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Wikipedia completa 25 anos e cutuca big techs: 'Conhecimento é humano'

Campanha de aniversário da enciclopédia colaborativa aposta em série documental sobre editores voluntários para contrapor automação e desinformação

Criada em 2001, a Wikipedia reúne milhões de artigos editados por voluntários e está presente em mais de 300 idiomas (Thomas Fuller/Getty Images)

Criada em 2001, a Wikipedia reúne milhões de artigos editados por voluntários e está presente em mais de 300 idiomas (Thomas Fuller/Getty Images)

Da Redação
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Redação Exame

Publicado em 16 de janeiro de 2026 às 10h19.

Última atualização em 16 de janeiro de 2026 às 10h27.

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Ao completar 25 anos, a Wikipedia lançou uma campanha que desloca o foco da plataforma para as pessoas que a constroem. Criada pela agência britânica Kin, a iniciativa celebra os editores voluntários responsáveis por escrever, revisar e checar milhões de verbetes em diferentes idiomas.

O projeto é estruturado como uma série documental que acompanha oito colaboradores de países distintos. Entre eles estão um monitor de tempestades na Califórnia, uma médica na Índia que compartilhou informações de saúde pública durante a pandemia, uma bibliotecária em Tóquio dedicada ao acesso em japonês e um fotógrafo de Connecticut que documenta a cultura negra por meio de imagens disponibilizadas gratuitamente.

A campanha chega em um momento em que a Wikipedia se posiciona como um contraponto ao conteúdo guiado por algoritmos. A mensagem é que os textos publicados resultam de julgamento coletivo e experiência humana, e não de automação. O conceito é sintetizado no tema “Knowledge is human” (“Conhecimento é humano”).

“Em um mundo moldado por algoritmos, desinformação e ruído constante, a Wikipedia nos lembra de algo simples: o prazer de aprender e o valor do conhecimento construído por pessoas, para pessoas”, disse Sophie Ozoux, cofundadora da Kin, ao portal AdAge. “Esta campanha é uma carta aberta à rede humana que sustenta o maior projeto colaborativo do mundo”, afirmou Kwame Taylor-Hayford, também cofundador da agência.

Além da série documental, a agência produziu um filme institucional de 90 segundos, lançado no fim do ano passado. Dirigido por Adrian Yu, da produtora Excetera, o vídeo foi montado exclusivamente com imagens e vídeos do Wikimedia Commons. Foram usados mais de 700 arquivos enviados por colaboradores de diferentes países.

A estrutura do filme reproduz a lógica colaborativa da enciclopédia, combinando registros de eventos globais e cenas cotidianas para mostrar como contribuições individuais se acumulam ao longo do tempo. O uso apenas de material gerado pela comunidade reforça a ideia de que a escala da Wikipedia depende do esforço distribuído de voluntários, e não de uma produção centralizada.

O pacote de aniversário inclui ainda ações interativas, como uma cápsula do tempo digital, um quiz e recursos em redes sociais que convidam usuários a assinar um cartão virtual de aniversário. Novas ativações estão previstas ao longo do ano.

“Wikipedia é um dos melhores exemplos do potencial humano para criar algo relevante por meio da colaboração”, disse Zack McCune, diretor global de marca da Wikimedia Foundation ao AdAge. Segundo ele, a campanha destaca as pessoas que tornam esse recurso global de conhecimento possível.

Assista ao vídeo da campanha

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Repositório colaborativo

A Wikipedia entrou no ar em 15 de janeiro de 2001, em um momento em que o acesso ao conhecimento ainda era mediado por bibliotecas físicas, enciclopédias impressas e instituições acadêmicas. O projeto nasceu da parceria entre Jimmy Wales, empreendedor com uma visão radical de abertura, e Larry Sanger, filósofo que assumiu o papel de primeiro editor-chefe. A colaboração durou pouco mais de um ano, mas o embate conceitual entre os dois moldou toda a trajetória da enciclopédia.

Desde o início, Wales defendia que qualquer pessoa poderia escrever e editar artigos, desde que respeitasse regras básicas. A ideia era criar um patrimônio comum de conhecimento acessível gratuitamente, sem barreiras geográficas ou institucionais. Sanger, por sua vez, via riscos nesse modelo e defendia maior controle editorial e participação de especialistas, temendo que a abertura irrestrita comprometesse a neutralidade.

O modelo adotado rompeu com a lógica tradicional da autoridade centralizada. Na Wikipedia, não há donos de artigos. Todo conteúdo pode ser alterado, desde que sustentado por fontes confiáveis e debatido entre os editores. Alterações controversas são discutidas até que se alcance consenso, e conflitos mais graves podem ser analisados por comitês internos formados pela própria comunidade.

O crescimento foi rápido. Em 2002, a Wikipedia em inglês reunia cerca de 25 mil verbetes. Em 2006, ultrapassou a marca de um milhão. Hoje, soma mais de 7 milhões de artigos apenas nesse idioma. A versão em português reúne cerca de 1,1 milhão de artigos, enquanto o projeto como um todo está presente em mais de 300 línguas.

Desafios na era da inteligência artificial

Duas décadas depois de seu lançamento, a Wikipedia ocupa uma posição central no ecossistema digital. Além de ser uma das principais fontes de consulta direta, seu conteúdo alimenta buscadores, assistentes virtuais e modelos de linguagem usados por empresas de tecnologia em todo o mundo. Essa centralidade ampliou tanto sua relevância quanto suas vulnerabilidades.

Cada idioma da Wikipedia funciona como uma enciclopédia independente, com regras próprias e comunidades distintas. Isso gera lacunas significativas: um artigo pode existir em uma língua e estar ausente em outra. Ferramentas internas ajudam a mapear essas ausências, mas a desigualdade persiste, especialmente em idiomas com menos editores ativos.

Nos últimos anos, a ascensão da inteligência artificial trouxe um novo tipo de risco. Conteúdos gerados automaticamente passaram a ser inseridos em Wikipedias de idiomas menos difundidos, muitas vezes com erros ou traduções imprecisas. Em 2025, o único editor da versão em groenlandês pediu o encerramento do projeto após uma onda de textos gerados por IA comprometer a qualidade do conteúdo e ameaçar a preservação da língua local.

Esse cenário se agravou com o surgimento de projetos concorrentes baseados em IA. A xAI, de Elon Musk, lançou a Grokipedia, uma enciclopédia criada a partir de modelos de linguagem. Parte de seus artigos é gerada automaticamente; outra parte reutiliza textos da Wikipedia. A iniciativa levantou debates sobre autoria, confiabilidade e a diferença entre conhecimento revisado por pessoas e conteúdo produzido por máquinas.

Enquanto críticos veem risco de degradação informacional, defensores da Wikipedia sustentam que o modelo humano, baseado em debate e verificação coletiva, segue sendo um diferencial. O desafio agora é preservar esse sistema em um ambiente no qual velocidade, automação e escala passaram a ditar o ritmo da produção de conhecimento digital.

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