Mundo

Com cerco a Gaza, Israel vai conseguir acabar com o Hamas? Especialista explica

A missão está longe de ser simples, segundo análise do professor de Relações Internacionais da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e Professor Visitante no King's College London, Augusto Teixeira

Guerra entre Israel e Hamas: é possível destruir o grupo terrorista?  (MOHAMMED ABED/AFP)

Guerra entre Israel e Hamas: é possível destruir o grupo terrorista? (MOHAMMED ABED/AFP)

André Martins
André Martins

Repórter de Brasil e Economia

Publicado em 24 de outubro de 2023 às 06h09.

O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu disse repetidas vezes, após o ataque terrorista sem precedentes realizado no dia 7 de outubro a Israel, que o grande objetivo do país é destruir o grupo Hamas de forma definitiva. A missão, porém, está longe de ser simples, segundo análise do professor de Relações Internacionais da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e professor visitante no King's College London, Augusto Teixeira.

"É muito difícil Israel destruir completamente o Hamas, porque ele é um grupo multiforme, que inclui elementos terroristas, como os vistos no último dia 7. Também tem características de insurgência, como uma guerrilha que se utiliza do espaço urbano, da população civil e de instalações civis como proteção, escudo humano e santuário. E tem um terceiro aspecto, que é ainda mais relevante, onde o Hamas também tem um braço político com uma manifestação de governança, ou seja, ele é o governo de fato da Faixa de Gaza, com responsabilidades relacionadas a segurança, saúde, educação e e outros serviços públicos, em particular a assistência social", diz Teixeira. "Então, qual Hamas Israel vai extirpar?" 

Em entrevista à EXAME, Teixeira explica que se Israel decidir ocupar Gaza durante a invasão prevista para os próximos dias, será necessário colocar alguém no poder, e isso pode ser algo sem uma solução no curto prazo. Ele cita o Fatah, grupo que compõe a autoridade palestina e está na Cisjordânia, como uma das possibilidades, mas com ressalvas. "Como é que ficaria o Fatah entrando em Gaza em um contexto de mudança de governo militarmente feito por Israel? É uma situação politicamente delicada", diz. Na conversa, o professor detalha ainda a estratégia atual de Israel e como poderia ser a provável invasão, além de avaliar o papel dos Estados Unidos no conflito. 

Confira a entrevista completa do professor de Relações Internacionais da UFPB, Augusto Teixeira, sobre a guerra entre Israel e Hamas:

É possível que Israel consiga eliminar o Hamas? 

É muito difícil Israel destruir completamente o Hamas, porque ele é um grupo multiforme, que inclui elementos terroristas, como os vistos no último dia 7, e tem características de insurgência, como uma guerrilha que se utiliza do espaço urbano, da população civil e de instalações civis como proteção, escudo humano e santuário. E tem um terceiro aspecto, que é ainda mais relevante, onde o Hamas tem um braço político com uma manifestação de governança, ou seja, ele é o governo de fato da Faixa de Gaza, com responsabilidades relacionadas à segurança, saúde, educação, e outros serviços públicos, em particular a assistência social. Então, qual Hamas Israel vai extirpar? 

Quais seriam as consequências da eliminação do Hamas para a Faixa de Gaza?

Se Israel acabar com a dimensão política do Hamas, algo tem que vir no lugar. Será o que? Fatah, de origem laica, que está presente na Cisjordânia e compõe a autoridade palestina, que perdeu as eleições em 2007? Como é que ficaria o Fatah entrando em Gaza em um contexto de mudança de governo militarmente feito por Israel? É uma situação politicamente delicada.

Qual é a estratégia militar de Israel no momento com os bombardeios na Faixa de Gaza?

No campo militar, efetivamente, o que Israel já tentou fazer em outras circunstâncias e possivelmente vai tentar fazer agora é desarmar o Hamas, destruindo os estoques de armamento, de foguetes e as comunicações logísticas, essencialmente subterrâneas. O chamado "metrô de Gaza" recebe mantimentos, trafica outras coisas e tem uma sustentação logística importante para a luta e para os ataques contra Israel. Eles estão fazendo o que chamamos na literatura de decapitação de Alvos de Alto Valor (HVT, high-value targets), ou seja, neutralizar e matar líderes do grupo.

Israel realiza campanhas, principalmente, de poder aéreo, com dias consecutivos de bombardeios. E a definição do bombardeio ocorre por meio de fontes de inteligência militar, que são coletadas de distintas formas, seja da inteligência humana, que são pessoas em campo, seja por meio de inteligência por satélites. Eles têm a seleção e a escolha dos alvos e o efeito que se deseja realizar com isso. 

Qual é a efetividade dessa estratégia? 

Se percebeu nas últimas décadas, desde a chamada guerra global contra o terror patrocinada pelos Estados Unidos, que é possível reduzir substantivamente o peso que um determinado grupo tem com a destruição da sua capacidade de financiamento e retirando dele suas redes de poder, mas é muito difícil. Por exemplo, a Al-Qaeda foi muito minimizada, mas ainda existe. Existe o Hezbollah, que teve uma guerra muito expressiva contra Israel em 2006, e está mais forte agora. É só observar vídeos no YouTube sobre o conflito de Gaza em 2014, e veremos uma devastação pior do que está agora. E mesmo assim o Hamas está mais forte. Então, militarmente, existe um limite de até onde Israel consegue chegar. 

E outra coisa que não podemos esquecer é o fato de que o Hamas, além dos elementos de ser um grupo terrorista, insurgência e político, tem algum lastro social para com a população da Faixa de Gaza. Seja o soldado ou militante mais básico, cuja mãe, pai, avô, primo é um civil não envolvido com política em Gaza, até o líder, que tem família, primos etc. Então, é muito difícil cortar a conexão familiar, afetiva, em relação a esses grupos politicamente e ideologicamente orientados. E ainda tem um outro elemento que é a religião, porque o Hamas tem em uma leitura muito específica do Alcorão. Outro dado que não se pode esquecer dentro da dificuldade para destruir o Hamas é que tem uma parte do grupo que nasceu na Jordânia, nos territórios ocupados, e que não são tão abertamente antissemitas e nem tão agressivos como o Hamas em Gaza. 

A questão é extremamente complexa...

Se pararmos para entender o que Israel está tentando fazer, o seu sucesso no nível político vai depender muito da magnitude dos objetivos colocados na campanha em Gaza. Até agora, vemos basicamente uma campanha de bombardeio, voltada a recuperar a ação, ou seja, ensinar pela dor ao Hamas que qualquer ataque contra Israel será respondido de forma sabidamente desproporcional. A desproporcionalidade é intencional, tem um sentido lógico de ser. Segundo aspecto, que eu tinha falado antes, a destruição, o desarme do Hamas, a destruição das suas condições objetivas de luta. E a terceira é a tentativa de criar uma fissão entre a sociedade civil e o Hamas pelo elemento da dor. Esse resultado não tem sido alcançado em virtude da ira de parte da população contra Israel. E mesmo que tivesse algo contra o Hamas, não se sabe se a população teria liberdade para se manifestar, até porque é um governo sem eleições pelo menos desde 2007. Na prática, é um governo autoritário.

Você avalia que a invasão de Israel à Faixa de Gaza vai realmente acontecer? 

É muito difícil que Israel mobilize mais de 300 mil homens na fronteira com Gaza, ter um preparativo para uma invasão terrestre, e recuar. Acho que não é escalar para desescalar, não é ameaçar a credibilidade para recuar. Acredito que existe realmente uma intenção de realizar essa incursão por terra.

Como você acredita que será essa incursão? 

A IDF, Forças de Defesa de Israel, vão possivelmente entrar em Gaza com veículos mecanizados e blindados, com a proteção necessária da infantaria, andando a pé para proteger os blindados, possivelmente com drones fazendo ações de inteligência e helicópteros realizando cobertura de baixa altura e aeronaves cobrindo espaço aéreo. E haverá muitas armadilhas e emboscadas. O problema de quem bombardeia é que também cria um ambiente favorável ao defensor. É uma situação apocalíptica. 

Quais podem ser as consequências da invasão à Gaza?

A questão é: qual é o objetivo estratégico [da invasão]? E do objetivo estratégico, qual é o resultado político que ele entrega? Não sabemos. Uma das coisas que vem se falando é que Israel possivelmente quer fazer uma zona de segurança. Ou seja, empurrar aquela população do norte para baixo e fazer aquela região do norte uma zona de segurança. Como o quê? Como a Turquia fez com a Síria. Segundo cenário: fazer uma ocupação de Gaza. O que acho muito difícil acontecer. Primeiro, porque, se não me engano, desde 2009 Israel desocupou Gaza a um grande custo político interno, inclusive pela remoção de assentamentos judaicos, mas também pelo risco físico aos soldados. Segundo: pelo fato de que isso esgarçaria muitos meios das Forças Israelenses. É importante entender que eles têm uma força profissional, mas o grosso é civil, que vai passar de três a dois anos em Gaza em caso de ocupação. Então tem uma frente perturbada em Gaza, na Cisjordânia e no norte, na fronteira com o Líbano e com a Síria. Ocupar Gaza demandaria muito recurso por parte de Israel e com qual objetivo? Fazer uma limpa, retirar o Hamas? Como é que vai mobilizar isso? Porque o Hamas tem a parte política, mas tem a parte religiosa. Israel vai entrar em todas as mesquitas e prender clérigos que defendam o Hamas ou que sejam contra Israel? É uma situação muito complicada. O que nos escapa é o resultado desejado de Israel ao invadir Gaza. Porque eles podem acabar com o Hamas, mas outra insurgência poderá surgir. 

Como você vê a atuação dos Estados Unidos nesse conflito? 

Existe uma ambiguidade. Porque a relação entre Biden e Netanyahu não estava 100%, muito em virtude da crise política severa de Israel, relacionada à reforma do Judiciário que o governo estava tentando passar, que tem provocado fissuras muito graves na sociedade israelense, um grande trauma. Mas quando acontece o 7 de outubro, os Estados Unidos assumem de forma resoluta aquilo que é esperado dele, que é a defesa de Israel. Os EUA fizeram uma sinalização em força e diplomacia do chamado de direito dos israelenses, tal como alertou para outros atores no Oriente Médio que não entrem no conflito, tentando ser um elemento de controle de escalada. Por sua vez, os EUA também buscam dialogar com Israel na tentativa de restringir a magnitude do emprego de violência. Eles entendem que a reputação importa, inclusive para que Israel tenha mais liberdade de ação nesse sentido. É só considerar o seguinte: no dia 7 e 8 de outubro, o mundo estava em choque e muita gente apoiava Israel. Hoje não. Então, essas coisas oscilam muito rapidamente.

O presidente Joe Biden vive também seus próprios desafios internos...

Ao mesmo tempo que tenta se colocar como mediador — Biden tentou falar com a autoridade palestina e a ter consulta com o rei da Jordânia — ele vai entregar armamento para Israel, essencialmente bombas de fragmentação, de pré-destruição e para aviação. Ou seja, ele entrega muita coisa que Israel precisa para atacar Gaza. É uma situação muito complicada para os EUA. Desde Obama, nenhum presidente americano tentou retomar a questão da negociação de paz e a criação dos dois Estados. Trump não foi obviamente bem-sucedido nisso, a proposta dele era no mínimo hilária para a perspectiva palestina e, querendo ou não, até o dia 7 de outubro ninguém na comunidade internacional estava discutindo a questão palestina. Era uma questão inclusive que aparecia muito pouco no próprio mundo islâmico. O papel dos americanos é importante para Israel, mas também na perspectiva da tentativa de estabilidade do Oriente Médio. Eles não querem ser levados novamente para lá, como foram até a saída do Iraque. 

Acompanhe tudo sobre:HamasIsrael

Mais de Mundo

Queda de aeronave russa na região de Moscou mata os três tripulantes a bordo

Ucrânia insiste em necessidade de poder lançar ataques “sistemáticos” ao território russo

Primeiro-ministro do Nepal perde moção de censura no Parlamento e terá que renunciar

Governo de Israel estenderá serviço militar obrigatório para três anos

Mais na Exame