Mundo

Como a ambição de Trump com a Groenlândia afeta a Europa

Pauta faz parte da agenda de presidente americano desde o começo de seu segundo mandato e líderes europeus buscam contornar situação

Posição da Groenlândia (em vermelho), entre a América do Norte e a Rússia (Wikimedia Commons)

Posição da Groenlândia (em vermelho), entre a América do Norte e a Rússia (Wikimedia Commons)

Publicado em 7 de janeiro de 2026 às 19h00.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sempre se mostrou interessado em anexar, de uma forma ou outra, a Groenlândia, território atualmente dinamarquês.

A pauta foi tema constante do republicano neste mandato, após assumir em janeiro de 2025, mas é de interesse para Trump desde pelo menos 2019.

De acordo com um comunicado da Casa Branca, o presidente vê a aquisição como uma prioridade para a segurança nacional dos EUA, para “deter nossos adversários na região do ártico.” Trump também alega que a Dinamarca não vem fazendo o suficiente para garantir a segurança na região.

"O presidente e sua equipe estão discutindo uma série de opções para atingir esse importante objetivo de política externa e, é claro, utilizar as forças armadas dos EUA é sempre uma opção à disposição do comandante-em-chefe", disse a Casa Branca.

Comunicações com o Salão Oval também sugerem que os EUA estariam dispostos a comprar a ilha, mas tanto a Dinamarca quanto os habitantes da Groenlândia disseram que o território não está à venda. O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, informou nesta quarta-feira, 7, que se encontrará com membros do governo dinamarquês para tratar do tema.

As ambições de Trump com a Groenlândia tiveram fortes repercussões com seus aliados na Europa, com o Canadá e com os habitantes da ilha, que reiteraram repetidamente não terem o desejo de fazer parte dos EUA.

Reverberações pela Europa

As renovadas ameaças de anexação da ilha por parte de Trump, especialmente após a invasão da Venezuela e a captura de Nicolás Maduro, geraram grande intriga na Europa.

Aliados europeus incluindo a França, Alemanha e a Dinamarca estão trabalhando junto em uma resposta caso os EUA decidam agir sobre suas ameaças.

"A Groenlândia pertence ao seu povo, e somente a Dinamarca e a Groenlândia podem decidir sobre assuntos relativos às suas relações", afirmaram os líderes do Reino Unido, França, Alemanha, Itália, Polônia, Espanha e Dinamarca em uma declaração conjunta emitida nessa terça-feira 6.

Ademais, os líderes europeus se reuniram nessa quarta-feira dia 7 para as negociações.

O ministro do exterior francês Jean-Noel Barrot disse na rádio francesa France Inter: "Queremos agir, mas queremos fazê-lo em conjunto com os nossos parceiros europeus."

Uma fonte do governo alemão, por sua vez, disse à Reuters que o país estaria “trabalhando em conjunto com outros países europeus e com a Dinamarca nos próximos passos em relação à Groenlândia.”

Falando em condição de anonimato para a agência internacional um oficial sênior europeu disse que a Dinamarca deve coordenar qual vai ser a resposta, mas que “os dinamarqueses ainda não comunicaram aos seus aliados europeus que tipo de apoio concreto desejam receber.”

Por sua parte, a premiê dinamarquesa Mette Frederiksen chegou a alertar Trump que qualquer ataque americano significaria o fim da Otan.

Os países europeus reiteram na declaração que levam tão seriamente quanto os EUA as ameaças no ártico, e que a segurança na região deve ser feita pelos aliados da Otan, incluindo os EUA, de maneira coletiva.

O premiê da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen recebeu bem o comunicado conjunto e clamou por “diálogo respeitoso”:

"O diálogo deve ocorrer com respeito ao fato de que o status da Groenlândia está enraizado no direito internacional e no princípio da integridade territorial", disse Nielsen.

As negociações europeias continuam durante a tarde dessa quarta-feira, 7.

Passividade europeia e o artigo 5 da Otan

Mesmo com a solidariedade de importantes parceiros europeus, a declaração conjunta obteve apenas 7 signatários. "Se houvesse uma declaração conjunta de todos os 27 parceiros da UE, mais o Reino Unido, aliado da Otan, em apoio à soberania dinamarquesa, isso teria enviado uma mensagem poderosa a Washington”, disse Camille Grande do Conselho Europeu de Relações Exteriores à BBC.

Para analistas, isso ilustraria uma posição passiva da Europa em relação a Trump, que frequentemente opta por tentar lidar com o presidente acomodando suas medidas (como tarifas e ameaças) em prol das relações bilaterais com os EUA, em vez de se unir em resistência e arriscar potenciais consequências, apura a reportagem.

LEIA MAIS: Europa levaria 10 anos para conseguir se defender militarmente sem os EUA, diz analista

Os EUA são parte fundamental da segurança e economia do bloco europeu, e seus laços diplomáticos com o país garantem estabilidade em diversas esferas. Disso surge o dilema dos países da Otan em relação a como lidam com Trump.

Além disso, o famoso Artigo 5 da Otan, conhecido como sua cláusula “um por todos, e todos por um”, dita que qualquer ataque contra um membro da aliança será tratado como um ataque contra todos os outros. Todavia, a cláusula não se aplica em caso de conflitos entre membros – e tanto os EUA quanto a Dinamarca fazem parte da aliança.

Isso ocorreu em 1974, quando a Turquia invadiu a Grécia, e a aliança não interveio. A violência foi mediada pelos EUA.

Acompanhe tudo sobre:Donald TrumpGroenlândiaEuropa

Mais de Mundo

Agentes de imigração dos EUA matam mulher a tiros durante operação em Minneapolis

Lula não cita Venezuela em primeiro discurso após ação dos EUA contra Maduro

Xangai anuncia 20 medidas para estimular reinvestimento de empresas estrangeiras

Governo Trump avalia 'ativamente' a compra da Groenlândia, diz Casa Branca