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Casas flutuantes avançam na Holanda em meio a alta de preços e crise climática

Crises imobiliárias e ameaças climáticas fazem com que holandeses adotem o conceito de casas flutuantes – uma alternativa sustentável, barata e segura que agora se espalha pelo mundo

Casas no bairro Schoonschip, em Amsterdã (Isabel Nabuurs/Divulgação)

Casas no bairro Schoonschip, em Amsterdã (Isabel Nabuurs/Divulgação)

Publicado em 6 de fevereiro de 2026 às 06h01.

Conforme os níveis dos mares aumentam, e uma crise imobiliária aperta o mercado de moradias na Holanda, o conceito de casas – e até mesmo bairros inteiros – flutuando nos canais sobre pilares fundacionais de aço fixados na costa, mas que permitem um movimento natural, se torna cada vez mais atraente. Populares em todo o país, a fundação propriamente dita das casas é um casco submerso, com um princípio semelhante ao de navios, que sobe e desce com o nível da água.

A alternativa promete estabilidade e segurança durante intensos eventos climáticos, como as tempestades com fortes ventos que frequentemente assolam os Países Baixos, e uma solução barata e eficiente para uma forte crise imobiliária que dificulta a vida de muitos holandeses e imigrantes, com pouca disponibilidade para moradia.

A maior dessas comunidades flutuantes é o bairro de Schoonschip, no norte da capital Amsterdã. O bairro ocupa agora uma área historicamente industrial, mas que se tornou uma das áreas residenciais mais sustentáveis da cidade.

Concluída em 2020, com 144 moradores em 46 residências de dois ou três andares, a comunidade sustentável conta com 516 painéis solares, 60 painéis termais e 30 bombas de calor para o isolamento térmico, de acordo com o site oficial do bairro. As residências são divididas em 30 “arcas”, ou plataformas flutuantes, em um estilo geminado, e contam com um espaço comunitário e até com um “hotel apiário” construído por estudantes da Universidade Aplicada de Amsterdã, onde abelhas selvagens, normalmente solitárias, encontram abrigo.

Na cidade de Roterdã, que adota construções flutuantes há anos, prédios públicos e de escritório já foram construídos, juntamente com uma fazenda de laticínios, e a cidade continua anunciando mais projetos. Casas flutuantes pela Holanda, diferentes dos também comuns barcos residenciais, são diretamente conectadas aos sistemas de saneamento e energia de suas respectivas cidades. Também, de maneira semelhante às embarcações, as casas são pré-construídas em terra firme e, posteriormente, acopladas aos canais.

De acordo com Koen Olthius, fundador da Waterstudio, empresa de construção focada exclusivamente nesse tipo de moradia, a tecnologia relativamente baixa por trás dessas casas é a sua maior vantagem, pois permite que sejam feitas a um preço acessível. As residências projetadas pela Waterstudio são estabilizadas por pilares enterrados cerca de 65 metros abaixo da terra, acolchoados com materiais especiais para reduzir o balanço natural das ondas.

Para a BBC, Olthius diz "Agora temos a tecnologia, a possibilidade de construir sobre a água", afirma o dono da firma, que projetou 300 casas, escritórios, escolas e centros de saúde flutuantes. Ele diz que ele e seus colegas "não se veem como arquitetos, mas como médicos da cidade, e vemos a água como um remédio".

Futuro da arquitetura?

Ilhas Maldivas: Quiosques situados além da costa fazem parte de atrações turísticas (Divulgação) (Divulgação/Divulgação)

As comunidades flutuantes emergiram como uma solução para importantes problemas no país durante a última década e serviram, desde então, como uma prova de conceito para projetos de moradia em larga escala. Protagonizadas por engenheiros holandeses, comunidades assim estão sendo construídas ao redor da Europa e além, incluindo países como Inglaterra, França, Noruega e ilhas vulneráveis a tempestades marítimas e mudanças climáticas, como a Polinésia Francesa e as ilhas Maldivas.

Os ambiciosos projetos flertam inclusive com pequenas cidades flutuantes no Mar Báltico. Na cidade de Olpenitz, na Alemanha, um pequeno vilarejo que atua como um retiro de férias com casas de aluguel flutuantes já está operacional. Mas o maior projeto é chamado de Green Float Tallinn, uma ilha flutuante proposta ao longo do túnel submarino que liga a capital da Finlândia, Helsinki, com a capital da Estônia, Tallinn.

O projeto, desenvolvido pela companhia holandesa Blue21, visa acomodar 50.000 residentes e incluiria prédios educacionais e de entretenimento. O conceito é baseado numa filosofia de independência energética, um ciclo de água fechado e um ideal de poluição zero, em que todo o lixo e a água seriam reciclados e reutilizados.

Existem certos desafios, todavia, para a construção e vivência nessas casas. Comunidades flutuantes precisam de conexões com a costa e de sistemas elétricos especiais, projetados para serem à prova d’água, com materiais específicos capazes de absorver os movimentos e impactos causados pelo movimento natural das marés. Uma estabilidade completa, como em uma casa convencional, é difícil de ser atingida, e até os residentes de Schoonschip admitem que, durante tempestades fortes, é difícil até mesmo subir e descer as escadas.

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