novamente e havia trânsito intenso, além de filas nos supermercados. "As prateleiras estão vazias", relatou a dona de casa María José Benítez à AFP. Já Irene Cuadro, auxiliar de cozinha, afirmou que ainda há "bastante barulho e, na verdade, não há tranquilidade".
Também teve início a instalação de uma nova barreira com boias que se estende pelo mar, ao lado da área de concreto que já delimita a fronteira — uma das duas fronteiras terrestres entre a África e a União Europeia, ao lado de Melilla, outra cidade autônoma espanhola no norte da África.
"Todos sabemos que na África não há muitas oportunidades. Então, esperamos seguir para a Europa para poder trabalhar e ganhar a vida. É apenas isso", disse à AFP Souleil Boyan, migrante senegalês de 19 anos que chegou a Ceuta na quinta-feira, 30, após cinco meses no Marrocos.
A chegada em massa de migrantes provocou um racha diplomático entre a Espanha e países aliados na União Europeia, a começar pela Itália. O governo do primeiro-ministro socialista Pedro Sánchez passou a ser acusado de excesso de permissividade na política migratória.
Sánchez reagiu neste sábado e pediu uma reunião urgente dos ministros do Interior da União Europeia. Em carta à presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, ele lamentou "preconceitos, notícias falsas, ignorância ou interesses políticos" e denunciou uma reação de aliados que classificou como "egoísta, polarizadora e ilegal".
Horas depois, 22 líderes europeus — entre eles a italiana Giorgia Meloni e o alemão Friedrich Merz — aderiram ao pedido de reunião urgente. Em carta aberta, os líderes afirmaram: "Não podemos permitir que travessias em massa e descontroladas (...) deem a impressão de que é possível entrar ilegalmente na União Europeia", cobrando "uma resposta europeia imediata e coordenada".
A Itália já havia anunciado na sexta-feira, 31, a suspensão, em relação à Espanha, do tratado de livre circulação da União Europeia, o acordo Schengen — medida que, na prática, significa apenas a reintrodução de controles sobre cidadãos não europeus que chegam da Espanha, sem afetar espanhóis que viajam à Itália.
Diante das críticas, Marlaska rebateu afirmando que "alguns têm memória muito curta" e lembrou a crise de 2023 em Lampedusa, quando milhares de migrantes chegaram à ilha italiana em apenas dois dias.
*Com informações da AFP