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Como o 11 de setembro inaugurou a era do Big Data

Doze anos depois dos atentados às Torres Gêmeas, a análise de grandes volumes de dados se tornou uma poderosa arma de guerra contra o terrorismo


	Fumaça sai dos prédios do WTC em 11 de setembro de 2001: ainda não sabemos como lidar com a ameaça terrorista sem ferir a soberania de países e os direitos civis
 (©AFP/Getty Images / Craig Allen)

Fumaça sai dos prédios do WTC em 11 de setembro de 2001: ainda não sabemos como lidar com a ameaça terrorista sem ferir a soberania de países e os direitos civis (©AFP/Getty Images / Craig Allen)

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Eliseu Barreira Junior

Publicado em 13 de setembro de 2013, 11h00.

São Paulo - Como os atentados de 11 de setembro de 2001 mudaram o mundo? Doze anos depois de presenciarmos mais de 3 mil vidas serem ceifadas por fanáticos religiosos nos Estados Unidos, essa pergunta está longe de receber uma resposta definitiva. Não há dúvidas de que o mundo nunca mais foi o mesmo. Mas é impreciso determinar de que maneira o maior ataque terrorista já visto pela humanidade alterou - ou determinou - o percurso da História.

Que o ataque às torres gêmeas do World Trade Center gerou mais dilemas do que transformações, é difícil discordar. Ainda não sabemos como lidar com a ameaça terrorista sem ferir a soberania de países e os direitos civis. Ainda não sabemos como julgar, condenar e prender pessoas dispostas a matar por uma causa. Ainda não sabemos como superar o preconceito e a intolerância contra seguidores do Islã. Ainda não sabemos como diminuir o fosso que separa o Ocidente do Oriente.

Em meio a tantas incertezas, porém, é possível apontar com clareza uma profunda mudança trazida pelo 11 de setembro: o mundo passou a dar valor aos segredos do Big Data. Definido originalmente nos anos 2000 por um analista da Gartner, o termo é usado para descrever a análise de gigantescos volumes de dados que geramos quando fazemos ligações telefônicas, trocamos e-mails, realizamos uma busca na internet, compartilhamos um post numa rede social ou compramos algo numa loja. Graças à inteligência gerada a partir desses rastros, é possível prever comportamentos, identificar padrões e descobrir o porquê de muitas coisas.

Antes restrito a um círculo de nerds do mundo da computação, o Big Data se tornou mainstream. Também pudera. Capa de revista de circulação nacional, descrito como o novo petróleo do século XXI e equiparado ao ouro no Fórum Econômico Mundial de Davos, ele já movimenta 70 bilhões de dólares, valor que deve crescer 40% ao ano até 2015.

Um estudo do McKinsey's Business Technology Office apontou cinco benefícios do Big Data. Primeiro, ele dá transparência à informação e torna seu uso muito mais frequente. Segundo, permite a coleta e o armazenamento de informações detalhadas sobre absolutamente quase tudo. Terceiro, ajuda as empresas a oferecer para seus clientes o que eles realmente precisam. Quarto, possibilita análises sofisticadas que podem melhorar substancialmente a tomada de decisão. Quinto, pode ser usado para melhorar o desenvolvimento de uma nova geração de produtos e serviços.


No mundo pós-11 de setembro, o Big Data também se converteu numa poderosa arma de guerra. É falacioso dizer que ele não seria um fenômeno tão amplo sem os atentados que destruíram as Torres Gêmeas. Mas o papel central da ameaça terrorista nessa revolução dos dados não deve ser ignorado.

Em busca de formas mais certeiras para caçar homens-bomba e evitar novos atentados, a inteligência do governo dos EUA começou a investir pesado na indústria de software e formar alianças com empresas de tecnologia para monitorar as atividades de qualquer pessoa ao redor do planeta sem precisar enviar espiões a campo.

Segundo o Biometrics Research Group, o departamento de Defesa dos EUA, é responsável por grande parte dos gastos com pesquisa em Big Data atualmente. Dos 30 projetos conduzidos pelos militares, 9 estão focados na melhoria de algoritmos, espionagem e vigilância. Só em 2012, agências federais do país gastaram 5 bilhões de dólares com pesquisas em Big Data - o investimento deve chegar a 8 bilhões de dólares em 2017.

Esses gastos têm permitido ao governo norte-americano processar dados sobre habitantes de qualquer região do globo - inclusive da presidente Dilma Rousseff. Um documento da Agência de Segurança Nacional (NSA, na sigla em inglês), vazado pelo ex-agente do órgão Edward Snowden, mostrou que, em março de 2013, havia 97 bilhões de informações recolhidas de redes no mundo todo.

Para analistas, tal aparato de vigilância não seria tão forte sem a cooperação de empresas de Big Data, como Google e Facebook. “Ao pedir - e, em vários casos, coagir - o Vale do Silício a fornecer portas de entrada para seus bancos de dados e servidores, a agência teve acesso a quase todos os cantos da web”, disse a revista Foreign Policy. Após as revelações de que colaboraram com a NSA, tais sites garantiram que a privacidade de seus usuários não está em xeque e que apenas informações solicitadas judicialmente são liberadas.

Sem dúvida, a ameaça à privacidade e naturalidade das decisões do cidadão-consumidor é um dos principais desdobramentos da era do Big Data. Os dados de que uma empresa dispõe podem ser repassados para terceiros, mesmo que para evitar crimes? Não seremos privados de fazer escolhas “fora da caixa” caso o algoritmo de um software passe a influenciar nossos hábitos de consumo?


Especialistas têm apontado diferentes caminhos para a sociedade lidar com questões desse tipo. Há quem defenda a criação de uma legislação específica para regular o uso do Big Data, a redefinição do que se entende por privacidade ou até que o bom senso seja colocado de lado em nome da veneração cega aos dados.

Para evitar que a humanidade assista a um novo 11 de setembro, tem muita gente disposta a levar a devoção ao Big Data adiante. Doze anos depois daquela terça-feira sombria, ficou certamente mais fácil tomar ações preventivas e identificar potenciais terroristas por causa da captura e do processamento de enormes volumes de dados.

O grande problema é que vivemos num mundo em que governos não precisam mais descobrir a razão para que terroristas se tornem terroristas, alerta Evgeny Morozov em artigo para a Slate. Basta recolher dados sobre absolutamente tudo, relacioná-los e se concentrar em prever quando isso acontecerá para que alguma medida seja tomada.

“Em outras palavras, não precisamos perguntar por que as coisas são como são, desde que possamos influenciá-las para que sejam o que desejamos que sejam. E isso é triste. O abandono da compreensão como um objetivo útil de política pública poderia tornar impossíveis as reformas políticas sérias”, escreveu Morozov.

O Big Data pode ser útil para afastar a ameaça terrorista, mas não eliminará o risco de que um 11 de setembro se repita caso seu agente causador não seja atacado. Enquanto não investigarmos as raízes do problema, o mundo continuará refém do medo. Infelizmente, os dados pouco nos ajudarão com isso.