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‘Doutrina Monroe’: entenda o conceito por trás da invasão dos EUA à Venezuela

Estratégia de segurança retoma conceito de 1823 e reforça foco na América Latina

Donald Trump: estratégia dos EUA atualiza ‘Doutrina Monroe’ de 1823 e reposiciona a América Latina como prioridade geopolítica. (Andrew Caballero-Reynolds/AFP)

Donald Trump: estratégia dos EUA atualiza ‘Doutrina Monroe’ de 1823 e reposiciona a América Latina como prioridade geopolítica. (Andrew Caballero-Reynolds/AFP)

Publicado em 3 de janeiro de 2026 às 12h21.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou neste sábado, 3, que o país realizou um “ataque em larga escala” contra a Venezuela e capturou o líder venezuelano Nicolás Maduro e sua mulher, Cilia Flores, que teriam sido levados para fora do país

Em postagem na rede Truth Social, Trump escreveu: “Os Estados Unidos da América realizaram com sucesso um ataque em grande escala contra a Venezuela e seu líder, o presidente Nicolás Maduro, que foi, com sua esposa, capturado e levado para fora do país”.

No início de dezembro, a Casa Branca já havia anunciado querer colocar a América Latina como uma das áreas prioritárias de influência dos EUA. Na época, a Doutrina Monroe foi mencionada na nova Estratégia Nacional de Segurança.

O documento sinaliza um afastamento da agenda com foco na Ásia, algo dominante desde o governo de Barack Obama, eleito em 2008, em uma movimentação conhecida como "Pivot to Asia".

A nova estratégia marca o que a Casa Branca chama de um “Trump Corollary”, uma atualização da doutrina criada há dois séculos para barrar interferências externas no continente.

A diretriz afirma que a segurança das fronteiras é o "elemento principal da segurança nacional" e propõe um reajuste da presença militar global para enfrentar o que o governo chama de "ameaças urgentes" no Hemisfério Ocidental.

O que é a Doutrina Monroe?

A Doutrina Monroe, formulada em 1823 pelo então presidente James Monroe, foi declarada como um aviso direto às potências europeias: os países das Américas não deveriam ser alvo de novas colonizações ou intervenções externas.

Na prática, a ação se consolidou como um marco da política externa dos EUA ao estabelecer que qualquer interferência europeia nas Américas seria vista como uma ameaça à segurança nacional dos Estados Unidos.

Segundo Denilde Holzhacker, professora de Relações Internacionais da ESPM, ao longo do século XIX, a doutrina serviu como justificativa para fortalecer a presença diplomática, econômica e militar dos EUA na região, moldando a relação com os países latino-americanos — quase sempre em bases assimétricas.

No começo do século XX, o presidente Theodore Roosevelt ampliou o princípio e autorizou intervenções, abrindo caminho para ocupações em países como Cuba, Haiti, República Dominicana e Nicarágua.

Já na Guerra Fria, a partir de 1945, a doutrina foi reinterpretada como ferramenta para conter a influência soviética, ao estimular golpes militares e ditaduras, apoiadas ou toleradas por Washington.

De acordo com Holzhacker, a doutrina passou a representar “A América para os americanos”, mas com a América Latina subordinada ao poder norte-americano.

“Os resultados foram desestabilizadores, com regimes autoritários e crises internas”, diz.

A especialista afirma que a releitura feita por Trump retoma essa tradição, mas em um cenário diferente: economias mais conectadas, presença crescente da China e disputas tecnológicas e estratégicas que ultrapassam a lógica bipolar do século XX.

América Latina volta ao topo da agenda dos EUA

A nova diretriz coloca a região no centro da política externa dos Estados Unidos, retomando a lógica da Doutrina Monroe como base. O documento relata um esforço para reforçar a influência dos EUA na América Latina, incluindo operações contra “narcolanchas”, pressão sobre o governo da Venezuela e ações voltadas ao controle de infraestruturas críticas.

"A subjugação do poder americano é vista como uma forma de impedir esses países de se relacionar e buscar externamente alianças que possam ser rivais aos Estados Unidos", diz a professora.

O documento afirma que os EUA rejeitam “o conceito malfadado de dominação global”, mas reforça a competição com a China — especialmente na América Latina. Holzhacker afirma que o cenário atual envolve mais atores e interesses interdependentes, com países latino-americanos navegando entre Washington e Pequim.

Nos últimos meses, Trump articulou pressões para que países abandonem acordos com a China, intensificou os embates com o Brasil e fortaleceu a aliança com a Argentina, numa disputa explícita por influência regional.

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