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Bolívia decreta estado de exceção após semanas de protestos e bloqueios

Presidente Rodrigo Paz ordenou mobilização de policiais e militares para liberar estradas; indígenas e cocaleiros ligados a Evo Morales mantêm protestos

O Ministro das Relações Exteriores da Bolívia, Fernando Aramayo, discursa durante uma coletiva de imprensa com correspondentes internacionais em La Paz, em 19 de junho de 2026 (Aizar RALDES / AFP)

O Ministro das Relações Exteriores da Bolívia, Fernando Aramayo, discursa durante uma coletiva de imprensa com correspondentes internacionais em La Paz, em 19 de junho de 2026 (Aizar RALDES / AFP)

Publicado em 20 de junho de 2026 às 11h55.

O presidente da Bolívia, Rodrigo Paz, decretou neste sábado, 20, estado de exceção em todo o país e ordenou a mobilização de policiais e militares após mais de seis semanas de protestos e bloqueios de estradas.

As manifestações são lideradas por indígenas aimarás e agricultores ligados ao ex-presidente Evo Morales, que pedem a renúncia de Paz. O governo afirma que a medida foi tomada para restabelecer a circulação nas rodovias e garantir a segurança da população.

“Tomamos a decisão de declarar estado de exceção em todo o território nacional”, disse Paz, em mensagem transmitida pelo canal estatal a partir do Palácio de Governo. Ele afirmou que a decisão ocorre diante de “uma tentativa de golpe de Estado vinda do narcoterrorismo”.

O que motiva os protestos na Bolívia?

Trabalhadores, agricultores e indígenas iniciaram no começo de maio uma greve e bloqueios de rodovias para cobrar do governo uma solução para a crise econômica, descrita como a mais grave da Bolívia em quatro décadas.

Os manifestantes também protestam contra a venda de gasolina de má qualidade, que gerou mal-estar generalizado.

Sem acordo, os grupos passaram a defender a renúncia do presidente. Os bloqueios se espalharam pelo país, e houve confrontos por vários dias com a polícia em La Paz. A capital e a cidade vizinha de El Alto enfrentam forte escassez de alimentos, remédios e combustíveis.

Militares e policiais foram acionados

Paz disse que orientou a Polícia Boliviana e as Forças Armadas a executar ações para restabelecer o livre trânsito, recuperar as estradas e garantir a segurança da população. O decreto terá vigência máxima de 90 dias.

Segundo o texto, os ministérios de Governo e da Defesa poderão emitir resoluções conjuntas para restringir direitos de circulação, locomoção e reunião, quando considerarem necessário.

O decreto ainda precisa ser ratificado pelo Congresso, que deve convocar reuniões nas próximas horas.

Acordo com central sindical

A decisão foi anunciada depois de um acordo firmado na sexta-feira, 19, entre o governo e a central sindical COB. Mario Argollo, principal líder da organização, afirmou que “a partir deste momento começam a ser suspensas as medidas de pressão em nível nacional”.

Ele também disse que há “compromisso do governo de cumprir de maneira imediata tudo o que foi firmado”.

Paz saudou o acordo e afirmou que “o diálogo é mais forte do que a própria força; não sobrevivem os mais fortes, sobrevivem os que sabem se adaptar”.

O pacto prevê estudar a libertação de detidos nas marchas em La Paz e nos bloqueios de estradas. A Defensoria do Povo constatou que há mais de cem presos.

O governo também se comprometeu a não privatizar empresas estatais, como reivindicam os sindicatos.

Uma mulher segura uma bandeira da Wiphala durante uma reunião de líderes dos

Indígenas e cocaleiros mantêm protestos

Apesar do acordo com a COB, indígenas da Federação Túpac Katari e produtores de coca apoiadores de Morales decidiram manter os bloqueios.

Sindicatos de agricultores e cocaleiros rejeitaram o pacto e anunciaram que cerca de cinquenta bloqueios em todo o país iriam continuar.

“Foi decidido radicalizar os piquetes de greves de estradas”, disse o líder dos agricultores Antonio Mallku, em entrevista ao canal Unitel.

Em comunicado divulgado por uma rádio de sua propriedade, os cocaleiros afirmaram que decidiram “manter a mobilização e os bloqueios de estradas” e classificaram a assinatura do acordo como “uma traição”.

Governo acusa Morales de incentivar manifestações

O governo de Paz, que assumiu em novembro após 20 anos de governos de esquerda, acusa Evo Morales de incentivar as manifestações e de usar dinheiro proveniente do tráfico de drogas. A gestão, no entanto, não apresentou provas.

Morales está escondido na região cocaleira do Chapare, no centro do país, para evitar uma ordem de prisão em um caso de tráfico de menor de idade, acusação que ele nega.

O ex-presidente também rejeita as acusações de vínculos com o narcotráfico.

*Com informações de AFP

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