A trama shakespeariana do Reino Unido

A palavra “saída”, slogan da campanha vitoriosa do plebiscito que tirou a Grã-Bretanha da União Europeia, ganhou nova conotação nos últimos dias. Os principais líderes partidários e protagonistas da Brexit estão voltando para casa, numa debandada sem precedentes na história da política britânica. Da oposição trabalhista aos ultranacionalistas do Partido da Independência do Reino Unido (Ukip), passando pelos conservadores, no poder, uma sequência de renúncias, traições e abandonos transforma a trama política em um enredo mais intrigante e complexo do que as peças de William Shakespeare.

Em seguida à vitória da saída por 52% a 48%, o primeiro-ministro David Cameron renunciou ao cargo, o que era esperado, já que, depois de ter defendido a permanência, não teria condições de “conduzir o barco para esse novo porto”, conforme a imagem que ele próprio usou. De acordo com o roteiro imaginado antes do plebiscito, sua renúncia abriria caminho para a ascensão do deputado Boris Johnson, o popular ex-prefeito de Londres, versão inglesa de Donald Trump, que liderou a campanha pelo Brexit. Na última hora, no entanto, o ministro da Justiça, Michael Gove, parceiro de Johnson na campanha, puxou o seu tapete e se lançou à liderança, alegando ter chegado à conclusão de que o ex-prefeito não era adequado para essa posição.

O novo líder conservador será o próximo primeiro-ministro, já que o partido tem ampla maioria no Parlamento, e Johnson não quis dar garantias de que acomodaria em seu futuro governo os conservadores que defenderam a permanência na UE. Gove foi convencido na última hora por essa corrente a se lançar, depois de receber um email de sua mulher, a jornalista Sarah Vine, advertindo-o a não confiar em Johnson. O email vazou, valendo a Sarah o papel de Lady Macbeth, a conspiradora da tragédia de Shakespeare que convence o marido a matar o rei da Escócia.

Johnson então resolveu se vingar, anunciando seu apoio à secretária da Energia, Andrea Leadsom, e levando consigo 25 deputados conservadores, segundo o cálculo de um deputado aliado. Andrea, como Johnson e Gove, defendeu a saída do bloco. A decisão do ex-prefeito polarizou a disputa pela liderança do Partido Conservador entre duas mulheres. Na ala dos que apoiaram a permanência britânica na União Europeia, candidatou-se a ministra do Interior, Theresa May, considerada por seus admiradores “a nova Margaret Thatcher”, a dama de ferro que enfrentou os sindicatos e chacoalhou o país de seu semi-socialismo nos anos 80 com reformas liberais que se tornaram referência para todo o mundo. Outros candidatos são o ministro do Trabalho e da Previdência, Stephen Crabb, e o ex-ministro da Defesa Liam Fox.

Em um lento e penoso processo, a disputa vai se afunilando em uma sequência de votações dos deputados conservadores, para eliminar os candidatos, que começou nessa terça-feira, 5, e deve ir até setembro. No final, sobrarão dois candidatos (ou duas candidatas, como pode ser o caso), e a escolha caberá aos 150.000 filiados do Partido Conservador. Theresa tem o apoio de 10 membros do gabinete e de 100 dos 330 deputados conservadores. Andrea não tem apoio de ministros até agora. Johnson é seu cabo eleitoral mais importante, mas ela está em ligeira vantagem nas bases do partido. De acordo com pesquisa do blog ConservativeHome, Andrea tem 38% das preferências dos filiados e Theresa, 37%. Os outros candidatos seguem bem atrás.

A marcha da saída

Embora as duas candidatas tenham ficado em campos opostos no plebiscito, não está no horizonte uma reabertura da discussão da saída britânica da União Europeia.
“Brexit significa Brexit”, disse Theresa. “A campanha foi disputada, a votação foi realizada, o comparecimento foi alto e o público deu seu veredito. Não deve haver tentativas de permanecer na UE, de entrar nela pelas portas do fundo nem de um segundo plebiscito.” Theresa se situa à direita de Cameron e fez uma campanha discreta em favor da permanência, de maneira a atrair pouca rivalidade e credenciá-la para reunificar o partido. Com esse intuito, ela escolheu para coordenar sua campanha à liderança do partido um defensor da Brexit, o líder conservador na Câmara dos Comuns (Deputados), Chris Grayling.

Theresa ponderou, no entanto, que a saída britânica levará anos de negociação. Sua rival Andrea Leadson marcou uma posição contrária a essa, defendendo a retirada o mais depressa possível, para evitar uma incerteza prolongada. Em mais um giro político surpreendente, para garantir apoios entre os que votaram pela permanência, Andrea saiu em defesa dos 3 milhões de imigrantes europeus, garantindo seu direito de continuar na Grã-Bretanha. E acusou indiretamente Theresa de querer usá-los como trunfo na negociação da saída do bloco. “Eu me comprometo a garantir os direitos de nossos amigos da UE que já vieram para cá morar e trabalhar”, disse ela, no discurso de lançamento de sua campanha, na segunda-feira, 4. Temos de dar-lhes segurança. Eles não podem ser usados como barganha em nossas negociações.”

Theresa, sob cujo Ministério do Interior está a Secretaria da Imigração, frisou, em uma reunião da bancada conservadora no Parlamento, que o tema será tratado nas negociações. A ministra-candidata disse que quer oferecer garantias aos imigrantes europeus, mas que também precisa assegurar a proteção dos direitos dos britânicos que vivem na UE, calculados em 1,2 milhão. A discussão interna no partido ocorreu depois que o secretário da Imigração, James Brokenshire, atraiu críticas da oposição trabalhista e até de colegas conservadores, ao afirmar no Parlamento que o governo ofereceria garantias aos imigrantes em troca da proteção dos direitos dos britânicos no continente europeu.

Em outro lance da trama, o milionário Aaron Banks, dono de bancos, seguradoras e minas de diamantes, principal financiador da campanha pelo Brexit, declarou apoio a Andrea, o que deu nova munição aos defensores de Theresa. Andrea garantiu a parlamentares conservadores que não aceitará dinheiro nem apoio político do milionário.

Banks doou 1 milhão de libras (1,31 milhão de dólares, depois da desvalorização da moeda britânica) ao Ukip. Os detratores de Andrea espalharam que o Ukip estava tentando “tomar” o Partido Conservador. Isso, no contexto em que Nigel Farage, radical defensor da saída da UE, deixou a liderança do Ukip e anunciou que estava abandonando a política.

“Eu nunca fui, e nunca quis ser, um político de carreira”, declarou Farage, em mais uma surpresa desse pós-Brexit, quando todos imaginavam que ele colheria os frutos de sua campanha vitoriosa no plebiscito. “Meu objetivo de estar na política era tirar a Grã-Bretanha da União Europeia”, lembrou Farage, que ainda é deputado no Parlamento Europeu. “Durante a campanha do plebiscito, eu disse ‘quero meu país de volta’. O que estou dizendo agora é ‘quero minha vida de volta’, e ela começa agora mesmo.” O Ukip obteve 12,6% dos votos nas eleições do ano passado, mas, pelo sistema proporcional britânico, que inflaciona a bancada dos partidos mais votados, elegeu apenas um deputado no Parlamento de 650 cadeiras.
Os ingleses são mesmo excêntricos.

Banks, por sua vez, que investiu 6 milhões de libras (7,83 milhões de dólares para a campanha do Brexit, declarou que é hora de fundar um novo partido. “Acho que temos uma boa chance de tomar o lugar dos trabalhistas como oposição porque eles estão implodindo e seus eleitores pela primeira vez desafiaram o partido, votando pela saída”, calcula Banks, cujo sobrenome é uma piada pronta.

A crise dos trabalhistas

De fato, os tradicionais eleitores do Partido Trabalhista, operários sindicalizados, com baixo nível de instrução, votaram em massa pelo Brexit, enquanto o partido defendia a permanência na UE. Esses eleitores atribuem a redução de vagas nas indústrias à intensificação do comércio exterior, e ainda culpam a imigração pela perda de empregos e de benefícios sociais.

O resultado do plebiscito instaurou uma crise também no partido Trabalhista. A bancada aprovou na terça-feira, 28, cinco dias depois do plebiscito, uma moção de desconfiança contra o líder do partido, Jeremy Corbyn. Entretanto, Corbyn agarrou-se à lei, que não o obriga a ceder à liderança pela perda de apoio dos parlamentares. “Fui eleito democraticamente líder de nosso partido para um novo tipo de política por 60% dos membros e apoiadores do Labour, e não vou traí-los renunciando”, disse Corbyn, que pertence à esquerda do partido. “O voto de hoje não tem legitimidade constitucional. Nosso povo precisa que membros do Partido Trabalhista, sindicalistas e deputados se unam sob minha liderança em um momento crítico para nosso país.”

A liderança é postulada pela deputada Angela Eagle, que representa o partido nas questões ligadas ao ambiente de negócios, e por Owen Smith, responsável pelas áreas de trabalho e previdência. Pelo sistema britânico, o partido de oposição tem o equivalente a ministros em um gabinete paralelo. O gabinete trabalhista renunciou como forma de pressão pela saída de Corbyn. O vice-líder do partido, Tom Watson, está realizando reuniões com sindicalistas, para convencê-los a retirar o apoio a Corbyn e salvar o Labour do impasse. Watson chamou a gestão de a “última rolagem de dados”.
Incidentalmente: se Angela se tornar a líder trabalhista, e os conservadores escolherem Theresa May ou Andrea Leadson, a política britânica ficará dominada por mulheres. A Escócia já tem uma primeira-ministra, Nicola Sturgeon.

Mark Field, um deputado conservador que planejava apoiar Boris Johnson, antes de ele ser traído, suspirou, descrevendo a situação de seu próprio partido: “Ao menos isso mostra que não é só o Partido Trabalhista que é capaz de ser uma total bagunça”.

Líderes europeus ressentidos com a saída britânica estão aproveitando para tripudiar. “Patriotas não renunciam quando as coisas ficam difíceis”, censurou o presidente da Comissão Europeia, o luxemburguês Jean-Claude Juncker. Já o belga Guy Verhofstadt, líder da bancada liberal no Parlamento Europeu, comparou os líderes britânicos a “ratos que abandonam um navio afundando”.

É só o começo do movimento de placas tectônicas causado pelo plebiscito.

(Lourival Sant’Anna)

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