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Copa do Mundo: 3 jogos em que a rivalidade estará em campo — e na geopolítica

Às vésperas da maior Copa de todos os tempos, tensões geopolíticas, históricas e até conflitos armados lançam longas sombras sobre o evento

Copa do mundo FIFA 2026 não só será a maior da história em termos de escala, mas também reunirá grandes rivais fora de campo em duelos no gramado (Imagem gerada por IA/EXAME)

Copa do mundo FIFA 2026 não só será a maior da história em termos de escala, mas também reunirá grandes rivais fora de campo em duelos no gramado (Imagem gerada por IA/EXAME)

Publicado em 9 de junho de 2026 às 06h01.

Última atualização em 9 de junho de 2026 às 11h05.

O famoso slogan da FIFA ,"Futebol une o mundo", será testado na próxima edição da Copa do Mundo, a maior da história, que reunirá 48 times a partir desta quinta-feira, 11, e será disputada em três países.

Isso se deve ao fato de que os países que alguns desses times representam apresentam diferenças históricas, cenários geopolíticos tensos e até mesmo conflitos armados entre si, além de rixas diplomáticas entre os anfitriões — o Canadá, os EUA e o México — que se aprofundaram durante o segundo mandato do presidente americano, Donald Trump.

Todavia, apesar da retórica anti-imigratória de Trump e do atual conflito com o Irã — com a seleção iraniana também participando do torneio —, diversos duelos nos gramados representarão conflitos históricos e rixas políticas, que veem laços diplomáticos fragilizados até a atualidade e acrescentam uma esfera de rivalidade para além do esporte.

Dentre os jogos já confirmados na fase de grupos, alguns evocam memórias coloniais, enquanto outros trazem à tona rivalidades políticas atuais. Acompanhe três jogos já confirmados com conotações históricas e geopolíticas que alastram a rivalidade para além dos gramados:

França e Senegal - 16/06, às 16h de Brasília

Senegal e França compartilham uma história sangrenta e se enfrentam na fase de grupos da Copa do Mundo FIFA 2026. Na foto, uniforme oficial da seleção senegalesa. (SoccerBible/FootyHeadlines)

Cinco dias após o início da Copa acontecerá o primeiro embate confirmado entre um colonizador e sua ex-colônia: a França enfrentará o Senegal no Grupo I, que também conta com o Iraque e a Noruega.

O duelo tem peso tanto esportivo quanto histórico. No âmbito atlético, as duas seleções se enfrentaram apenas uma vez, na abertura da Copa de 2002, quando o Senegal derrotou a França, então campeã mundial, por 1-0. O gol solitário foi marcado pelo meio-campista Papa Bouba Diop — e a França terá sua chance de revanche no próximo dia 16, uma terça-feira, no estádio MetLife, em Nova Jersey, nos EUA.

Todavia, os laços entre os países têm uma história profunda. A partir de 1659, com a fundação da cidade de Saint-Louis, que seria a capital da colônia francesa até 1902, a potência europeia conduziu campanhas colonialistas que duraram mais de 300 anos, trazendo o fim de muitos reinos históricos nativos, especialmente os reinos de Waalo e Sine, e destruindo grande parte do estilo de vida e da cultura tradicionais da região, substituindo-os por padrões europeus.

Alimentada originalmente pelo comércio escravista e pela expansão territorial, a colônia continuou importante para a França mesmo após a abolição da escravidão pelo Reino Unido em 1807, o que os franceses foram forçados a aceitar. A partir desse ponto, a produção de commodities foi o que passou a dar lucro para a França, na forma especialmente do comércio de amendoins e da goma-arábica, produzida a partir da acácia e usada na época principalmente para a produção de corantes e tintas, na qual age como um agente espessante. Quase nada desse lucro era distribuído de volta para os nativos.

Em 1958, o Senegal se tornou uma república autônoma na União Francesa, uma reorganização das colônias francesas na África, que, ainda assim, impunha a preeminência francesa. Em janeiro do ano seguinte, o Senegal se fundiu com o Sudão, outra colônia francesa, e formou a Federação do Mali, uma coalizão que durou apenas dois meses, mas que culminou na independência completa de Paris para ambos os países em 1960.

Até hoje, a língua oficial do Senegal continua sendo o francês, apesar de uma miríade de outras línguas nativas terem sobrevivido e continuarem a ser usadas pelas diversas etnias do país.

Inglaterra e Gana - 23/06, 17h

Gana e Inglaterra, que também compartilham uma história de colonialismo, se enfrentam nos gramados na fase de grupos. Na foto, a torcida e as cores da Gana. (Julian Finney/Getty Images)

Outro duelo com raízes coloniais acontecerá entre a Inglaterra e a Gana. Anteriormente, as seleções também se encontraram nos gramados apenas uma vez, em um amistoso em 2011 no estádio de Wembley, em Londres, que terminou em emocionante empate por 1-1: o placar foi aberto pelo atacante inglês Andy Carroll aos 43 minutos do primeiro tempo, mas foi igualado pelo atacante ganês Asamoah Gyan no último minuto do jogo.

Historicamente, todavia, o relacionamento é mais complexo. Gana foi uma colônia da Coroa britânica por mais de 100 anos, de 1821 a 1957, quando se tornou independente. Na época, a região que hoje inclui a Gana era conhecida como a Costa do Ouro, devido à abundância do metal precioso que funcionava como a base econômica da área, e era constituída por quatro jurisdições separadas.

Apesar dos primeiros europeus na região terem sido os portugueses, a Inglaterra acabou por ocupar toda a região por meio de compras de outros países europeus e de violentas conquistas contra reinos nativos, especialmente os Ashanti, no século XIX, o que reestruturou a região nos padrões ingleses.

Nessa época, a região era governada pelo Conselho Executivo, unicamente europeu, e pelo Conselho Legislativo, que contava com uma maioria europeia, mas também com nativos europeizados. A governança de assuntos cotidianos era muitas vezes delegada unicamente a líderes nativos de classes sociais que seriam o equivalente à nobreza inglesa, uma estratégia comum nas colônias inglesas na África, que ajudava a evitar conflitos. A economia inglesa na Costa do Ouro, além de ser sustentada pelo metal, também era rica no comércio de marfim, madeira, diamantes e cacau, já que a escravidão havia sido abolida pelo Reino Unido anos antes.

Em 1947, conforme o Reino Unido relaxava seu controle sobre suas colônias na África, um movimento nacionalista pela independência se consolidou na Costa do Ouro, reunindo alguns dos maiores pensadores e empresários da região no que se tornaria conhecido como a Convenção Unida da Costa do Ouro. Após suas primeiras eleições legislativas em 1951, o país declarou sua independência do Reino Unido, tornando-se o primeiro país da África subsaariana a fazê-lo, e conquistou independência total em 1957.

Assim como em muitas ex-colônias, a língua dos colonizadores, no caso, o inglês, segue como a oficial do país até hoje.

Irã e Egito - 27/06, meia-noite

O Egito enfrenta o Irã na fase de grupos, refletindo nos gramados uma rivalidade diplomática que remonta à Guerra Fria. Na foto, uniforme oficial do Egito para a Copa de 2026. (SoccerBible/FootyHeadlines)

O duelo entre os times do Grupo G representa não um passado colonial, mas sim diferenças ideológicas mais recentes, que ameaçam os laços diplomáticos entre o Irã e o Egito há mais de 30 anos. Nos gramados, os rivais se encontraram duas vezes, em um amistoso de 1975 que terminou com um empate de 1-1 e na Copa LG, um campeonato anual de futebol organizado pela empresa sul-coreana LG Electronics, onde o Egito derrotou o Irã nos pênaltis por 8-7 após outro empate de 1-1.

Fora de campo, a rivalidade remonta a meados dos anos 1950, durante a Guerra Fria, período que pôs fim a uma era de boas e amigáveis relações entre os países. Especificamente, o Egito se sentia ameaçado pela adesão do Irã ao Pacto de Bagdá — uma aliança militar semelhante à Otan no mundo árabe — que era vista como fortemente alinhada aos interesses ocidentais. Quando esse incidente foi seguido de atitudes positivas por parte do Xá do Irã — figura monárquica antes do regime dos Aiatolás —  com Israel, os países expulsaram seus embaixadores mutuamente. Subsequentemente, o Egito também financiou grupos de oposição ao Xá, o que culminou na Revolução Iraniana de 1979.

Na guerra entre o Iraque e o Irã no ano seguinte, o Egito apoiou o Iraque, fornecendo bilhões de dólares em equipamentos e enviando milhares de soldados treinados ao conflito. De acordo com dados dos jornais egípcios al-Ahrar e al-Shaab, ambos descontinuados, cerca de 10 mil egípcios foram mantidos como prisioneiros de guerra no Irã, apesar de dados oficiais do governo apresentarem cifras entre 1600 e 3900 presos.

Devido às décadas de conflitos diplomáticos,os países até hoje têm relações tênues e incertas. De acordo com o mais recente levantamento global da BBC, apenas 15% dos egípcios veem o Irã em boa luz, enquanto 48% dos correspondentes têm uma visão negativa do país. A restauração das relações diplomáticas foi proposta somente em dezembro de 2023 e acordada por ambos os atores em fevereiro desse ano.

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