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Selo de origem até valoriza, mas não salva produto fraco

Países vêm apostando na origem para cobrar mais caro, porém, nenhum deles escapa da competitividade

Selo Fabriqué en France, o Made in France  (Marc Tawil)

Selo Fabriqué en France, o Made in France (Marc Tawil)

Marc Tawil
Marc Tawil

Estrategista de Comunicação

Publicado em 31 de julho de 2026 às 14h08.

Escrevo de Paris, uma cidade que conheci com três meses de idade, portanto, 52 anos atrás. Sou franco-brasileiro e, embora nascido no Brasil, tenho aqui família, amigos e raízes.

Em 2026, voltando depois de três anos, a primeira coisa que salta aos olhos é a bandeira francesa por todo lado. E não por saudosismo da Copa do Mundo nem por ufanismo barato.

O selo Fabriqué en France, o Made in France deles (às vezes escrito por extenso) está por todos os cantos: nos mercados de rua, nos supermercados, nas vitrines de moda, nas prateleiras de cosméticos, nos rótulos alimentícios, nos automóveis, no design... Uma valorização que beira o absoluto.

Por trás dela, um método – e um método com duas frentes, tocadas ao mesmo tempo.

A primeira constrói desejo. O Made in France deixou de ser carimbo de origem e virou selo premium, num exercício deliberado de nation branding que alinha cultura, política e estratégia de negócio (Paris School of Management, 2026).

Marcas jovens como a Le Slip Français transformaram a origem em posicionamento, e o mesmo princípio sustenta o preço de uma bolsa Chanel a uma garrafa de Moët.

A segunda precifica o custo de quem entra sem os mesmos compromissos.

Em junho, o Parlamento Francês aprovou uma taxa ambiental por peça sobre as plataformas de moda ultrarrápida, lideradas pelas chinesas Shein e Temu: até 20 euros por item em 2030, limitada a metade do preço, mais a proibição de publicidade.

Somou a isso uma taxa fixa por encomenda barata importada e redirecionou a receita a produtores franceses. Com a mesma moeda, freia o que entra e financia o que produz.

A origem virou critério político

O que deveria ser exceção francesa virou padrão global. As tarifas de 2025 acenderam um patriotismo de consumo mensurável: 91% dos canadenses passaram a priorizar produtos nacionais, e os destilados americanos perderam 66% das vendas no Canadá em dois meses (Global News, 2025).

O movimento nasceu nas ruas e ganhou escala nas redes, com influenciadores transformando a etiqueta de origem em bandeira de campanha. A origem entrou na cesta de compras como critério político.

O mecanismo mais fino desse jogo tem um nome antigo: terroir. Quanto mais estreita a origem (de um país para uma região, de uma região para uma encosta), maior o prêmio que ela cobra, porque passa a vender geografia, tradição e cultura num nome só.

O que uma Champagne e um Bordeaux cobram, por exemplo, é o lugar.

E o efeito atravessa todos os segmentos. No automotivo, a Alemanha é dona da palavra engenharia e a cobra em cada Mercedes, cada Audi, cada Bosch, com um prêmio que o consumidor paga antes de dar a partida. O Japão fez o mesmo com eletrônica; a Suíça, com relojoaria; a Itália, com design. Origem vira preço em qualquer categoria onde alguém decidiu construí-la, do bem de consumo diário ao bem de capital.

Marca não garante competitividade

O estudo Rexecode-SKEMA de 2026, com 480 importadores em seis países, mostra os produtos industriais franceses mantendo a fama de qualidade e tropeçando no preço.

A França acumula déficit comercial desde 2004, e o maior rombo é com a China. O selo funciona no topo da pirâmide, onde quem compra uma Hermès paga com prazer pela origem.

No meio da tabela, com produto de volume, o comprador abre a planilha – preço, prazo, especificação – e a origem sozinha não segura.

Marca amplifica o que existe embaixo dela: sobre produto bom, multiplica valor; sobre produto caro e mediano, só acende a fraqueza mais rápido. É o aviso a quem sonha com a “Marca Brasil” antes de garantir que o produto aguenta o peso da bandeira.

E o Brasil tem terroir de sobra: café, cacau, cachaça, moda praia, cosmético de ativo amazônico, carne, música. Matéria-prima de desejo que a França levaria décadas para inventar.

Ainda assim, exportamos o café verde em grão para que outro país torre, embale e cobre a margem da narrativa. A parte cara da cadeia é justamente a que desistimos de contar.

O mais duro é que já sabemos fazer. O Vale dos Vinhedos virou a primeira indicação geográfica do País em 2002; o Café do Cerrado Mineiro veio em 2005 (INPI/Embrapa); e um quarto das nossas indicações geográficas foi reconhecido depois de 2020 (Planeta, 2022). O caminho está aberto e trilhado. Segue tratado como hobby de alguns produtores, quando deveria ser projeto de país.

Origem é um ativo de reputação.

Constrói-se de propósito, com política, disciplina de marca e paciência, ou se entrega de graça a quem contar a história melhor do que nós.

A França fez da sua um projeto nacional. A nossa ainda depende da sorte de cada empreendedor, marca ou produtor que resolve, sozinho, plantar uma bandeira.

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