Entre algoritmos, bots e IA, a internet muda de forma. No centro da discussão, permanece a pergunta sobre autoria, presença humana e confiança no ambiente digital (PeopleImages/Getty Images)
Estrategista de Comunicação
Publicado em 19 de fevereiro de 2026 às 15h35.
Enquanto o debate sobre o uso da inteligência artificial (IA) para criação de artigos, posts e relatórios segue em fogo alto, permita-me ampliar o foco: estaríamos vivendo o ápice da chamada “internet morta”?
A chamada Dead Internet Theory, que ganhou força no início da década passada, sustenta uma hipótese inquietante: desde 2016, grande parte do conteúdo e das interações online teria deixado de ser produzida majoritariamente por pessoas e passado a ser gerada por bots, sistemas automatizados e modelos de IA.
Para muitos, trata-se de uma teoria conspiratória. Para outros, é apenas uma descrição exagerada de um fenômeno real: a automação crescente da rede.
A tese é simples e desconfortável: o tráfego artificial aumentaria, interações seriam infladas por robôs, narrativas poderiam ser manipuladas por sistemas automatizados e, em pouco tempo, a maior parte do conteúdo disponível online seria criada por IA.
Previsões mais radicais falam em algo próximo de 90% (ou mais) nos próximos anos.
Independentemente do exagero nas estimativas, o ponto relevante é outro: a presença humana na internet deixou de ser pressuposto e passou a ser diferencial.
Antes de duvidar, observe como tem sido a sua produção e a de uma parte considerável das pessoas e marcas que você segue: um texto, vídeo ou carrossel cujo tema foi sugerido por um GPT da vida.
O texto, insossamente impecável, escrito por outra IA. As imagens criadas por um gerador visual, pago ou gratuito. A locução sintetizada por voz artificial. A distribuição feita por um algoritmo que conhece, com precisão cirúrgica, seus hábitos, preferências e padrões de comportamento e consumo.
Calma que vem mais.
Nos comentários, perfis robotizados interagem com frases feitas, perguntas e análises sem pé nem cabeça. Por vezes, conversam entre si.
Na caixa de mensagens, depois do já clássico “digite a palavra X para receber Y”, surgem bots oferecendo produtos, serviços, cursos e promessas de ganho rápido. Às vezes, tudo junto e misturado.
O ambiente digital como conhecíamos, tão humanamente caótico, começa a adquirir uma textura sintética – tudo tão natural quanto robôs humanoides dançando kung-fu na TV chinesa ou animando eventos de inovação mundo afora.
CEOs de gigantes da tecnologia reconhecem publicamente a dificuldade crescente de distinguir o que é produzido por humanos do que é gerado por inteligência artificial. É como se dissessem: “sabemos que a fronteira ficou difusa. E, sim, ela continuará se movendo”.
Ao mesmo tempo, surgem experimentos ainda mais radicais: plataformas concebidas para interação exclusiva entre IAs, onde humanos apenas observam, e ambientes em que algoritmos produzem, comentam e retroalimentam conteúdos em escala industrial.
A essa altura, você pode se perguntar: “se a produção de conteúdo se torna exponencialmente mais fácil, o que passa a diferenciar marcas, executivos e criadores? E se qualquer estrutura narrativa pode ser replicada com poucos comandos, onde reside a vantagem competitiva?”
Na minha visão, o fator diferencial e a vantagem competitiva têm o mesmo nome: confiança.
Uma confiança que não nasce da perfeição técnica. Nasce da coerência ao longo do tempo. Nasce da percepção de autoria. Nasce da sensação de que há alguém real por trás do que está sendo dito.
Acontece que a internet não vive de reflexões profundas. Vive de algoritmos e de volume. E, nesse ambiente, o efeito colateral começa a aparecer: a erosão da confiança.
Conteúdos excessivamente polidos, genéricos ou intercambiáveis geram suspeita. A audiência aprende a reconhecer padrões sintéticos. E, quando tudo parece possível de ser gerado, passa a ter valor aquilo que não é facilmente reproduzível.
Isso significa que devemos abandonar a inteligência artificial? Evidentemente que não. A IA é uma das maiores revoluções tecnológicas desde a própria internet. Uma ferramenta poderosa de apoio, pesquisa, organização e escala. Ignorá-la seria ingenuidade.
O erro estratégico não está no uso da tecnologia. Está na terceirização integral da autoria.
Existe uma diferença brutal entre utilizar IA como apoio e permitir que ela substitua completamente sua voz.
E é aqui que mora a ironia.
Vivemos a era da inteligência artificial, mas corremos o risco de mergulhar na era da inteligência ausente – quando há tecnologia de sobra e discernimento de menos.
Como, então, se destacar nesse novo cenário?
Fortalecendo o lastro humano: bastidores reais, reflexões consistentes, estudos de caso vividos, decisões explicadas a partir da própria experiência. Opiniões sustentadas ao longo do tempo, coerentes com trajetória e posicionamento.
Quanto mais pessoal e consistente for a construção narrativa, mais difícil será replicá-la artificialmente e maior será a confiança gerada.
A internet não está “morrendo”. Está apenas trocando de pele.
E, como toda mudança na natureza, ela exigirá mais responsabilidade.