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Whisky do jejum e zueira na estrada: como a Diageo transformou a superstição em vendas

Em entrevista à EXAME, Guilherme Martins revela a ousadia de mandar uma carreta cheia de latas de "Pé Frio" para a Argentina e como o jejum de 24 anos da Seleção virou um single malt de luxo

Da Redação
Da Redação

Redação Exame

Publicado em 23 de maio de 2026 às 13h08.

Última atualização em 25 de maio de 2026 às 11h04.

Enquanto a maior parte do mercado publicitário se isola em campanhas pasteurizadas e com medo do cancelamento, a Diageo decidiu que o melhor caminho para conversar com o jovem adulto era o deboche.

A companhia percebeu que a linguagem real da amizade não passa pelo elogio institucional, mas sim pela provocação e pela brincadeira de mesa de bar. Essa quebra de protocolo transformou o portfólio de bebidas em um termômetro cultural pronto para surfar o maior pico de consumo do país.

Essa aposta no comportamento sem filtro gerou a campanha "Verdade na Lata", da Smirnoff Ice. Ao carimbar as embalagens com os codinomes que os amigos usam para se zoar em dias de partida, a marca viu o rótulo "Pé Frio" registrar um salto de 190% nas vendas durante os noventa minutos de jogo.

O ápice da audácia foi cruzar a fronteira: a empresa despachou uma carreta inteira carregada com o lote "zarento" direto para a Argentina, abrindo espaço para o lançamento da edição "Pé Quente" em solo brasileiro.

Direto do MMA, o principal ponto de encontro de marketing e negócios de São Paulo, a EXAME conversou com Guilherme Martins, diretor de marketing da Diageo. O executivo revelou os bastidores da parceria criativa com o Porta dos Fundos, a estreia histórica de uma gigante de destilados como apoiadora oficial da Copa do Mundo da FIFA nas Américas e o cálculo matemático que conectou a maturidade de um whisky ao tempo de espera pelo hexa.

“Tudo ficou tão politicamente correto que brincar um pouco com a marca e com o consumidor gera distintividade. Não existe 100% de certeza antes de colocar uma campanha na rua. Um certo nível de risco é obrigatório se você quer aparecer e gerar conversa hoje em dia”, crava Martins.

O fator tempo: engarrafando a última vez que o Brasil soltou o grito de campeão

A estreia da Diageo no maior palco do futebol mundial estabelece um contraste inteligente entre a velocidade do digital e a paciência da coquetelaria. Se a Smirnoff opera no ritmo imediato dos memes, a Johnnie Walker decidiu usar o ativo mais valioso de um destilado para dialogar com o torcedor: o tempo.

A marca aproveitou uma coincidência dolorosa para o país — o jejum de exatamente 24 anos sem títulos mundiais — para lançar uma edição ultralimitada de Johnnie Walker 24 anos.

O líquido foi colocado nos barris exatamente no ano da última conquista do Brasil e a garrafa chega ao mercado com um rótulo bordado à mão, inspirado na camisa da Seleção.

É, literalmente, a materialização da esperança destilada, transformando o calvário da espera em um artigo de alto valor agregado.

O movimento amarra o posicionamento de uma categoria que passou a última década ensinando o brasileiro a consumir alta coquetelaria.

"Os drinques praticamente não existiam no cotidiano nacional há dez anos. O que estamos fazendo agora na Copa é escalar esse comportamento, aproximando o consumidor da versatilidade por meio do nosso maior símbolo, que é a caipiroska", explica o diretor.

A diplomacia dos dois limões: 48 jingles e a logística do esquenta

Para abraçar o formato expandido do torneio, a Smirnoff transformou seu portfólio em um laboratório de receitas globais.

A marca desenvolveu 48 versões de caipiroska, cada uma inspirada em um país participante, amparadas por 48 jingles exclusivos e oito filmes publicitários que brincam com as peculiaridades de cada cultura.

O sabor do Brasil, batizado de "Dois Limões", entrega um visual verde e amarelo direto no copo.

A estratégia ganha tração comercial ao entender a física do "esquenta". Dados internos da companhia apontam que o consumidor inicia o processo de preparação e decisão de compra cerca de duas horas antes do apito inicial. É nesse intervalo que a operação de e-commerce precisa ser cirúrgica.

Em vez de vender apenas a garrafa isolada, a Diageo estruturou parcerias com plataformas como iFood, Mercado Livre e Amazon para comercializar a experiência completa.

O usuário consegue pedir o combo temático de um país — que inclui a vodka, as frutas específicas e até o saco de gelo —, garantindo que o produto chegue antes que os convidados apertem a campainha.

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