Nicolás Maduro, presidente da Venezuela, ao ser levado por agentes para audiência em Nova York (XNY/Star Max/GC Images/Getty Images)
Repórter de internacional e economia
Publicado em 5 de janeiro de 2026 às 18h42.
Última atualização em 5 de janeiro de 2026 às 19h52.
A operação militar dos Estados Unidos na Venezuela, que prendeu o presidente Nicolás Maduro no sábado, 3, trará mudanças profundas para a relação dos norte-americanos com a América do Sul. Neste contexto, o Brasil precisa ter cuidado para se posicionar, pois parece ter sido surpreendido pelos acontecimentos.
A avaliação é de Hussein Kahlout, pesquisador da Universidade Harvard e do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) e ex-secretário de Assuntos Estratégicos da Presidência do Brasil.
"O Brasil precisa dosar a intensidade de seu discurso, porque a relação Brasil-Estados Unidos, Lula-Trump, estava num compasso de embate, até chegar ao diálogo. Depois desse ponto de aproximação, a relação está em amadurecimento. Se o Brasil optar por um discurso agressivo e demasiadamente crítico, isso pode criar um revés", afirma, em entrevista à EXAME.
Nesta segunda, por exemplo, o Brasil fez uma condenação firme da ação americana. "O bombardeio do território venezuelano e a captura de seu presidente ultrapassam um limite inaceitável", disse Sergio Danese, representante do Brasil na ONU, em discurso.
"O Brasil, em nenhum momento, imaginou que a escalada poderia chegar a este ponto, com uma alteração dessa natureza, com esta sofisticação, capacidade logística e articulação de inteligência impetradas neste tempo com essa perfeição", afirma Kahlout.
Na conversa, o pesquisador também falou sobre o papel da China na América Latina e o risco de aumento dos gastos com defesa na região. Leia a íntegra a seguir.
Quais serão os principais efeitos da ação dos EUA contra Maduro?
A ação americana na Venezuela vai mudar profundamente a relação e a percepção dos países latino-americanos, especialmente os sul-americanos, em relação aos Estados Unidos, pois não se trata de uma alteração trivial.
Obviamente, isso vai gerar uma grande inflexão securitária sobre qual é o limite das violações internacionais em que os Estados Unidos estão dispostos a entrar, e qual é o limite de uso da força para implementar os seus objetivos geoeconômicos.
Está claro que a operação militar não tem a ver com a deposição do regime, com a democracia ou com os direitos humanos. A operação foi simplesmente remover Maduro porque ele estava sendo impeditivo aos objetivos geoeconômicos dos Estados Unidos, cuja pedra angular é se apossar dos recursos naturais do país. Removeu-se um ditador, mas decidiu-se manter a ditadura, sob outra direção.
O intervencionismo é um processo que afeta muito o equilíbrio político-regional. Quando o presidente da maior potência mundial fala: 'vamos agora administrar um país', um país soberano, que tem a sua autodeterminação, que é membro pleno das Nações Unidas, isso remete a uma era neocolonial. Não estamos mais na era neocolonial. A América Latina já passou por isso e foi muito traumático historicamente.
Como o Brasil pode se posicionar neste novo cenário?
O Brasil em nenhum momento imaginou que a escalada poderia chegar a este ponto, com uma alteração dessa natureza, com esta sofisticação, capacidade logística e articulação de inteligência impetrada neste tempo com essa perfeição.
Eu acho que o Brasil não estava inteirado do que estava por vir na Venezuela. Apostava muito mais na pressão constante dos Estados Unidos. O Brasil se colocava numa posição, digamos, de eventual mediador.
O que isso significa para o Brasil, então?
O ponto-chave é que isso também supõe a vulnerabilidade das capacidades do Brasil de ser um mediador em sua própria região, em seus próprios espaços geográficos. O Brasil não só não consegue ser mediador na questão russo-ucraniana, mas sequer consegue ser mediador na questão da Venezuela.
Você tem uma operação militar na sua fronteira, um sequestro, a captura de um presidente, por mais que ele seja um tirano, mas isso sequer é coordenado, é tratado, é informado ao Brasil. Isso demonstra quão o Brasil e a sua política externa estão à deriva e inertes na América do Sul e na América Latina.
O Brasil, no momento, está numa posição muito intrincada, muito delicada, porque o fato já ocorreu. Tirou o ditador, mas o regime continua. As Forças Armadas apoiaram a [presidente interina] Delcy Rodrigues.
De que outras formas o Brasil e os países da região podem buscar se defender?
Montar coalizões e alianças para reiterar a importância do respeito ao direito internacional e ao equilíbrio securitário no contexto regional e o respeito à autodeterminação dos países latino-americanos.
Agora, o Brasil precisa dosar a intensidade de seu discurso, porque a relação Brasil-Estados Unidos, Lula-Trump, estava num compasso de atritos, até chegar ao diálogo. Depois desse ponto de aproximação, a relação está em amadurecimento. Se o Brasil optar por um discurso agressivo e demasiadamente crítico, isso pode criar um revés.
Os americanos, na verdade, conduziram a relação com o Brasil para neutralizar a capacidade do país de ter uma postura mais defensiva na América Latina em relação a qualquer processo de intervencionismo regional.
Após a ação, os países poderão aumentar os investimentos em defesa?
Há risco de os países começarem a buscar proteção militar da China ou da Europa e desencadear um maior gasto com defesa. Hoje, nas Forças Armadas, no Ministério da Defesa e nas academias militares, todo mundo deve estar pensando em como replanejar suas estratégias militares e reorganizar seus orçamentos de defesa, assim como sua estratégia de contenção de futuras operações contra o país ou diversos países na região.
Não estou dizendo que eles vão ampliar os recursos agora. Mas esse debate vai começar para um planejamento que vai ser executado em alguns anos. Nós temos recursos preciosos na Amazônia. Você pode ter alguém que invente uma narrativa do tipo “há uma organização narcotraficante na Amazônia”, a razão pela qual os americanos poderiam tentar efetuar uma operação militar.
Como os países da região podem se unir em um momento de polarização, em que a Argentina, por exemplo, defendeu a ação de Trump de forma enfática?
Não há uma unidade latino-americana ou sul-americana, porque não há um projeto de integração verdadeiro. Aí, vamos para as circunstâncias de cada país.
A Argentina está apoiando [Trump] porque o [presidente Javier] Milei logo vai enfrentar eleições. Isso para ele é um importante combustível eleitoral. E Milei está devendo para Trump. Para recuperar a economia argentina, ele precisa de empréstimos do Fundo Monetário Internacional. Esses empréstimos para a Argentina só saem se a Casa Branca pressionar e autorizar o FMI. Então, qualquer discurso do Milei contrário à ação militar americana na Venezuela é literalmente o Milei arriscar a sua reeleição e colapsar os empréstimos que ele está tentando obter.
Agora, cada um está pensando para o seu lado, mas não há um consenso majoritário em apoio aos Estados Unidos. O posicionamento majoritário é de condenação. É óbvio que os Estados Unidos, para não se isolarem, vão pressionar esses países ou a ficarem silentes, ou a apoiarem.
Também há uma dependência muito grande dos países da América Central em relação aos Estados Unidos. Honduras, El Salvador, Guatemala, vão se manifestar contra? Não vão. Há uma relação de dependência absoluta. Porém, a pergunta chave é: o que a China vai fazer? Porque a China tem investimentos e interesses econômicos e comerciais na América Latina e na América do Sul.
Até que ponto esse expansionismo, intervencionismo americano vai comprometer os interesses econômico, financeiro e comerciais da China? E como a China vai se comportar daqui doravante em relação a isso? Essa é a pergunta central.
Pois, bem. Como a China deverá se posicionar?
Obviamente, os chineses não vão querer perder seus investimentos e sua relação comercial, como o porto de Chancay, no Peru. À medida que os americanos pressionam esses países para romperem com a China, os chineses vão usar a mesma moeda na Ásia e na América, em uma retaliação cruzada.
Por isso que a situação é muito perigosa para o Brasil, porque isso tudo vai acontecer, na minha avaliação, independentemente da vontade do Estado brasileiro. Qual é a capacidade do Brasil agora alterar as coisas?
A China poderá reduzir investimentos no Brasil neste contexto?
Não vejo a China diminuindo os seus investimentos e seus interesses econômicos na América Latina. Com o Brasil, isso não vai acontecer. Na Argentina, duvido que aconteça. No Peru, a mesma coisa.
Há chances de Trump fazer novas operações na Venezuela?
Não vejo sentido em ele fazer uma operação militar maior à medida que ele não quer a queda do regime e à medida que o regime está sinalizando o diálogo e convergência mútua de alinhamento de interesses a respeito daquilo que interessa ao Trump.
Essa operação contra Maduro foi de alto risco, que envolveu muita logística, muita inteligência e não é uma operação que você consegue repetir sempre. Se repeti-la, o risco é maior.
Ele também eliminou a Maria Corina Machado, que não tem legitimidade na visão dele. Para ela assumir, ela precisa das forças armadas e das forças de segurança. Ela não ia ter [apoio]. Se ela não teria isso, então não tem como implantar o controle que ele quer sobre os recursos naturais. Para conseguir isso, ele precisa que o exército e as forças de segurança venezuelanas, primeiro, concordem com os acordos entre Venezuela e Estados Unidos. Então, melhor ter esses caras do lado dele. Se botar a Maria Corina, não vai ter.
Segundo, a Maria Corina talvez seja mais independente e não concorde com todas as exigências de Trump.
